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BV terá R$ 80 bi para financiar negócios sustentáveis e promete rigor contra 'propaganda verde'

BV terá R$ 80 bi para financiar negócios sustentáveis e promete rigor contra 'propaganda verde'

Volume deve ser destinado até 2030 como parte dos compromissos assumidos pelo banco dentro de sua agenda ambiental, social e de governança

Aline Bronzati, O Estado de S.Paulo

18 de maio de 2021 | 10h00

 

O BV, antigo banco Votorantim, vai destinar R$ 80 bilhões para apoiar negócios sustentáveis até 2030 como parte de compromissos públicos que assumiu e que vão guiá-lo em uma agenda ESG, sigla em inglês, para ambiental, social e governança. Para evitar o greenwashing, ou seja, aqueles que só buscam a 'propaganda verde', definiu critérios de transparência e rigor, a começar pela remuneração de seus executivos.

São cinco metas para serem cumpridas até 2030 que foram divididas em três frentes: mudanças climáticas, negócios sustentáveis e inclusão social. Os compromissos começaram a ser colocados em prática em janeiro e a promessa do BV é levá-los até 2030. A data, explica o presidente do banco, Gabriel Ferreira, está alinhada à agenda das Organizações das Nações Unidas (ONU) no controle de questões socioambientais.

"Tem alguma incerteza na representatividade desse número, mas nosso compromisso inequívoco é revisar números a cada dois anos. Nunca para baixo. Sempre para cima", promete o executivo.

No pilar de negócios sustentáveis, o compromisso do BV é originar ou distribuir a fundos e investidores R$ 80 bilhões em dívidas que estejam alinhadas às práticas ESG. É como se o banco pegasse toda a sua carteira de crédito, de mais de R$ 70 bilhões, e decidisse emprestar somente a empresas que comprovem ser verdes de fato pela próxima década.

No varejo, explica Ferreira, o foco do banco é financiar carros híbridos, cuja carteira no BV é de apenas R$ 1 milhão; projetos de energia solar em residências, mercado no qual detém 25% de participação; além de startups de setores de impacto social como saúde e educação. No atacado, o BV tem apetite para dar crédito ou estruturar emissões de empresas de segmentos como os de energia renovável, saneamento - diante da expectativa que se criou com o novo marco regulatório - e de infraestrutura.

Para separar a promessa da prática, o banco vai avaliar à risca, de acordo com seu presidente, três variáveis: o setor de atuação, as práticas de sustentabilidade da empresa e o destino dos recursos. Além disso, os tomadores serão avaliados por uma tríade de ratings internos do BV e que vão classificados sob o risco sociambiental, de governança e, um mais recentemente, foco climático.

"Somos um banco com limite de funding (financiamento). Na hora que eu assumo o compromisso público de destinar R$ 80 bilhões para negócios ESG, terei de fazer escolhas ao longo do tempo", admite o presidente do BV.

Informações ESG no balanço

Para evitar o greenwashing, diz, o banco vai conectar princípios do ESG ao negócio e dar transparência ao mercado. Nesse sentido, promete munir seu balanço financeiro de informações da agenda ESG. Uma amostra já foi vista no primeiro trimestre. Cria-se, assim, afirma o executivo, uma corrente de pressão sob as companhias para que o discurso verde seja efetivo e não apenas uma propaganda.

De acordo com Ferreira, o modelo de crédito do banco já considera os critérios socioambientais e de governança há cerca de dez anos. Tanto é que, conforme ele, somente 3% da sua carteira de crédito está exposta a setores classificados como "controversos", tais como óleo e gás, mineração. "Vamos caminhar para zerá-la", afirma.

Dentro de casa, o rigor ESG foi parar nos bônus dos executivos. A partir deste ano, todo o quadro de líderes do BV, incluindo o presidente do banco, terão, em média, 20% da sua remuneração variável atrelada a métricas socioambientais.

Na frente de diversidade, o BV assumiu o compromisso de ter mulheres em ao menos metade dos cargos de liderança até 2030. Hoje, elas ocupam 35% dos postos de um total de 350 a 450 pessoas, de nível de gerência para cima.

Também busca ter uma representatividade de 35% de negros em seu quadro até 2030. Atualmente, eles são apenas 18% de um quadro total de 4 mil funcionários. "Terá uma inserção entre a liderança feminina e a presença de negros em nosso quadro. Queremos representatividade e líderes", afirma Ferreira.

Segundo ele, esse é um problema não só da sociedade brasileira, mas global. Para revertê-lo dentro da organização, diz, é preciso quebrar paradigmas e um esforço de capacitação, solucionando os problemas que evitam que mulheres e negros tenham acesso a mais cargos e posições de liderança.

"É muito mais cômodo contratar um homem, branco e formado na FGV", diz o presidente do BV. "É a coisa da inércia, mas as competências do futuro têm menos a ver com a educação formal e mais a ver com soft skill (atributos e competências comportamentais) e competências cross (que cruzam diferentes setores)", acrescenta. Ele acredita que a combinação de cultura e os incentivos certos podem mudar o panorama de falta de diversidade nas empresas.

"No BV, vamos nessa direção, crio meta de diversidade para cada um e a pessoa que não evoluir, vai estar desconectada e vai sofrer na sua remuneração variável e nos seu plano de carreira", diz.

Por fim, o BV também assumiu metas climáticas. O banco quer diminuir seu impacto ambiental e ser uma empresa "carbon free" em suas próprias emissões. A meta é compensá-las até 2030. Esse trabalho começou em 2019. São 3.200 mil toneladas de CO2 por ano.

O presidente do BV admite que o volume é "muito pequeno" e que a ação é uma obrigação do banco. Portanto, também se comprometeu a compensar 100% do CO2 emitido pelos carros que financia, seu principal mercado, com uma carteira de mais de R$ 40 bilhões. No primeiro trimestre, o banco originou R$ 5,8 bilhões em crédito para a compra de veículos, mas, por outro lado, 270 mil carros foram inseridos no programa e terão suas emissões compensadas.

A ação engloba financiamentos novos. Quanto à carteira 'velha', o presidente do BV afirma que os clientes podem aderir e como o saldo "gira rápido", no terceiro ano, todos os empréstimos já estarão contemplados. "A frota de veículos financiada pelo BV emite 4 toneladas de CO2 por ano. É igual à poluição de Curitiba", compara.

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