Bush vai ter de socorrer

Neste clima de tensão, o fato mais importante foi que o mercado financeiro agüentou. Na segunda-feira, a bolsa americana não despencou, até fechou positiva, deslanchou espetacularmente na terça-feira, mais de 4%, e ontem fechou em queda de 2,5% só porque os investidores aproveitaram para realizar lucros obtidos com a forte valorização de terça-feira.Esperava-se o pior no primeiro dia da semana, que o céu desabasse, mas não desabou; apenas escureceu, prenunciando uma tempestade que não chegou. Era o dia em que se esperava o Bear Stearns quebrar, abalando, possivelmente, o sistema financeiro. Mas o socorro do Fed evitou o pior.Na verdade ele viabilizou a sua compra pelo JP Morgan, financiando a operação em US$ 30 bilhões. No fundo, o JP Morgan era parte interessada, pois fazia contrapartida com operações do Bear Stearns. Foi a medida de emergência certa, tomada no domingo à noite. No dia seguinte, terça-feira, veio o corte de 0,75 ponto porcentual na taxa básica de juro; foi menos do que se esperava, mas, assim mesmo, o mercado aceitou, levantando o humor.E agora? Para os analistas de Wall Street, é difícil acreditar que os juros e a injeção de liquidez, sozinhos, vão reduzir as tensões e os riscos no curto prazo. Logo mais, essas medidas estarão absorvidas e, se houver mais bancos em perigo ou com resultados negativos acima do esperado, começa tudo de novo. HIPOTECAS, JURO É POUCOEntão, o corte do juro não ajudou? Sim, ajudou o mercado financeiro, de ações, mas não o hipotecário, com devedores indo para despejo, com perdas para todos. O novo corte beneficiará mais os cartões de credito, onde os juros recuaram de 13,97% para 12,36%, em média; no financiamento de carros, o efeito será mínimo, pois os fabricantes já estavam oferecendo incentivos e financiamentos mais longos. Juros menores sempre ajudam em circunstâncias normais, não como nesta, em que o consumidor medroso não confia no futuro. E as hipotecas? Eis a questão. Segundo levantamento feito por analistas da área, o mercado antecipava um corte maior e, em conseqüência, o juro médio havia recuado de 6% para 5,75% ao ano para hipotecas de 30 anos. Após o corte do Fed, ele voltou a 6% para a maioria dos proprietários.POR QUÊ?Motivo principal: a crise do mercado imobiliário, com um número crescente de insolvências e execuções, aumentou o risco dos tomadores de hipotecas e, em conseqüência, os bancos e instituições já haviam elevado os juros que cobram sobre o saldo da dívida hipotecária."Se o mercado imobiliário estivesse funcionando normalmente, a taxa deveria estar em torno de 5% para um empréstimo de 30 anos", afirma Frank Trotter, presidente do EverBank, gerador primário de hipotecas, ao Wall Street Journal. Historicamente, os juros das hipotecas típicas são calculados em torno de 1,8 ponto acima do título de Tesouro de 10 anos. Atualmente, ele está em 3,45%.Quer dizer que não ajudou nada o Fed ter cortado o juro? Ajudou, e muito: acalmou o mercado financeiro, supertenso com o caso Bear Stearns e a perspectiva de outros, e animou um bom número de consumidores, mas, decididamente, não será por aí que se vai superar a crise.A desatenção dos mercados financeiros e de ações é vital, mas um certo equilíbrio só será possível quando as empresas começarem a dar mais lucros, sustentando o valor das ações. Tudo o mais será volatilidade por algum tempo, que pode ser séria se novos bancos vierem a apresentar balanços negativos acima do previsto. Isso não aconteceu com o Morgan Stanley e o Lehman Brothers, que tiveram perdas ligadas a hipotecas, mas, mesmo assim, apresentaram resultado melhor do que o mercado antecipava. Isso ajudou as bolsas.AGORA, AJUDA DIRETAA saída que ninguém ainda admite, mas parece ser a mais efetiva no curto e médio prazos, será a compra, pelo governo americano, com dinheiro do contribuinte, de hipotecas atrasadas ou a caminho da execução. O governo as reteria por um futuro imprevisível, assumindo riscos e prejuízos. Isso seria feito seguindo normas para atender aos que não podem escapar da insolvência.É JUSTO? NÃO, MAS E DAÍ?Paul Krugman, que é ótimo quando se livra do ranço anti-Bush, colocou bem isso, em seu ultimo artigo do dia 18, no New York Times: "Está bem, aí vai: o impensável está prestes a se tornar inevitável. Henry Paulson afirmou que qualquer proposta de usar o dinheiro do contribuinte para resolver a crise é impensável. Mas isso é tão crível quanto os seus pronunciamentos anteriores sobre a situação financeira."Na verdade, diz Krugman, salvar o "pessoal que nos enfiou nessa bagunça como saída para o mercado financeiro é impensável, mas inevitável." Aí está a saída amarga. Ele lembra que o caminho já está aberto, no caso do Bear Stearns, "forte promotor de empréstimos de riscos mais questionáveis. Ao socorrê-lo, o Fed sabia que estava fazendo uma coisa ruim, mas acreditava que a alternativa seria ainda pior. Acertou." *E-mail: at@attglobal.net

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