Caça à mão de obra chega às favelas

Na comunidade de Paraisópolis, em São Paulo, carro de som circula pelas ruas convocando candidatos para seleção de vagas

LUIZ GUILHERME GERBELLI, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2012 | 03h08

Um carro de som que circula pela comunidade de Paraisópolis anunciando vagas de emprego se tornou a principal fonte de recrutamento de mão de obra do Grupo Tejofran. Por mês, a empresa tem a difícil missão de repor 300 postos de trabalho de diversos setores, entre eles o de limpeza e segurança.

"Os meios convencionais de recrutamento não funcionam mais. Esse método foi bem aceito em Paraisópolis", diz Clodomir Ramos Marcondes, diretor de Relações Institucionais e Humanas da empresa. "Antes do boom da construção civil, eu tinha uma fila com 100 trabalhadores. Caiu para 50 e, de repente, não apareceu mais ninguém."

A escassez de mão de obra disponível no Brasil ficou evidente nos últimos anos e inverteu uma lógica que durou décadas: agora, o poder de barganha dos trabalhadores é maior e são as empresas que vão atrás deles. É por isso que o Grupo Tejofran - que atua nas áreas de segurança, limpeza, saneamento, ferrovias e higienização hospitalar - e outras empresas começam a desvendar comunidades na periferia paulista em busca de trabalhadores.

Na sexta-feira, por exemplo, a União dos Moradores e do Comércio de Paraisópolis encerrou a última fase do mutirão de emprego que percorreu várias comunidades da zona sul de São Paulo desde o início de setembro.

"Nós entramos em contato com as lideranças da zona sul e uma vez por semana fomos para uma comunidade levar o atendimento. Muitas vezes, nesses locais, as pessoas não têm como se locomover porque não têm dinheiro para a condução", diz Elizandra Cerqueira, coordenadora da agência de emprego da comunidade de Paraisópolis.

O mutirão encerrado semana passada foi a primeira iniciativa desse tipo. "Encontrar mão de obra tem sido difícil. Acho que em Paraisópolis consegui unir o útil ao agradável, vim para a comunidade para ajudar também", diz a empresária Bia Cunha, há quatro anos no comando da Cia Doméstica. Ela vai para Paraisópolis quase semanalmente para fazer a triagem de candidatos e já planeja o desenvolvimento de um curso de capacitação. "Nós podemos ensinar boas maneiras, o cronograma das atividades."

Na cartela de Bia, estão cerca de 2,8 mil clientes que moram principalmente no Morumbi, Itaim e Moema. Só na quinta-feira 140 e-mails de clientes aguardavam uma resposta dela.

Bia luta contra os números para conseguir encontrar mão de obra. Em agosto, segundo o IBGE, a desocupação no serviço doméstico foi de 2,3%. No mesmo mês, o desemprego entre os trabalhadores sem instrução ou com menos de oito anos de estudo também foi baixo, de 4,6%.

A disputa por mão de obra nas comunidades também ocorre entre empresas do mesmo setor. A Home Staff, que seleciona funcionários domésticos, participou do primeiro mutirão de emprego nas comunidades da zona sul. A empresa já é parceria da comunidade de Paraisópolis há um ano. "A gente conseguiu alcançar outras comunidades, o que é difícil se não tiver uma estrutura organizada. Foi importante, porque o pessoal fica conhecendo a empresa e nós a eles", afirma Isabella Velletri, sócia da Home Staff.

Perfil. Nos últimos anos, houve uma mudança no perfil socioeconômico das favelas. A estimativa do Data Popular é que a soma da renda de quem vive nesses locais é de R$ 38 bilhões. "Há empresas que buscam mão de obra em comunidades, mas há um conjunto enorme que deseja abrir seu negócio dentro das comunidades", diz Renato Meirelles, sócio-diretor do instituto. Em novembro de 2008, a Casas Bahia abriu uma unidade em Paraisópolis. A loja tem 40 funcionários, sendo 30% do quadro de colaboradores da própria comunidade.

"Numa comunidade carente, uma das primeiras preocupações é a capacidade de gerar rendas nessas regiões", afirma Otto Nogami, professor da economia do Insper "À medida que gera renda, estimula o consumo. Quando o consumo é estimulado, de alguma maneira, começa-se a criar um núcleo para haja a prestação de algum tipo de serviço, como cabeleireiro."

Esse mudança no perfil das comunidades deve se intensificar nos próximos anos, segundo avaliação de Meirelles, do Data Popular. O impulso deve vir sobretudo com o aumento da escolaridade dos moradores. "O jovem que vive nesses locais não quer mais fazer o trabalho que os pais faziam", comenta. "O ranking de profissão dos moradores dessas comunidades mostra que os mais velhos eram empregados como domésticos ou trabalhadores da construção civil. Os mais novos trabalham no comércio ou em telemarketing", afirma.

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