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Buraco no governo francês já se parece com um abismo

ANÁLISE

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

26 de agosto de 2014 | 02h04

Desde ontem de manhã, a França não tem mais governo. O primeiro-ministro Manuel Valls apresentou sua demissão. Evidentemente, tem ainda um presidente da República, François Hollande, mas é um presidente sofrido, murcho, enfraquecido e infeliz.

Como foi possível chegar a tal situação? Nos últimos seis meses, o "governo de combate" de Manuel Valls não conseguiu sanar a economia - desemprego, setor produtivo em crise, dívida gigantesca, etc. - o "mal francês", em suma. Além disso, a "popularidade do executivo" está em queda livre (apenas 18% dos franceses estão satisfeitos com Hollande).

Esse organismo fragilizado acaba de se tornar vítima de novo infortúnio: um racha, não entre o governo socialista e a oposição de direita, mas na própria maioria. Trata-se de uma fissura que se abre entre os "socialistas" reformistas e realistas, na esteira de Hollande e Valls, e os "socialistas de esquerda", os que se denominam "rebeldes" e desprezam Hollande, pois teria se tornado refém da direita, dos ricos, da austeridade, do mercado, dos empresários, e tudo o que a "esquerda intransigente" considera sinônimo de injúria ou vergonha.

Na realidade, no PS há uns 40 deputados que bombardeiam Hollande e Valls, acusando-os de se aproximar da direita. Esses "rebeldes" desapontaram Hollande em várias votações. E agora poderão torpedear todas as votações pedidas por Hollande e Valls. Com isso, o governo não poderá mais obter uma maioria.

Qual a saída? O poder terá apenas duas possibilidades para continuar: governar por decreto, o que seria catastrófico; ou optar por uma "coabitação". Isso significaria que o socialista Hollande deveria escolher como primeiro-ministro um deputado de direita. Solução acrobática e perigosa. Um pouco como se atrelássemos a uma carroça um cavalo que quer ir para oeste e outro que puxa para leste - uma boa maneira de acabar num buraco.

É verdade que, em todo caso, há meses o presidente Hollande resvala o buraco. Hoje, o buraco é do tamanho do abismo. / Tradução de Anna Capovilla

*Correspondente do 'Estado' em Paris

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