Epitácio Pessoa/Estadão
Epitácio Pessoa/Estadão

Bunge e BP se unem e vão disputar a vice-liderança em açúcar e álcool no País

Com 11 usinas em 5 Estados, BP Bunge Bioenergia brigará pelo segundo lugar com a Biosev e a Atvos, da Odebrecht; múltis entraram no setor no início dos anos 2000 e, após tentativas de vendas por causa da crise do etanol, resolveram juntar operações

Mônica Scaramuzzo e Augusto Decker, O Estado de S.Paulo

22 de julho de 2019 | 10h51
Atualizado 22 de julho de 2019 | 22h15

A gigante do agronegócio Bunge e a petroleira BP anunciaram nesta segunda-feira, 22, a criação de uma nova empresa na qual atuarão juntas na produção de açúcar e etanol no Brasil. Foi a saída que as duas companhias encontraram para ganhar competitividade no setor, que está em crise há quase dez anos. Na BP Bunge Bioenergia, ambas dividirão o controle, com 50% de participação cada.

A nova companhia terá 11 usinas (8 da Bunge e 3 da BP) em cinco Estados e vai disputar palmo a palmo a vice-liderança neste setor. A maior empresa da área é a Raízen (joint venture entre os grupos Cosan e Shell), com capacidade de moagem de cana-de-açúcar superior a 60 milhões de toneladas anuais. A nova empresa terá capacidade para 32 milhões de toneladas, alcançando a Biosev, da rival Louis Dreyfus, e a Atvos, do grupo Odebrecht. A produção anual de etanol pode chegar a 1,5 bilhão de litros e a de açúcar, a 1,1 milhão de toneladas.

Em comunicado, os dois grupos informaram que a sede da nova companhia deve ficar em São Paulo. O presidente será Geovane Consul, da Bunge, e Mario Lindenhayn, da BP, ficará no comando do conselho de administração da empresa. Ambas as companhias terão representação igual no conselho de administração.

Acordo

Com a joint venture, a Bunge receberá US$ 775 milhões pela operação, dos quais US$ 700 milhões são “relativos à dívida sem recurso da Bunge a ser assumida pela união das empresas no fechamento da operação” e US$ 75 milhões da BP. Além disso, a Bunge não vai mais consolidar suas operações de açúcar e bioenergia no Brasil em demonstrações financeiras consolidadas.

Uma das maiores empresas globais do agronegócio, a Bunge estava tentando há pelo menos cinco anos se desfazer de suas unidades de açúcar e etanol, segundo fontes a par do assunto. A companhia faz parte do grupo de tradings chamado ABCD, ao lado das gigantes ADM, Cargill e Louis Dreyfus. Todas entraram no setor sucroalcooleiro no País, mas foram reduzindo sua exposição ao segmento. A Bunge fez sua estreia no setor em 2006 e, quatro anos mais tarde, adquiriu o grupo Moema, ficando entre as cinco maiores do País.

A British Petroleum também entrou no setor com a compra da usina Tropical Energia, em parceria com o produtor de grãos Jorge Maeda (que vendeu posteriormente sua fatia). A companhia adquiriu outras duas usinas.

Competitividade

Para Plinio Nastari, presidente da Datagro, uma das principais consultorias de açúcar e etanol do Brasil, a união entre Bunge e BP trará ganhos para as duas companhias. Além da redução de custos, a nova empresa deverá se beneficiar da distribuição do biocombustível a partir do terminal da BP em Paulínia (SP).

Entre 2003 e 2010, o setor sucroalcooleiro passou por um forte movimento de consolidação, impulsionado pela alta no preço do petróleo e o maior consumo de álcool. O etanol voltou a ganhar relevância no início dos anos 2000, com o avanço dos carros flex (gasolina e etanol). Foi nesse período que grupos estrangeiros entraram no setor com mais peso – além da Bunge, rivais como Cargill e Dreyfus (dona da Biosev) e conglomerados nacionais, como Odebrecht, fizeram sua estreia no setor. Com investimentos bilionários, inflacionaram os preços dos ativos àquela época, mas muitos foram ficando pelo caminho, por conta das pesadas dívidas.

Agravamento da crise

No governo de Dilma Rousseff, as usinas passaram a enfrentar sua maior turbulência, com o controle dos preços dos combustíveis, afirma Plínio Nastari. Mas não foi somente o controle de preço dos combustíveis que abateu os principais grupos.

A Atvos (do grupo Odebrecht), por exemplo, também foi contaminada pelas dificuldades financeiras de seus controladores, que tiveram envolvimento da Lava Jato. Em seu período de auge, o setor chegou a quase 450 usinas, mas mais de cem foram fechadas.

Planos da empresa

A BP Bunge Bioenergia terá como objetivo o investimento na renovação dos canaviais e a ampliação da capacidade utilizada das usinas no Brasil.

Segundo Geovane Consul, executivo da Bunge, que será presidente da nova empresa, num primeiro momento a estratégia será investir em canaviais para aumentar o aproveitamento das 11 usinas. “Hoje as duas empresas combinadas têm 90% de capacidade utilizada”, disse.

Segundo Mario Lindenhayn, executivo da BP Biocombustíveis que assumirá o conselho administrativo, BP e Bunge compartilham uma visão de demanda crescente por etanol no Brasil. “Ambas investiram continuamente nos últimos anos, quando o mercado não investiu tanto.”

Uma eventual abertura de capital da joint venture está no radar. “É uma possibilidade, mas o objetivo da gestão vai ser a integração das empresas, obtenção de sinergias e a elaboração de um plano de negócios que gere caixa”, disse Consul. /COLABOROU LETÍCIA PAKULSKI

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