MARCIO JOSE SANCHEZ/AP
MARCIO JOSE SANCHEZ/AP

Caçar ou ser caçado

Grandes empresas de internet promovem onda de consolidação no mercado de tecnologia

THE ECONOMIST

09 Maio 2015 | 19h56


Até nos leilões beneficentes os titãs da tecnologia apreciam fazer grandes negócios. Num recente evento de arrecadação de fundos para a instituição de caridade Tipping Point, de São Francisco, os participantes rapidamente ofereciam lances de US$ 100 mil cada vez por um pacote de entradas para o Super Bowl. As fortunas granjeadas pelos empreendedores do Vale do Silício são tão vastas que, sem nenhum esforço, foram arrecadados US$ 14 milhões no leilão e no final foram jogados confetes na sala em comemoração.

As empresas do Vale são grandes gastadoras também. No ano passado, foram gastos cerca de US$ 184 bilhões em fusões e aquisições no setor de tecnologia americano, de acordo com a Dealogic, empresa de pesquisa. Este ano, o valor foi ainda maior. E na semana passada aumentaram os rumores de que a Salesforce, provedora de software para operações baseadas na nuvem, recebeu diversas propostas, e Microsoft e Oracle estariam entre as companhias interessadas, enquanto a SAP perdeu o interesse. Tropeções recentes deixaram Twitter e LinkedIn mais vulneráveis; e algumas outras companhias de internet são grandes demais para despertarem o apetite, mas não tão grandes para serem assimiladas. Ao contrário do Google, muitas já não têm mais fundadores com uma participação de controle que poderiam impedir uma aquisição.

Com um valor de mercado de US$ 48 bilhões, a Salesforce não seria uma aquisição barata. Mas muitas das grandes empresas de tecnologia dos Estados Unidos estão nadando em dinheiro: a Microsoft, por exemplo, possui US$ 95 bilhões em caixa e investimentos de curto prazo em seu balancete. Entre as 10 grandes empresas americanas com as maiores reservas em dinheiro (excluindo as financeiras), 6 são de tecnologia, lideradas pela Apple, e acumulam um total combinado de US$ 485 bilhões. Esse montante e os altos preços das ações dão aos potenciais predadores do setor um poder de fogo sem precedentes quando saem à caça. Além disso, diversas outras empresas, desde as da velha mídia até gigantes de tecnologia chinesas, como Alibaba e Tencent, também vêm explorando o Vale para se familiarizarem com as empresas online americanas. 

Dúvidas. Embora a exuberância em torno das perspectivas de crescimento do setor de internet tenha elevado o preço das ações de muitas companhias, têm aumentado as dúvidas quanto à capacidade de algumas continuarem contabilizando receitas impressionantes. Recentemente, as redes sociais Twitter e LinkedIn erraram suas previsões de lucros, o que provocou uma queda no preço das ações de 28% e 21%, respectivamente. O desempenho abaixo das expectativas pode derrubar os preços de empresas com ações negociadas em bolsa e torná-las alvos mais fáceis de aquisição.

Com uma capitalização de mercado de US$ 24 bilhões (o que representa queda em comparação com os US$ 33 bilhões há um mês), o Twitter ainda representa uma grande compra; e nos últimos anos adquiriu empresas menores para ajudá-lo a crescer. Mas sua administração desapontou os investidores, que esperavam um crescimento mais rápido da empresa. Se a situação não mudar, uma outra companhia de internet poderá absorvê-lo.



Google seria o comprador mais lógico. O principal problema do Twitter é que os anunciantes ainda encaram a rede social como uma proposta de nicho. Google, gigante dos anúncios online, poderia ajudar a resolver essa questão. O relacionamento entre as duas empresas é cada vez mais estreito. Ao divulgar seus lucros em 28 de abril, o Twitter anunciou uma parceria com o Google para ajudá-lo a vender e medir a eficácia dos anúncios. A chinesa Tencent, dona de um serviço de mensagem popular, o WeChat, também pode manifestar interesse, mas o governo americano morreria de vergonha vendo uma plataforma para a liberdade de expressão ser vendida a um proprietário chinês.

Mais recentemente, as companhias de médio porte sustentadas pela propaganda vêm lutando à medida que se torna claro que não aumentaram o número de usuários nem as receitas tão rápido quando esperavam. Em outras palavras, a publicidade online pode ser uma atividade difícil para empresas “que não se chamam Google ou Facebook”, afirma o analista Brian Wieser da Pivotal Research. Quatro companhias – Google, Facebook, Baidu e Alibaba – controlam metade de toda a propaganda digital em todo o mundo. Yelp, empresa que hospeda resenhas online e ganha com anúncios locais é “um das mais lógicas candidatas a uma aquisição”, disse Mark Mahaney, da RBC Capital Markets, banco de investimento.

Yahoo, a favorita da bolha de internet dos anos 90, é um constante objeto de especulação em se tratando de aquisições. A companhia está num processo de ampliar seu lucrativo investimento no Alibaba e analisa a venda de sua participação na Yahoo Japan. Depois disso, a diretora executiva da companhia, Marissa Mayer, terá de cessar com suas artimanhas para acalmar os investidores. Analistas e investidores têm insistido numa fusão entre Yahoo e AOL para economizar, mas o obstáculo é que Marissa Mayer e Tim Armstrong, o chefão da AOL, querem manter seus empregos.

Yahoo, que mantém uma reserva em caixa de bilhões de dólares, pode também atrair alguma empresa de private equity ou mesmo uma companhia de mídia mais antiga que queira reforçar seus ativos de vídeo online.

Comcast, que recentemente retirou sua oferta de compra da Time Warner Cable por problemas antitruste, tem recursos para gastar e estará se perguntando onde aplicar.

A caça é mais fácil quando você divide o rebanho. O eBay e o PayPal, que hoje são parte da mesma companhia, devem se separar no fim deste ano, mas por quanto tempo permanecerão independentes? Os leilões online do eBay têm perdido usuários para outros websites de compra, como Amazon. O Alibaba, proprietário do Taobao, equivalente chinês do eBay, pode achar isso atraente. O PayPal, que facilita as transações online, também poderá atrair bancos e empresas de cartões de crédito, como American Express, que deseja fortalecer sua posição na área de pagamentos online e dispositivos móveis.

Defesa da concorrência

Algumas companhias também desejarão se expandir em áreas onde já estão bem estabelecidas, que é o melhor para se defenderem de concorrentes. Mas isso pode despertar a ira dos órgãos reguladores. “A vantagem que você tem no caso da internet é que os órgãos reguladores não estão tão cientes quanto ao domínio que você pode criar nas plataformas e, assim, criar monopólios”, diz um grande investidor em ações de internet. Google, que está sob intensa investigação dos órgãos reguladores europeus, poderá ser obrigado a se submeter e até ser dissuadido de realizar algum grande negócio até a situação política melhorar.

Outras empresas vão desejar garantir suas apostas investindo em novas áreas não relacionadas com suas principais fontes de receita. Os negócios da Microsoft, por exemplo, basicamente são de venda de software, mas não é inconcebível que, se não for a Salesforce, ela venha a adquirir o LinkedIn, rede social profissional. É mais barato fazer isso cedo, antes de o potencial da empresa ou da área ser provado. No ano passado, o Facebook, um comprador particularmente ativo, adquiriu a Oculus VR, empresa de realidade virtual, por US$ 2 bilhões. Mark Zuckerberg não estava muito seguro do que faria com a companhia, mas sabia que ela se valorizaria.

Quanto mais madura se tornar cada área de negócios na internet, mais consolidação veremos. Mahaney, da RBC, destacou os negócios de viagens online como exemplo do que pode vir a ocorrer, similar ao que vimos com as redes sociais. O setor de reservas e viagens online se expandiu no fim dos anos 90, com muitas empresas disputando o espaço, mas nos EUA hoje ele é dominado somente por duas grandes companhias, Priceline e Expedia.

Mercado

Grande parte do futuro dos negócios no Vale do Silício dependerá das valorizações, dos juros baixos e da saúde do mercado de valores. Alguns observam as recentes quedas contabilizadas pelo Twitter e LinkedIn e se perguntam se seriam “tremores antes do terremoto”, como afirmou um capitalista de risco. Até o momento, as placas tectônicas parecem estar acomodadas e as preocupações dos investidores se concentram em empresas específicas que não mantiveram suas promessas de crescimento. Mas alguns ainda indagam se uma grande correção generalizada entre as empresas de internet não estaria a caminho. As gigantes do setor certamente apreciariam muito: não há momento melhor para dar o bote do que quando os preços despencam e os investidores estão ávidos para vender. 


© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR TEREZINHA MARTINO, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

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