'Cadê o FMI agora?', diz Lula sobre crise financeira

Presidente critica falta de atuação do Fundo na turbulência e volta a dizer que crise não chega ao País

Kelly Lima, da Agência Estado,

07 Outubro 2008 | 13h48

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou nesta terça-feira, 7, o Fundo Monetário Internacional (FMI) pela falta de atuação na crise internacional. "Quando era o Brasil ou a Argentina que apresentava uma crise, o FMI sempre dava palpite e ditava o que fazer ou não fazer. Cadê o FMI agora?", indagou. Lula ressaltou que se a turbulência chegar ao Brasil, "chega mais leve" e voltou a negar a existência de um pacote anticrise no País.   Veja também: Especialistas dão dicas de como agir no meio da crise Entenda o pacote anticrise que passou no Senado dos EUA A cronologia da crise financeira  Veja como a crise econômica já afetou o Brasil Entenda a crise nos EUA      Em discurso a uma platéia de cerca de três mil trabalhadores metalúrgicos em Angra dos Reis, Lula garantiu que a crise econômica mundial não chega ao Brasil. "Esta é a primeira vez que um governo não precisa explicar ao povo que a crise é internacional e não local. Todos estão cansados de ouvir isso. Mas muitos acham que é prepotência minha dizer que esta crise não chega ao Brasil. Digo e insisto: se chegar, chega mais leve, mesmo que haja quem esteja torcendo para ela chegar logo e causar estragos", disse.   Inspirado por parábolas e por frases chavões, Lula abusou da retórica para cravar ao público local: "Todo mundo sabe que o que está acontecendo se deve a especulação financeira que começou nos Estados Unidos. Eles brincaram com a economia mundial e na hora que a porca entorta o rabo, sobra pra nós", disse, para lembrar em seguida que "desta vez será diferente", por que o País fez como "na história da cigarra e da formiga: enquanto eles cantavam, a gente trabalhava". A citação foi feita com relação ao fato de o Brasil ter conseguido quitar sua dívida internacional e hoje estar endividado apenas em real e não mais em dólar.   "A crise americana é muito profunda. talvez seja a maior crise nos últimos 50 anos. Só teve igual a esta em 1929. E ela está chegando na Europa. porque os bancos europeus participaram do cassino imobiliário dos Estados Unidos", disse o presidente, lembrando que nas crises do México, Ásia e Rússia, os "rombos" da economia mundial foram bem menores, em torno de US$ 50 bilhões e o Brasil "quase quebra". "Mas esta, nos Estados Unidos, enquanto o rombo já é de US$ 1 trilhão só lá dentro. A mágoa deles e de alguns aqui dentro é de que o Brasil não quebrou. Eu não estou dizendo que não teremos dificuldades, mas que até agora estamos em pé".   Andando de um lado para o outro, em cima de um palanque montado em meio ao estaleiro Brasfels, onde foi batizada a plataforma P-51 da Petrobras, Lula afirmou ainda que tanto os Estados Unidos quanto a Europa, "fingiram que não tem crise". "Eles são iguais aquelas pessoas que não gostam de pobre. Vão para a reunião do G8, querem falar da Amazônia, mas não falam de crise".   Pacote   O presidente foi bastante enfático ao afirmar que a atual crise não deverá motivar a formação de um pacote econômico no País. "Não haverá nenhum pacote econômico", disse. Ele ainda reiterou que "todas as vezes em que houve um pacote econômico no Brasil, o trabalhador é que foi prejudicado."   O presidente ressaltou que foram tomadas medidas econômicas de apoio aos bancos pequenos e aos exportadores. "Cada medida será tomada conforme ela for exigida no dia-a-dia", disse. Falando em tom paternal aos presentes, Lula acusou os Estados Unidos de terem feito a "farra do boi" com o dinheiro público. "O trabalhador sabe que se fizer a farra do boi com seu salário, quem vai pagar é o seu filho. E a gente não deve governar um país, mas cuidar de um país, como se cuida de uma família, sabendo que quem vai sofrer as conseqüências são os nossos filhos", disse.   Ele destacou que espera que o "pacote americano ajude a resolver o problema deles". "Mas pelo amor de Deus, agora que deixamos de comer o pão que o diabo amassou e começamos a comer um pãozinho com mortadela, eles que não venham querer se socializar com a gente. Este tipo de socialismo não queremos. Queremos socializar a bonança e não a miséria."   Ainda falando sobre a crise, o presidente defendeu à platéia que é preciso que "ninguém se abale com a crise". "É preciso que cada um de nós acredite que o País se encontrou com seu destino e não há nada no mundo que vai fazer com que reapareçam o desemprego, a miséria e o abandono. A crise gera especulação, gera desconfiança e depois cidadão fala que não vai gastar seu dinheiro e vai guardar. Peço a vocês que não façam isso, e continuem fazendo a mesma coisa que estavam fazendo."   Alencar   Também falando nesta terça, o vice-presidente da República, José Alencar, afirmou que a crise mundial de crédito "é muito séria, atingiu os mercados dos Estados Unidos e da Europa e, obviamente, o Brasil pode sofrer (as conseqüências)." Fez, porém, a ressalva de que considera a situação brasileira "bem diferente", porque, segundo ele, os bancos brasileiros não trabalham com a "alavancagem" com que trabalham os bancos dos países europeus e dos EUA. Nesses países, disse, há casos de "mais de 30 a 40 vezes a alavancagem do patrimônio líquido dos bancos."   Após participar, no Congresso, de solenidade de comemoração dos 20 anos da Constituição, Alencar afirmou, em entrevista, que a crise mundial é "de confiança - ou de desconfiança no sistema bancário". No entender do vice, porém, o sistema bancário brasileiro "está muito bem, está capitalizado e não trabalha com os abusos que aconteceram nos EUA." Por isso, afirmou, o Brasil tem condições de passar pela crise sem grandes problemas.   "Não podemos fazer juízo precipitado, porque a questão do crédito flui naturalmente. Há demanda natural das atividades produtivas por crédito e dos exportadores por crédito. E esse crédito tem que ser examinado caso a caso, não pode ser liberado a torto e a direito, tem que ser liberado com segurança absoluta. Nós não podemos liberar crédito sem aquele critério rigoroso. É preciso ver a garantia oferecida pelo tomador", advertiu Alencar.   Ele previu que no Brasil não faltará dinheiro, porque "o próprio governo já tomou providências de reduzir o compulsório (dos bancos), para colocar mais recursos à disposição e aumentar a liquidez do sistema. "O Brasil está em condições de fazer a travessia e nos levar a Porto Seguro."   (com Cida Fontes, de O Estado de S. Paulo)

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