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Caiu a ficha

As mudanças acontecem tão rapidamente que até mesmo expressões corriqueiras vão perdendo sentido para as novas gerações.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

23 de julho de 2014 | 02h03

A moçada desconhece, por exemplo, o que seja mata-borrão, telegrama, anil, anágua - coisas que nem são de tão antigamente. Mas há também expressões bem mais recentes que vão ficando incompreensíveis. É preciso explicar para a nova geração digitalizada o que significa, por exemplo, "cair a ficha". Que ficha? Cair onde?

Pois só agora, no governo da presidente Dilma, está caindo a ficha de que os próximos meses, justamente os mais quentes da campanha eleitoral, são de uma terrível coincidência entre estagnação econômica e inflação alta.

A simples divulgação da Pesquisa Focus, do Banco Central, que na segunda-feira dava conta de que o mercado financeiro - e aí há pelo menos cem instituições diferentes - aposta em um crescimento do PIB abaixo de 1% neste ano, disparou alarmes que deveriam ter disparado muito antes. Por que é outro assunto, outros quinhentos, dizia-se até recentemente.

Tantas vezes as autoridades deste governo recorreram a truques de linguagem e à contabilidade criativa que parecem ter acreditado nisso. A cada número desfavorável divulgado pelo IBGE e pela Fundação Getúlio Vargas (FGV), respondiam com argumentos que supostamente serviam de contraponto para sentimentos negativos. O baixo crescimento econômico, por exemplo, teria a ver com a recuperação lenta demais da atividade das economias maduras e com a pouca disposição dos bancos em ativar o crédito - e não com problemas nossos.

A incapacidade de entregar o superávit primário (sobra de arrecadação para pagar a dívida), combinado muito antes, era um episódio parcial que exigia apenas um pouco mais de paciência e menos aflição, porque os resultados positivos logo viriam.

E a inflação, por exemplo, foi sempre o resultado de choques de oferta, e não de despesas excessivas do Tesouro. Os investimentos também já estavam a caminho, como se poderia conferir nas projeções apontadas nos arquivos de PowerPoint do ministro da Fazenda, Guido Mantega.

No entanto, as encomendas não chegam. O horizonte que gira na cabeça dos brasileiros não é mais o dos resultados de 2014, mas o que vem depois.

Como planejar as atividades em 2015 e 2016, se o ponto de referência é apenas o que aconteceu nos últimos três anos, com os resultados conhecidos? Se for para acatar os argumentos do governo, nada deve melhorar substancialmente porque não há nenhuma perspectiva de rápida recuperação da economia global e a economia brasileira continua sujeita a choques de oferta e rebordosas inflacionárias, já que há tanto preço administrado para atualizar.

Não há mais tempo, antes das eleições, para providências destinadas a reverter a situação desfavorável. Mas sempre é hora para reconquistar pelo menos um pedaço da confiança perdida. O então candidato Lula editou sua Carta ao Povo Brasileiro apenas três meses antes das eleições de 2002 e foi o suficiente para desfazer um clima de forte desconfiança. Mas essa ficha ainda não caiu.

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