Vinicius Mendonça/Ibama
Vinicius Mendonça/Ibama

Cadê o S do ESG? Fundos sociais ainda são minoria no mercado, dizem especialistas

Quantia investida em fundos voltados para a pauta ambiental, social e de governança corporativa representa apenas 1% do patrimônio da indústria de fundos no Brasil, aponta estudo da Anbima

Cris Almeida e Erick Matheus Nery, O Estado de S.Paulo

25 de março de 2021 | 10h00

A decisão de deixar a periferia de Salvador para estudar economia no Insper, em São Paulo, mudou a perspectiva profissional de Lucas Leal, de 22 anos. O jovem economista foi um dos bolsistas beneficiados pelo fundo de investimentos da Perfin. Desde 2012, a gestora incentiva a educação de jovens talentos, passando toda a receita de gestão e performance para um fundo de bolsas do Insper. Já foram mais de R$ 1 milhão doados e 300 bolsistas contemplados. Iniciativas como a da Perfin ilustram o aspecto social da pauta ESG, sigla em inglês para critérios de investimento nos aspectos ambiental, social e de governança corporativa.

A quantia investida em fundos ESG no País representa 1% do patrimônio da indústria de fundos no Brasil, de acordo com a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). No mundo esse porcentual é de 36%, segundo o Global Sustainable Investment Alliance. A quantidade de fundos de ações classificados como ESG pela associação brasileira cresceu de 19 para 35 em um ano, entre janeiro de 2020 e o mesmo período de 2021. Deste novo grupo de fundos, no entanto, nenhum é voltado exclusivamente para o social. De acordo com a Anbima, o pilar S faz parte de fundos que tratam igualmente as três frentes.

O gestor de renda fixa e crédito privado da Plural Asset, Rafael Zlot, vê com naturalidade o crescimento mais tímido dos fundos sociais, porque já se fala em sustentabilidade e governança há algum tempo. “Essa parte de inclusão social e como a empresa impacta a comunidade são coisas mais novas no Brasil, as organizações vão se adequar ao longo dos próximos anos, talvez décadas, como foi no exterior”, diz Zlot. “O que vai definir a adesão das pessoas é achar ativos e mostrar resultados, não ficar só no marketing. E isso não acontece de um dia para o outro.”

Em 2020, a Plural Asset lançou um fundo ESG de crédito privado com aporte mínimo de R$ 10 e destinação de 20% da taxa de administração líquida para entidades como o Instituto Guga Kuerten e a Associação de Mulheres Empreendedoras do Brasil (Amebras).

Para a sócia e diretora de operações da Perfin, Caroline Rocha, o crescimento do pilar social deve andar de mãos dadas com o lucro. “Inicialmente, é preciso criar uma cultura de investimento social com retorno. As pessoas não vão investir se não for para ganhar dinheiro.”

Ela justifica que, no caso do fundo de bolsas estudantis para o Insper, a gestora está consciente de que o lucro não é imediato. “Estamos abrindo mão do retorno em dinheiro no curto prazo porque entendemos que haverá um retorno de longo prazo no nosso País.”

No Insper, o resultado do investimento aparece na forma de mais diversidade em sala de aula. “Programas como este, de acesso à educação de qualidade, são a porta de entrada para as minorias. A maior parte das pessoas negras que temos no Insper é bolsista, e nós sabemos que isso quer dizer muito. Tanto para elas quanto para nós”, afirma a gerente de Relacionamento Institucional do Insper, Ana Carolina Velasco. “Além disso, conseguimos colocar mulheres na engenharia, uma área majoritariamente masculina. Isso não seria possível sem esse tipo de apoio.”

Bancos incorporam práticas ESG

Grandes bancos também têm participação no crescimento do ESG no Brasil. Desde 2007, o Bradesco mantém um fundo de investimentos em organizações com boas práticas nas três frentes. “ESG não é filantropia. A gente acredita que empresas que têm práticas mais bem desenvolvidas nos três quesitos geram valor a longo prazo”, afirma o superintendente do Bradesco Asset Management (Bram), Rodrigo Santoro. Ele explica que o banco faz um rating (avaliação) de 0 a 100 para cada empresa que acompanha, tendo como base nos conceitos de cada letra, com dois objetivos: avaliar gestão de riscos e performance. “A partir disso, orientamos as companhias a melhorarem nos pilares que forem necessários.”

Atualmente, a estratégia ESG faz parte de todos os fundos do Bradesco. Cerca de 99,5% dos ativos da Bram, incluindo títulos públicos, têm análise ambiental, social e de governança. “Não significa que uma empresa que tem nota muito boa em ESG vai fazer parte dos fundos. Ele precisa ser um bom investimento, uma boa companhia e ter um bom desempenho nas três frentes para compor o mosaico de decisões”, diz Santoro, lembrando que há opções de fundos também para investidores pessoas físicas na grade ESG.

Nesse grupo, os mais jovens chamam a atenção. “Os investidores, sobretudo os mais novos, estão de olho no quesito social, em empresas cada vez mais se importando com a comunidade em volta, o que deve refletir numa perspectiva de aumento de fundos voltados para o S no médio prazo.”

O protagonismo do S do ESG se deu em meio à pandemia do novo coronavírus, pondera o head de Estratégia Beta e Integração ESG do Itaú Asset Management, Renato Eid. “É super-relevante ver diversos setores ajudando de diversas formas a sociedade, seja por meio de doações ou ações efetivas das empresas em prol das comunidades na qual estão inseridas”, afirma. E o posicionamento também é cobrado dos gestores de investimentos.

Como Eid frisa, ESG não é moda. Veio para ficar. “Além de fundos específicos em ESG, o tema é trabalhado nas estratégias da asset desde 2004 e, há mais de dez anos, a instituição integra este fator nos processos de investimentos”, diz. “Se não observar as questões ambientais, sociais e de governança quando estou falando de investimentos, não estou alinhado ao meu dever fiduciário. Se olhar apenas para as variáveis financeiras, estou negligenciando grande parte de riscos e de oportunidades.”

Outras alternativas

Além dos fundos de investimentos, empresas e pessoas físicas encontram outras possibilidades de aplicar em ESG. Para quem deseja estimular iniciativas de impacto social sem abrir mão da rentabilidade financeira, uma alternativa é o Empírica Vox Impacto, da Vox Capital. Com os recursos do fundo, que recebe investimento mínimo de R$ 5 mil, bancos e fintechs parceiros da gestora concedem crédito para microempreendedores e pequenas e médias empresas que normalmente encontram dificuldades para conseguir empréstimos tradicionais.

As organizações financiadas pelo fundo alcançaram cerca de 60 mil pessoas ou pequenas empresas ao longo de 2020. “Investimos em empresas cujo core business esteja focado em solucionar problemas da sociedade e do meio ambiente. ESG é um caminho e não um fim em si”, afirma o sócio e diretor de operações (COO) da Vox Capital, Gilberto Ribeiro.

A Bemtevi Investimento Social também incentiva o pilar social por meio de empréstimos para negócios de impacto com juros reduzidos. As empresas que entram neste modelo passam por capacitação e orientação para melhoria dos negócios para que, em seguida, recebam o dinheiro solicitado.

Do lado dos investidores, o investimento mínimo na rede é de R$ 50 mil, valor que é devolvido após cinco anos, corrigido pela inflação. “Com essa perspectiva, de que os investimentos trazem o potencial de serem sustentáveis, muitos investidores já têm essa visão de que surgem novas maneiras de se fazer negócio”, diz o sócio-diretor da Bemtevi, Fernando Simões Filho.

Ele conta que os seus investidores abrem mão de maiores lucros e da segurança de outras aplicações para que esses negócios sociais também cresçam. “Estamos em um momento de transição e acredito que as empresas que não se preocuparem com essas soluções sociais vão deixar de existir”, reforça.

Para as empresas que desejam reforçar o investimento em ESG, mas não sabem por onde começar, há várias iniciativas no terceiro setor. Por exemplo, a Enactus é uma organização internacional sem fins lucrativos que fomenta a formação profissional de universitários para trabalhar em grandes empresas como Unilever, KPMG, Cargill, entre outras; além de beneficiar comunidades em situação de vulnerabilidade socioeconômica. “Queremos ajudar as empresas a colocarem em prática o seu discurso ESG, para que ele chegue lá na ponta, e elas possam devolver ao mundo esse retorno”, afirma a presidente da Enactus Brasil, Joana Rudiger.

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