Buy american, by americans

O pacote Obama, de US$ 887 bilhões, aprovado na quarta-feira na Câmara dos Representantes dos Estados Unidos, inclui cláusulas flagrantemente protecionistas que o Senado americano tentava na sexta-feira ampliar.A seção 1110 do projeto de lei diz textualmente o seguinte: "Nenhum recurso transferido ou de qualquer maneira disponibilizado por esta lei pode ser usado em projeto de construção, alteração, manutenção ou reparação de edifícios públicos ou de obras públicas sem que todo ferro ou aço empregado no projeto seja produzido nos Estados Unidos."O senador democrata Byron Dorgan (Dakota do Norte) meteu sua colher nessa cláusula. Pela emenda encaminhada para votação, a proteção não se restringe a "todo ferro ou aço", mas também aos demais "produtos manufaturados". Se a emenda passar no Congresso, não será apenas a siderurgia brasileira que perderá boa parte do meio bilhão de dólares em exportações anuais para os Estados Unidos. Praticamente todos os manufaturados brasileiros poderão vir a ser barrados porque é difícil comprovar que, de uma maneira ou de outra, não seriam utilizados nessa recuperação da economia.E por toda parte o apelo buy american (compre produtos dos Estados Unidos) se multiplica sob o argumento de que, se a megaconta da crise está sendo transferida para o contribuinte para salvar empregos no país, não faz sentido favorecer mercadorias importadas e, assim, ajudar a manter ou abrir postos de trabalho no exterior. O deputado democrata Brian Baird (Washington) avisou que "o mundo vai ter de engolir, ao menos provisoriamente, as emendas buy american".Nenhuma dessas iniciativas teria acolhida nos tribunais da Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, mas esses processos demoram, custam dinheiro e podem ter várias instâncias. Até lá, muito estrago pode ter rolado sob essas pontes.O fato é que a crise está ceifando empregos globalmente e por toda parte pipocam iniciativas protecionistas. Anteontem, por exemplo, o chanceler brasileiro Celso Amorim avisou que, junto com a Índia, o Brasil recorrerá à OMC contra a apreensão por autoridades holandesas - acionadas pelo laboratório Merck Dupont - de carga de meia tonelada de remédios genéricos indianos.Na semana passada, o secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Timothy Geithner, acusou a China de operar com cotação artificial do dólar, aparentemente para justificar uma eventual represália futura. E a campanha eleitoral de Obama, fortemente bancada por grandes sindicatos americanos, foi um interminável rosário de propostas protecionistas.Ainda não está claro em que grau prevalecerá a bandeira protecionista no governo americano. Ela esbarra em dois obstáculos "naturais". O primeiro é o de que não haverá recuperação da economia mundial sem expansão do consumo dos emergentes, especialmente de potências asiáticas e do Brasil. Em 2007, os países em desenvolvimento foram responsáveis por mais de 70% do crescimento global.Em segundo lugar, boa parte da indústria da China, do Brasil ou dos demais países asiáticos é de empresas de capital americano ou europeu. Se, nesses termos, prevalecer o buy american, são os próprios capitais dos Estados Unidos ou da Europa que sairão prejudicados.ConfiraAflição e desespero - Os resultados ruins da balança comercial até a quarta semana de janeiro provocaram, como foi amplamente noticiado, "aflição e desespero" no Ministério do Desenvolvimento, a ponto de baixar medidas burocráticas cuja finalidade é emperrar importações. O presidente Lula mandou revogar a decisão.Amanhã saem os dados finais da balança comercial de janeiro e continuarão muito ruins, com boa probabilidade de terem aprofundado o déficit comercial (importações mais altas do que exportações) para mais de US$ 1 bilhão. Pergunta: o que os burocratas de Brasília farão com seu desespero?

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