Amanda Perobelli/Estadao
Amanda Perobelli/Estadao

Caged superestima e Pnad Contínua subestima emprego na pandemia, dizem economistas

Segundo especialistas, as informações obtidas via telefone pela Pnad podem estar traçando um cenário negativo para o emprego formal; no Caged, falta do envio de dados pelas empresas que faliram pode ajudar na visão positiva

Daniela Amorim e Maria Regina Silva, O Estado de S.Paulo

08 de abril de 2021 | 20h00

RIO e SÃO PAULO - A pandemia do novo coronavírus está dificultando a coleta de dados que mostrem precisamente como anda o mercado de trabalho no País, segundo economistas ouvidos pelo Estadão/Broadcast.

As informações obtidas via telefone pela Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) podem estar subestimando o alcance do emprego formal, defende um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Uma expansão extraordinária na população em idade ativa também teria sido influenciada pela mudança na forma de coleta, avaliam especialistas.

Por outro lado, os dados sobre a geração de vagas com carteira assinada captados pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) do Ministério da Economia estariam superestimados pela falência e hibernação de empresas durante a crise sanitária, que teriam deixado de informar os desligamentos de funcionários. Uma mudança na metodologia de coleta de dados também tem levado a revisões de informações de meses anteriores, que alteram o desempenho do saldo entre admissões e demissões. No chamado Novo Caged, a partir de janeiro de 2020, passaram a ser contabilizados obrigatoriamente contratos de trabalhadores temporários, cuja declaração antes era opcional. Os dados também passaram a usar a base de informações do eSocial.

Os dados do Caged de janeiro de 2021 mostram a existência de 39,623 milhões de empregos formais no País, 255 mil vagas a mais que no mesmo mês de 2020. Já os dados da Pnad Contínua para o trimestre encerrado em janeiro de 2021 mostram uma extinção de 3,918 milhões de vagas com carteira assinada no setor privado no trimestre terminado em janeiro de 2021 ante o mesmo período do ano anterior. Na Pnad, a população em idade ativa, com 14 anos ou mais, uma alta recorde de 2,8% no período, 4,876 milhões de pessoas a mais em um ano.

“O Caged está bem mais descolado do desempenho do PIB (Produto Interno Bruto) que a Pnad Contínua, o que mostra que pode estar superestimado. Por outro lado, não deixa de ser relevante o ponto de que a atividade econômica está um pouco acima do que mostra a Pnad Contínua. Talvez a realidade (do mercado de trabalho) esteja entre o que mostra o Caged e a Pnad Contínua”, ponderou o pesquisador Daniel Duque, do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV).

Para o economista Lucas Assis, da Tendências Consultoria Integrada, a suspensão da atividade em empresas que ficaram fechadas por medidas de isolamento dificulta a precisão do recorte de admitidos e demitidos no Caged.

"Temos visto um foco bem grande na questão da incompatibilidade da Pnad e do Caged. No caso da primeira, a amostra passou a ser feita por telefone durante a pandemia, enquanto que no segundo, a obrigatoriedade em inserir os trabalhadores temporários. Isso levou a um olhar mais cauteloso com as pesquisas, com possível omissão de novos desligamentos no Caged", cita o economista da Tendências.

Com a mudança metodológica e por causa da pandemia, Assis lembra que o Caged vem fazendo uma série de revisões, o que dificulta ainda mais a ligação do indicador com a realidade. "Isso traz implicações para o cenário. O mercado de trabalho deve ser um dos mais frágeis dentre os setores da economia", avalia,  acrescentando que na consultoria Tendências a expectativa, por ora, é de crescimento de 2,7% do Produto Interno Bruto (PIB) em 2021, depois de um recuo de 4,1% em 2020. Já a taxa média de desemprego está estimada em 15,5%, "uma das mais altas dos últimos 15 anos", ante 13,5% no ano passado. "Em 2022 deve permanecer elevada. A estimativa é algo em torno de 15,1%. Deve ter uma lenta retomada. As cicatrizes do desemprego ainda continuarão na população mais vulnerável como mulheres negras, ocupados com baixa escolaridade e rendimento. Como o mercado de trabalho é caracterizado por alta heterogeneidade, isso dificulta a retomada", avalia o economista da Tendências.

No entendimento de Assis, a Pnad reflete um pouco melhor as características do mercado de trabalho, por causa, por exemplo, da captura de dados do segmento informal e por regiões. Segundo ele, quanto mais se desagrega percebe-se taxas de informalidade elevadas como no Pará, Maranhão e Piauí.

Já quanto ao Caged, o indicador, diz, parece estar passando por um movimento de expor dados "um pouco inflados". A despeito disso, Assis afirma que é uma amostra importante e uma boa ferramenta para se observar o curto prazo, mas que precisa de uma certa cautela. "A Pnad por trabalhar com o trimestre móvel acaba camuflando alguns dados. No entanto, tende a ficar mais próxima da realidade por trazer dados informais e por não sofrer tantas revisões. Contudo, essas duas pesquisas andam juntas", diz o economista da Tendências ao referir-se no sentido de os levantamentos serem importantes para o acompanhando do cenário.

Interferência

Um estudo do Ipea divulgado pelo Ministério da Economia defende que a queda no número de entrevistas realizadas pela Pnad Contínua pode ter interferido na evolução do emprego formal obtido pelo levantamento. Com a pandemia de covid-19, o IBGE mudou a coleta da Pnad, passando de presencial a telefônica. A dificuldade de obtenção de números de telefones na renovação da amostra e de sucesso na taxa de respostas mudou a composição da população que seria entrevistada pela primeira vez na pesquisa. Entre os cinco grupos de entrevistados a cada trimestre, o que respondia à pesquisa pela primeira vez teve uma taxa de resposta consideravelmente inferior aos demais grupos.

“As poucas pessoas entre as que de fato foram entrevistadas tinham uma menor propensão a estarem ocupadas em empregos formais”, contou Carlos Henrique Corseuil, técnico de Planejamento e Pesquisa da diretoria de estudos e políticas sociais do Ipea.

Segundo o estudo do Ipea, houve uma mudança na composição da amostra, reduzindo a representatividade de indivíduos com maior propensão a ocupar um posto de trabalho formal. Caso a composição do grupo entrevistado tivesse se mantido a mesma, a taxa de formalização teria sido maior, o que equivaleria a cerca de 1,5 milhão de empregos formais que deixaram de ser computados no segundo trimestre de 2020. No terceiro trimestre, sob o mesmo cálculo, 1,2 milhão de vagas formais no setor privado teriam deixado de ser contabilizadas pela Pnad Contínua.

"É importante frisar que os nossos resultados apontam como plausível a hipótese de que a queda no número de entrevistas foi decorrente da dificuldade que o IBGE teve de obter um cadastro de telefones para conduzir as entrevistas por esse meio durante a pandemia. Tal conjectura é respaldada pelo fato de a queda ser concentrada, sobretudo, no grupo de indivíduos que seriam entrevistados pela primeira vez no segundo trimestre de 2020, ou seja, no início da pandemia", ressaltou a Carta de Conjuntura do Ipea. Procurado pela reportagem, o IBGE informou que não se manifestaria sobre os problemas apontados pelo Ipea na coleta da Pnad Contínua.

“Parece que há uma taxa de não resposta maior entre homens, jovens, menos escolarizados. Se por um lado a gente tem mais mulheres e mais idosos (ouvidos na amostra), que são menos ocupados, a gente também tem mais escolarizados, mais brancos, que também trazem um viés por outro lado, de superestimar a população ocupada”, apontou Daniel Duque, do Ibre/FGV, acrescentando ser difícil mensurar qual desses grupos influenciou o saldo final da Pnad.

A redução na taxa de resposta pode ter afetado outros indicadores produzidos pela Pnad Contínua, confirmou Corseuil, que já está estudando os dados nesse sentido.

“Sem dúvida, isso também pode estar afetando a taxa de desemprego, o nível de ocupação total. Estamos rodando os dados para ver se outros indicadores também foram influenciados”, contou o pesquisador do Ipea.

O economista Bruno Imaizumi, da LCA Consultores, ressalta que a pandemia de covid-19 afetou tanto os resultados da Pnad quanto os do Caged. No levantamento do IBGE, um exemplo citado por ele, embora seja uma característica populacional, é o aumento da população de 14 anos ou mais, que tem mostrado um comportamento diferente do visto antes da pandemia. Ou seja, causa estranheza por estar subindo, explica. "Isso é apenas um dos indícios de que a questão Pnad está sendo afetada, tem um fator de nível de qualidade menor", observa.

O pesquisador Marcos Hecksher, do Ipea, acredita que a migração da coleta da Pnad Contínua de presencial para telefônica explique a aparente mudança no perfil da população em idade ativa, ou seja, com 14 anos ou mais de idade.

“Se você olhar a proporção de pessoas com 14 anos ou mais na Pnad Contínua, ela varia como um eletrocardiograma ao longo do tempo. E na pandemia houve um aumento extraordinário, o que é esperado quando você sai de uma pesquisa face a face para uma pesquisa telefônica. É mais fácil você visitar e encontrar aberto um domicílio cheio de crianças. Quando você está fazendo pesquisa presencial, tem esse viés de disponibilidade em favor de crianças. Quando você telefona, e hoje em dia telefones são quase sempre celulares, que tem telefones são mais os adultos. Então você tem um viés na outra direção, que é de encontrar mais adulto do que criança. E isso aconteceu na Pnad Contínua”, justificou Hecksher durante um seminário virtual organizado nesta segunda-feira, 5, pelo Centro de Estudos de Riqueza e Estratificação Social do Instituto de Estudos Sociais e Políticos da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

Segundo Adriana Beringuy, analista da Coordenação de Trabalho e Rendimento do IBGE, o crescimento mais acentuado da população em idade ativa também chamou a atenção da equipe que conduz a Pnad Contínua.

“A gente também tem notado, a gente está fazendo estudos internos ligados à questão da captação, da distribuição etária dos setores, se isso está variando muito em todas as unidades da federação ou se isso está impactando uma região especificamente. Isso vai ficar mais claro quando a gente divulgar o suplemento de moradores, as Características Gerais dos Moradores e Domicílios”, contou Adriana.

O suplemento deve ser divulgado pelo IBGE em meados de 2021. No entanto, os dados já publicados na Pnad Contínua tiveram a qualidade atestada pela Coordenação de Métodos e Qualidade do IBGE, recebendo o aval para divulgação. “Tem significância estatística”, garantiu Adriana. “Toda divulgação (de dados da Pnad) passa por eles”, completou.

Desafios

Quanto aos dados oficiais de emprego formal do País, o economista da LCA Bruno Imaizumi menciona que algumas empresas não se adaptaram ao novo sistema de prestação de informações (e-Social) no início do ano passado, gerando também dificuldades do Ministério da Economia em informar os primeiros dados de 2020. "Enquanto o Caged está superestimando os efeitos no mercado de trabalho, a Pnad está subestimando", opina Imaizumi.

Em nota, a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho do Ministério da Economia esclarece que identificou a falta de prestação das informações sobre admissões e demissões por parte das empresas, o que inviabilizou a consolidação dos dados do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), referentes aos meses de janeiro e fevereiro. "Trata-se de dados de envio obrigatório e de responsabilidade das empresas e que, na presença de subdeclaração, podem comprometer a qualidade do monitoramento do mercado de trabalho brasileiro."

De acordo com a LCA, um dos motivos para os resultados surpreendentes do Novo Caged é a quantidade de trabalhadores com garantia provisória de emprego. O Programa Emergencial de Manutenção do Emprego e Renda (Bem) celebrou 20 milhões de contratos para 10 milhões de empregados, dos quais 30% ainda estão dentro do período de estabilidade. "O BEm foi a principal medida do mercado de trabalho formal em 2020 e continua tendo seus efeitos em 2021."

Para o economista da LCA, no geral, "falta bom senso" quanto ao entendimento dos levantamentos de emprego. "São duas metodologias que tiveram alterações e foram impactadas pela pandemia."

Ainda em nota, a Secretaria Especial de Previdência e Trabalho reforça que o Caged e a Pnad Contínua são bases de dados de reconhecida excelência, que possuem natureza e finalidade distintas. O objetivo do Caged, explica, é monitorar a evolução do mercado de trabalho formal, enquanto a Pnad Contínua capta, trimestralmente, toda a população ocupada e a população desocupada, "abarcando, assim, toda a força de trabalho do País.".

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