Márcio Fernandes/Estadão
Márcio Fernandes/Estadão

Cadeias de valor

Por escolhas equivocadas de política de comércio exterior, Brasil está pouco inserido nas cadeias globais produtivas

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2016 | 05h00

O Brasil tem nadado contra a maré quando o assunto é comércio exterior. Nos últimos 15 anos insistiu no quase 100% “made in Brazil”, quando o movimento global apontava para outra direção: para a fragmentação cada vez maior das etapas do processo produtivo, nas chamadas Cadeias Globais de Valor.

Nelas, cada país foca o elo produtivo em que tenha mais vantagens comparativas. No caso de um celular, o importante não é fabricar tudo e exportar o produto acabado. O design é elaborado num país, certos chips em outro, a bateria num terceiro país, a embalagem, num quarto. Assim, a produção é pulverizada e, em algum lugar desse mundão, os componentes são reunidos. Todos saem ganhando. E é assim que as coisas passaram a funcionar. Mas o Brasil quase não tomou conhecimento do novo jogo e ficou de fora dessa integração.

Para o coordenador do Centro do Comércio Global e Investimento (CCGI) da FGV Lucas Ferraz, ficamos presos ao antigo paradigma de comércio: “Enquanto o mundo passou a se conectar e a se integrar, o governo brasileiro seguiu no discurso ultrapassado de adensamento das cadeias domésticas. É o ‘Made in Brazil’ contra o ‘made in the world’”, observa. Assim, o produto brasileiro vai perdendo competitividade internacional, perde vendas, perde renda e perde empregos.

E esse é apenas um dos fatores que deixaram o Brasil estagnado, há 20 anos com uma participação de cerca de 1,5% no comércio mundial.

Outro fator, apontado nesta Coluna em outras ocasiões, foi a aposta equivocada nos acordos multilaterais de comércio. Concentrou esforços na chamada Rodada Doha da Organização Mundial do Comércio (OMC), há 15 anos empacada e virtualmente fracassada. Não focou em acordos preferenciais (regionais ou bilaterais), hoje responsáveis por cerca de 50% do comércio global. Desde 1995, a Organização Mundial do Comércio recebeu cerca de 400 notificações de novos acordos desse tipo.

O novo ministro das Relações Exteriores, José Serra, já avisou que, a partir de agora, o Brasil vai dar prioridade à negociação de acordos bilaterais, de maneira a “recuperar oportunidades perdidas”. Ninguém espere resultado imediato. Mas a mudança de estratégia, embora chegue tarde, é bem-vinda.

Outro campo em que o Brasil ficou para trás é o cumprimento das exigências (ou barreiras) regulatórias não tarifárias. São padrões técnicos, sanitários e fitossanitários a que as mercadorias passaram a ser submetidas. E aí estamos falando de necessidades novas que vão desde inspeção sanitária específica para cada tipo de carne a novos padrões vigentes para tomadas elétricas.

Ferraz adverte que estamos bastante atrasados nessa regulamentação. “São barreiras que independem de acordos comerciais. Se forem harmonizadas, além de diminuir os custos de produção para o exportador, facilitam a integração às cadeias globais de valor.”

O coordenador do curso de pós- graduação em Comércio Exterior da UFRJ, Edson Peterli Guimarães, lembra que a inserção de um país nesses circuitos não é positiva apenas para as empresas participantes dessa fragmentação. “Há ganhos de competitividade, geração de empregos e avanço da tecnologia.”

O exemplo ícone desse processo por aqui é a Embraer, que opera com a minoria dos componentes das aeronaves produzidas no Brasil e, no entanto, é grande sucesso internacional de vendas.

CONFIRA:

Avanços insuficientes

Estudo ainda não divulgado pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) mostra que houve avanços na integração do comércio brasileiro com o mundo entre 1995 e 2011, mas que o País segue à margem das cadeias globais de valor. A pesquisa utiliza a base de dados mais recentes da OMC e da OCDE para comparar a inserção de 60 países nesses circuitos internacionais de produção.

 

Pouco integrado

Um dos indicadores que medem essa integração é o “valor adicionado nas exportações”. Nada mais é do que a fração das exportações que utiliza bens intermediários importados. O indicador do Brasil era de 7,8% em 1995 e avançou para 10,8% em 2011 – ainda muito aquém da média dos outros 60 países, de 27,4% em 2011.

 

Pode ter piorado

Para o economista do Iedi Rafael Cagnin, talvez esse avanço tenha parado ou mesmo sido revertido de 2011 para cá. “O setor mais integrado é o da indústria de transformação, que, neste período, sofreu grande regressão.”

*COM LAURA MAIA E ALEXANDRE GARCIA - ESPECIAL PARA O ESTADO

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