Cadastro Positivo depende de um mercado de crédito competitivo

A adoção do cadastro positivo sem qualquer outra mudança apenas ampliará as informações para os agentes ofertantes de crédito

Claudio Felisoni de Angelo, O Estado de S.Paulo

10 Maio 2018 | 04h00

É conhecida a frase do humorista americano Groucho Marx: “Jamais entraria para um clube que me aceitasse como sócio”. A divertida frase tem por trás um importante conceito da área de economia, ou seja, a ideia de assimetria informacional. 

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Em uma economia capitalista, o mercado, vale dizer o sistema de preços, tem importante papel no direcionamento de recursos. Tome-se um produto agrícola qualquer, por exemplo. Se por alguma razão falta ou há excesso de chuvas, a lavoura do referido produto será prejudicada. O preço deve subir. Esse movimento inicial suscita no momento seguinte uma outra consequência. Os preços mais elevados tendem a diminuir o interesse do consumidor pelo produto, induzindo a uma pressão para redução do preço desse item agrícola. Essa pressão de baixa também seria reforçada por um aumento da oferta, pois os produtores tenderiam a direcionar recursos para a lavoura que teve o preço majorado. 

Esses movimentos são a resposta que o mecanismo automático de mercado dá às mudanças no sistema. É como um termostato regulado para entrar em funcionamento toda vez que a temperatura ambiente supera um determinado nível pré-fixado. Subiu a temperatura, o termostato identifica essa situação e aciona o ar-condicionado. Pergunta: o termostato pode apresentar um defeito? Claro que sim. O mercado, portanto, também pode falhar. Ou seja, o sistema de preços pode também não fornecer a sinalização correta. Um desses defeitos consiste exatamente no fato de que os agentes econômicos, produtores e consumidores não têm o mesmo nível de informações envolvendo uma determinada transação.

No mercado de crédito, o problema da assimetria informacional está presente. A taxa de juros é o preço do crédito: quanto mais altos os juros, maior será a probabilidade de atrair maus pagadores. Ou seja, o preço do crédito falha em separar bons e maus pagadores. Sob essa ótica, um cadastro positivo que ajuda os fornecedores do crédito a agrupar esses indivíduos é certamente bom para a maior eficiência das operações.

Entretanto, os benefícios acima apontados só serão repassados ao consumidor final se o mercado de crédito for competitivo. Não é esse, infelizmente, o caso brasileiro. A concentração do mercado financeiro é muito grande. Em síntese, a adoção do cadastro positivo, frise-se interessante, sem qualquer outra mudança apenas ampliará as informações para os agentes ofertantes de crédito.

PRESIDENTE DO CONSELHO DO PROVAR E IBEVAR

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