Tiago Queiroz/Estadão - 3/4/2020
Movimento em supermercado de São Paulo, antes da orientação sobre uso de máscaras. Tiago Queiroz/Estadão - 3/4/2020

Busca por preços menores favorece marcas próprias de supermercados na crise

Em abril, pesquisa feita em parceria com a Nielsen apontou um crescimento de 32,6% dos itens fornecidos e embalados pelos mercados

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2020 | 14h00

Busca por preços menores, compras em um só lugar e foco nos produtos básicos. A pandemia do novo coronavírus mudou os hábitos de compras dos brasileiros e, consequentemente, as estratégias das empresas. Enquanto as marcas próprias dos supermercados crescem, as indústrias buscam novas estratégias para aparecer na jornada do consumidor nos estabelecimentos.

No primeiro semestre, a Nielsen informou que os setores de commodities, perecíveis frescos e alimentos cresceram 19,7%, 19,6% e 16,6%, respectivamente, em comparação com o mesmo período de 2019. Essas cestas foram as que mais avançaram no varejo ampliado brasileiro, perdendo apenas para os eletrônicos, que tiveram alta de 21,2% no período. A priorização dos itens básicos, e a busca por economia levaram os clientes a consumirem mais produtos das marcas exclusivas dos supermercados.

Em abril, o movimento já foi reportado em uma pesquisa da Nielsen, em parceria com a Associação Brasileira de Marcas Próprias e Terceirização (Abmapro). As commodities de marcas próprias cresceram 32,6% no mês, com relação ao mesmo período de 2019. A tendência de alta continuou nos meses seguintes da pandemia, segundo a Abmapro.

"Já tínhamos uma perspectiva de crescimento das marcas próprias no ano de 15% a 20% antes da crise. Hoje estimamos esse crescimento em 20% até o fim de 2020. Esse efeito de migração visto em abril se expandiu para outros setores além das commodities. Um dos destaques é a área de farmácia", diz a presidente da Abmapro, Neide Montesano.

Confirmando esse movimento, o GPA informou recentemente que observou aquecimento de suas marcas exclusivas de março a junho deste ano. Segundo dados da Nielsen divulgados pelo grupo, as marcas da empresa, como Qualitá e Taeq, cresceram 40% no período. "Nas crises, as marcas próprias sempre cresceram, mas, desta vez, elas estavam mais desenvolvidas. Quem faz essa migração e percebe produtos de qualidade não volta atrás depois da crise", diz Neide.

Ela lembra que, segundo estudos da associação, uma cesta básica com marcas próprias pode ser de 25% a 30% mais barata do que com marcas tradicionais. "Dependendo da rede, esse porcentual pode chegar até a 40% ou ser de apenas 15%. Varia de acordo com as estratégias", diz.

Cliente avulso

Enquanto os supermercados comemoram a mudança econômica, indústrias do ramo de alimentos e algumas redes varejistas sentiram falta da visita do consumidor em partes das lojas. "Com o consumo focado nos produtos mais básicos e idas mais rápidas ao supermercado, algumas compras por impulso deixaram de acontecer. O cliente deixou de passar por algumas sessões", diz Wagner Gutierrez, CEO da Allis, empresa especializada em varejo.

De março até julho, a Allis viu seu serviço de promotores sob demanda crescer 20%. O produto permite que as indústrias adquiram o serviço de reposição e organização de seus itens no supermercado por algumas horas. A Allis, por sua vez, contrata esses trabalhadores em formato intermitente, como permitiu a última reforma trabalhista. Nesse período de pandemia, a busca pelo serviço cresceu, pois as indústrias sentiram a necessidade de ter seus itens expostos "por onde o cliente passa".

Para isso, a plataforma permite contratar, inclusive, promotores para mercados de bairro, para serviços pontuais. Já que muitos consumidores passaram a preferir estes estabelecimentos para evitar aglomerações. "Redes varejistas também nos procuraram porque muitos funcionários foram afastados nessa época e o absenteísmo (faltas) também aumentou", diz Gutierrez. Com 70 mil chamados no primeiro semestre, o aplicativo - que existe desde setembro do ano passado - passou a ser rentável a cerca de 2 meses. A expectativa da Allis é chegar a R$ 200 milhões de receita em 2020. O app Allis on Demand deve corresponder à 5% disso.

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Auxílio emergencial evita crise dos supermercados, mas fim da medida preocupa o setor

Para Carrefour e GPA, ajuda sustentou o consumo das famílias na pandemia; faturamento dos atacarejos subiu 23,9% em julho deste ano na comparação com 2019

Talita Nascimento, O Estado de S.Paulo

06 de agosto de 2020 | 14h00

Nos balanços do segundo trimestre de 2020, o auxílio emergencial já aparece como um dos efeitos que amenizam a crise do novo coronavírus para as empresas. Nas duas redes de supermercados e atacarejos listadas no Ibovespa, principal índice de ações do mercado brasileiro, Carrefour e GPA, o benefício foi citado como um dos motivos da resiliência no consumo das famílias. Além disso, a migração de pessoas físicas para as bandeiras de atacarejo também é atribuída a esse recurso. Até quem vende cerveja creditou parte da surpresa positiva do trimestre ao auxílio.

"Não sentimos efeito da crise pelo auxílio emergencial, mas ele vai acabar", disse o vice-presidente do grupo Carrefour, Stephane Engelhard, durante live da Associação Brasileira de Supermercados (Abras), um dia antes da divulgação de resultados do grupo. O diretor financeiro do grupo disse no dia seguinte ao Estadão/Broadcast que a empresa trabalha com o cenário de que essa medida deve cessar nos próximos meses. "Achamos que o auxílio emergencial vai acabar, o desemprego vai subir. Teremos crise pela frente, mas é cedo para dizer como será", diz Durchon.

No setor de bebidas, a Ambev mostrou que esse dinheiro rendeu. A empresa atribuiu a retomada de suas receitas no trimestre à sua estratégia de inovação e distribuição, mas também destacou a ajuda do auxílio emergencial do governo. "Esses benefícios foram amplificados pelo impacto positivo dos subsídios governamentais na renda disponível dos consumidores", diz a empresa, nos comentários dos seus resultados.

Para o presidente da Abras, João Sanzovo Neto, o impacto do fim do benefício será sentido rapidamente. "Estamos diretamente ligados ao poder de compra da população, e o fim do auxílio, previsto para setembro, representará uma queda importante no crédito e mais um desafio para o varejo", disse, por meio de nota à reportagem. Ele diz ainda que o País vive um momento de estímulos fiscais e monetários "sem precedentes no Brasil", e que isso reflete de forma direta no consumo das famílias.

O GPA deu mais um exemplo dos efeitos sentidos pelo auxílio em questão. O presidente do Assaí, Belmiro Gomes, disse, em teleconferência com investidores, que a bandeira de atacarejo do grupo foi beneficiada pela medida. "Com os R$ 600, ganhamos clientes que antes não podiam fazer compras de abastecimento. Isso porque elas recebiam por dia", explicou Gomes.

No geral, o faturamento do ramo de atacarejos no País teve alta de 23,9% em julho sobre o mesmo período de 2019, até o dia 29 do mês, segundo dados da GS Ciência do Consumo. Para o presidente da GS, Fernando Gibotti, a migração das pessoas físicas para os atacarejos tem a ver tanto com o sentimento de urgência e necessidade de estocagem da pandemia, quanto com a distribuição do benefício. Ele afirma, porém, que há um fenômeno recorrente em eleições municipais que pode perpetuar para além de setembro as compras maiores nos supermercados.

"As eleições municipais injetam dinheiro nas camadas mais pobres da população. São trabalhos temporários em campanhas que não geram renda para comprar um carro ou uma geladeira, mas aumentam o consumo dessas famílias no mercado ou em lojas de vestuário", diz. Ele acredita que esse movimento deve compensar a "perda de força" do auxílio emergencial a partir de setembro.

Renda Básica

Os especialistas falam em perda de força porque o governo estuda manter o benefício de alguma maneira. O Congresso Nacional lançou, no fim de julho, a Frente Parlamentar Mista em Defesa da Renda Básica, que busca implantar um programa de transferência de renda para mais de 120 milhões de pessoas. "A pandemia tornou mais visível a necessidade de uma reestruturação das políticas públicas e sociais no Brasil", diz Sanzovo, da Abras, sobre o assunto.

"Estamos entrando em uma recessão, com projeções de queda do PIB em mais de 5%, e a retomada do crescimento econômico deverá ser lenta e dependerá de ações menos emergenciais e mais estruturais, como a aprovação das reformas, principalmente a tributária, e organização da situação fiscal e das contas públicas, além da manutenção do controle dos juros e da inflação", complementa Sanzovo.

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