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Caiado desconfia que saída de Rodrigues tem a ver com eleições

O ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, recebeu nesta quarta-feira toda a bancada ruralista do Congresso, a quem explicou os motivos de sua saída do governo. O deputado Nelson Marquezelli (PTB-SP) disse que o ministro relatou que sua saída é de foro pessoal, que considera que já cumpriu sua missão e que chegou a hora de deixar o cargo. Marquezelli elogiou a condução do ministério por Rodrigues. "Rodrigues foi um dos melhores ministros que já tivermos", afirmou.O deputado Ronaldo Caiado (PFL-GO) disse que a explicação do ministro não convence a bancada ruralista. Para ele, o pedido de demissão dele tem cunho político. "A agricultura vive a maior crise dos últimos anos. A minha posição é que o governo quer aparelhar o ministério como instrumento político para a reeleição do presidente da República", afirmou o deputado, observando que faltam apenas dois dias para que o governo fique impedido de fazer novas nomeações."Estou raciocinando como deputado que conhece a máquina do PT e como ele utiliza a máquina para fazer uma eleição."Caiado disse, ainda, que o deputado Abelardo Lupion (PFL-PR) comunicou a Rodrigues que a bancada ruralista se sente, a partir de agora, liberada para agir, analisando caso a caso.O deputado Luiz Carlos Heinze (PP-RS) também levantou a suspeita de que Rodrigues esteja deixando o governo por falta de apoio da equipe econômica. "Estamos nos piores momentos da agricultura brasileira, e o ministro Rodrigues não teve o apoio que necessitava", afirmou, lembrando que, no ano passado, o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci foi inflexível quanto à liberação de recursos para combater a febre aftosa. Heinze disse esperar que o próximo ministro não seja alguém ideológico.O presidente do Conselho Nacional da Pecuária de Corte, Sebastião Costa Guedes, disse que a saída de Rodrigues é uma perda para o setor. Ele, no entanto, acredita que, por se tratar de ano eleitoral e fim de governo, a saída do ministro deve afetar pouco o setor produtivo nacional. Ele elogiou a postura do ministro que, segundo ele, sempre foi um homem de diálogo.Já o presidente da Câmara Setorial da Carne, da Confederação da Agricultura e da Pecuária do Brasil (CNA), Antenor Nogueira, disse que fica uma apreensão sobre o rumo que pode ser dado às políticas do Ministério da Agricultura. "Não conversei com o ministro. Mas quero saber que rumo o novo ministro vai dar a este ministério. Sem dúvida alguma, há uma grande preocupação no setor produtivo brasileiro", afirmou."Buraco intapável"Roberto Rodrigues é engenheiro agrônomo formado pela Universidade de São Paulo. Enfrentou no governo Lula a crise da febre aftosa e chegou a admitir ao Estado que houve "relaxamento" no controle da doença no Brasil. Na entrevista concedida em novembro de 2005, sem citar nomes, ele lembrou que já havia alertado para os riscos do reaparecimento da doença. "Eu tenho dito há muito tempo: o problema da aftosa não é saber se vai ter; é saber quando e onde vai aparecer. Eu tinha medo porque achava que havia um relaxamento da situação."Ele foi o protagonista de um dos maiores bate bocas do governo Lula, quando chamou de vagabundo, em 2004, o então ministro do Planejamento Guido Mantega, atual ministro da Fazenda. O motivo foi o fato de não conseguir marcar audiência com Mantega para discutir a greve dos fiscais sanitários. Em nota divulgada na época, Rodrigues confirmou que fez um desabafo com um grupo de parlamentares, mas negou que tenha ofendido Mantega.E foi com Mantega que Rodrigues enfrentou quase seis horas de críticas ao pacote de medidas do governo federal para socorrer os produtores. Foi na audiência pública na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, realizada no início do mês.Os parlamentares da bancada ruralista aumentaram ainda mais seu poder de fogo com o anúncio, no dia anterior, da queda de 0,5% do Produto Interno Bruto (PIB) do setor agrícola no primeiro trimestre do ano, em relação ao mesmo período do ano passado. Rodrigues disse que a queda já era esperada, ao admitir que a crise vivida pela agricultura "não tem precedentes".Na audiência, ele ponderou que o governo vem procurando amenizar a situação, destacou as medidas para socorrer o setor, mas admitiu que não há como recuperar a perda de renda dos produtores, que chegou a R$ 30 bilhões nos últimos dois anos, segundo estimativas da iniciativa privada. "O buraco de R$ 30 bilhões (do setor agrícola) é praticamente intapável por medidas emergenciais ou de longo prazo", afirmou.

Agencia Estado,

28 de junho de 2006 | 16h47

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