Carl de Souza/AFP
Geração de empregos com carteira de trabalho teve saldo negativo em 2021 após revisões Carl de Souza/AFP

Governo revisa números do Caged e indica perda de 191,5 mil vagas com carteira assinada em 2020

País encerrou o ano da pandemia com saldo negativo de geração de empregos, ao contrário do que vinha sendo propagado por integrantes do governo; diferença ocorre por causa de demora das empresas em informar os dados

Eduardo Rodrigues e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2021 | 21h13

BRASÍLIA - Uma nova rodada de revisões nos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) mostrou nesta terça-feira, 30, que, ao invés de ter criado empregos, o Brasil encerrou o ano de 2020 com fechamento de vagas de trabalho formais durante a pandemia de covid-19.  Em diversas ocasiões ao longo de 2021, integrantes do governo citaram o saldo positivo na geração de empregos em 2020 como evidência de uma forte recuperação da economia brasileira depois da crise sanitária. 

Entre contratações e demissões no ano passado, foram fechadas ao todo 191.502 vagas, de acordo com os dados revisados divulgados nesta terça-feira.

Em janeiro, o Ministério da Economia divulgou que as admissões haviam superado as demissões em 142.690 empregos no ano passado. Há um mês, o número real já havia despencado à metade para 75.883. Agora, o resultado do Caged de 2020 entrou no campo negativo.

Revisões em dados do Caged são corriqueiras e podem ocorrer até 12 meses após novas demissões e admissões por causa do prazo das empresas para informar os dados ao governo, o que pode demorar. Mas a magnitude da discrepância revela que de fato um número maior de firmas atrasou o preenchimento das informações sobre demissões no ano passado. De acordo com o Ministério do Trabalho e Previdência, a maioria das declarações enviadas fora do prazo são feitas por pequenas empresas.

 


Quando divulgado no fim de janeiro, o Caged de 2020 acumulava 15,166 milhões de admissões e 15,023 milhões demissões. Agora, após dez meses de revisões mensais, o número de admissões subiu para 15,619 milhões, uma correção de 2,98%. Mas a quantidade de demissões aumentou para 15,811 milhões, um ajuste de 5,24%.

Sem mencionar o resultado negativo, o secretário-executivo do Ministério do Trabalho e Previdência, Bruno Dalcolmo, negou hoje que o Caged tenha tido subnotificação de demissões em 2020 e minimizou a redução do saldo com as informações repassadas pelas empresas com atraso.

“Em 2020, houve 15 milhões de admissões e 15 milhões de demissões, ou seja, 30 milhões de movimentações, e a diferença é de 270 mil. Nos dois anos (2020 e 2021) houve 60 milhões de movimentações e o porcentual de ajuste é de 2,78% com as informações que as empresas repassam tardiamente.”

Atraso

O primeiro impacto da pandemia de covid-19 sobre o Caged foi um “apagão” de dados do indicador no começo do ano passado. No fim de março de 2020, o Ministério da Economia decidiu suspender por tempo indeterminado a divulgação dos saldos do Caged de janeiro e fevereiro. Com o passar das semanas, os dados de março também caíram nesse limbo.

Em abril do ano passado Dalcolmo reconheceu que Caged tinha dificuldades na coleta de informações em um momento em que muitas empresas e escritórios de contabilidade estavam fechados.

Nos meses seguintes, porém, a pasta alegou que o preenchimento das informações tinha voltado ao normal, negando o aumento de subnotificações de demissões. No entanto, a persistente elevação da taxa de desemprego medida pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua do IBGE contrastava com os resultados bastante positivos do Caged.

Na nota técnica em que informa a revisão da série desde janeiro de 2020, o Ministério avalia que a atualização aumenta a precisão dos dados e não altera a análise geral sobre o mercado de trabalho. “Em especial, a recuperação do emprego formal desde o segundo semestre de 2020”, argumenta no documento.

O pesquisador do FGV/Ibre, Daniel Duque, foi um dos economistas que alertaram para a possibilidade de subnotificação nos números ainda no ano passado. “Era uma hipótese, porque havia diversos indícios de subnotificação. Eu tinha uma forte suspeita de que haveria mesmo uma revisão para baixo nos números. Em um momento de fechamento de empresas, suspensão de atividades ou desorganização das equipes, o envio de dados ao Caged não entrou nas prioridades dessas firmas”, avalia.

Duque lembra que essas revisões mensais a partir das declarações enviadas fora do prazo são comuns, mas aponta que a pandemia inverteu o sinal desses ajustes. “Antes da pandemia, essas revisões eram de pequena magnitude e em geral computavam mais admissões que demissões fora do prazo. Na pandemia, ocorreu o inverso, com as revisões trazendo mais demissões do que admissões, em uma magnitude muito maior”, acrescenta.

Para o economista, os pagamentos do auxílio emergencial de R$ 600 por mês ao longo de 2020 também pode ter adiado a busca pelos trabalhadores demitidos pelo seguro-desemprego. Por isso, parte das empresas não teria sido pressionada pelos ex-empregados a notificarem com mais rapidez as demissões.

Duque avalia ainda que o movimento de ajuste para baixo nos resultados de 2020 não acabou. As empresas têm 12 meses para enviar novas informações – podendo ainda alterar os resultados do fim do ano passado. “Ainda há um sinal atípico em relação a declarações fora do prazo, mas não dá para saber a magnitude. Ainda há empresas desorganizadas, mas são poucas razões para acreditar em um novo grande ajuste negativo”, pondera.

O economista descarta qualquer tipo de manipulação nos dados, mas recomenda mais transparência  na divulgação dos resultados, que são apenas parciais até que se esgote o prazo de revisões. “O Caged é confiável na tendência, mas em termos de nível é sempre preciso esperar mais dados. O governo deveria comemorar menos os saldos nominais e destacar mais a questão da tendência. Os números não são ruins, mas é preciso ter cautela antes de estourar o champagne”, conclui.

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Brasil cria 253 mil empregos formais em outubro

Apesar de positivo, resultado representa piora na relação com outubro do ano passado, quando foram abertas 366.295 vagas formais

Eduardo Rodrigues e Thaís Barcellos, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2021 | 16h13

BRASÍLIA - A economia brasileira criou 253.083 empregos com carteira assinada em outubro, segundo informações do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) divulgados nesta terça-feira, 30, pelo Ministério do Trabalho e Previdência.

O resultado do mês passado decorreu de 1,760 milhão de admissões e 1,507 milhão de demissões. Em outubro de 2020, houve abertura de 366.295 vagas com carteira assinada. 

O mercado financeiro já esperava um novo avanço no emprego no mês, e o resultado veio dentro do intervalo das estimativas de analistas consultados pelo Projeções Broadcast. As projeções eram de abertura líquida de 206.121 a 470.065 vagas em outubro, com a maioria com previsão de 260 mil postos de trabalho.

No acumulado dos dez primeiros meses de 2021, o saldo do Caged já é positivo em 2,645 milhões de vagas. No mesmo período do ano passado, houve destruição líquida de 278.997 postos formais.

Apesar de positivo, o resultado representa piora na relação com outubro do ano passado, quando foram abertas 366.295 vagas formais. Esse também é o pior resultado mensal desde abril deste ano, momento em que foram criados 82.188 empregos com carteira assinada.

A comparação dos números com anos anteriores a 2020, segundo analistas, não é mais adequada porque o governo mudou a metodologia no início do ano passado.

De acordo com o ministério, 1,913 milhão de trabalhadores seguiam com garantia provisória de emprego em outubro graças às adesões ao Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e da Renda (BEm). Para cada mês de suspensão ou redução de jornada pelo programa, o trabalhador tem o mesmo período de proteção à sua vaga. O programa foi relançado em abril pelo governo por mais quatro meses neste ano.

Desde janeiro do ano passado, o uso do Sistema do Caged foi substituído pelo Sistema de Escrituração Digital das Obrigações Fiscais, Previdenciárias e Trabalhistas (eSocial) para as empresas, o que traz diferenças na comparação com resultados dos anos anteriores. Na metodologia anterior (de 1992 a 2019), o melhor resultado para outubro na série sem ajustes havia sido em 2009, quando foram criadas 230.956 vagas no décimo mês do ano. 

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Desemprego recua para 12,6% no 3º trimestre, mas renda média do trabalhador cai 11% em um ano

Dados do IBGE indicam que há crescimento em ocupações com menores rendimentos; o País ainda tem quase 13,5 milhões de pessoas em busca de trabalho

Daniela Amorim, Vinicius Neder e Guilherme Bianchini , O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2021 | 09h14
Atualizado 30 de novembro de 2021 | 12h59

RIO e SÃO PAULO - A taxa de desemprego recuou de 14,2% no segundo trimestre para 12,6% no terceiro trimestre, mostram os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (Pnad Contínua), divulgada nesta terça-feira, 30, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Há um ano, a taxa de desocupação era de 14,9%.

Houve melhora tanto na geração de vagas formais quanto informais, mas ainda há quase 13,5 milhões de desempregados no País. Se considerada toda a mão de obra ainda subutilizada, está faltando trabalho para 30,743 milhões de brasileiros.

"É uma boa notícia que a recuperação foi relativamente rápida e que o impacto da pandemia já diminuiu bastante, mas é importante lembrar que o nível pré-pandemia não era forte. Pelo contrário", ressaltou o economista-chefe do C6 Bank, Felipe Salles. "O mercado de trabalho já estava com desemprego alto e nível de ocupação relativamente baixo no início do ano passado", acrescentou.

A queda da taxa de desemprego é uma notícia positiva, mas com sinais preocupantes nos aspectos qualitativos, avaliou o economista-chefe da MB Associados, Sergio Vale. “É o retrato de um mercado de trabalho ainda precarizado, mais informal e com renda real em queda, por perda do poder de compra”, justificou.

Para Vale, a retomada da ocupação está em linha com a saída da pandemia e a normalização de serviços, principal empregador da atividade. O economista ainda vê espaço para uma melhora adicional puxada pelo setor, com recuo da taxa de desocupação a 11,5% no último trimestre e média de 13,5% em 2021.

“O desemprego está melhorando mais que o imaginado neste ano, mas deve piorar mais do que se espera no ano que vem. A economia estagnada impede uma recuperação mais contundente da taxa de desocupação”, previu Vale. “Temos que acompanhar a alta sazonal do primeiro trimestre, lidando com economia mais enfraquecida, inflação intensa, taxa de juros chegando no pico e as consequências da variante Ômicron.”

Sob pressão da inflação elevada e de um aumento do número de pessoas atuando na informalidade e em vagas com menores rendimentos, a renda média do trabalhador teve queda recorde de 11,1% em um ano, para R$ 2.459 mensais. A massa de salários em circulação na economia ainda está R$ 1,688 bilhão menor do que há um ano.

“Embora a gente tenha mais pessoas trabalhando, a massa de rendimento que vem do trabalho não se expande”, frisou Adriana Beringuy, coordenadora de Trabalho e Rendimento do IBGE.

O avanço da vacinação da população contra a covid-19 e a melhora nos índices da pandemia no momento têm impulsionado uma recuperação mais intensa das contratações no mercado de trabalho, opinou Adriana. “Desde julho a gente começou a observar essa melhoria mais intensa na ocupação”, lembrou.

Segundo a coordenadora do IBGE, o avanço da imunização da população contra a covid-19 e a melhora na pandemia têm permitido uma normalização do funcionamento das atividades econômicas, que acabam absorvendo mais trabalhadores. Em apenas um trimestre, foram abertas 3,592 milhões de vagas. Em um ano, a população ocupada aumentou em 9,537 milhões de pessoas.

“O cenário hoje do mercado de trabalho é completamente diferente do que havia um ano atrás. Um ano atrás você não tinha vacina, ainda tinha restrições de funcionamento vigorando, muitas atividades ainda não estavam absorvendo trabalhadores”, lembrou Adriana.

O total de pessoas ocupadas já supera o nível pré-pandemia nas atividades de agricultura, indústria, construção, comércio e informação e comunicação, ressaltou a pesquisadora.

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