The New York Times
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Caixa preta em veículos abre polêmica sobre a privacidade

Todos os carros vendidos nos EUA terão de ser equipados como gravador de dados a partir de 2014

The New York Times,

22 de julho de 2013 | 12h29

NOVA YORK - Quando Timothy Murray bateu veículo Ford em 2011, ele teve a sorte. Ele não se machucou seriamente e não prejudicou sua carreira política. Acabou se elegendo vice-governador de Massachusetts. Na época, ele disse à polícia que estava usando o cinto de segurança e não estava em alta velocidade.

 

Mas uma história diferente logo surgiu. Murray estava dirigindo mais de 160 quilômetros por hora e não estava usando o cinto de segurança, de acordo com o computador em seu carro. Ele recebeu multa de US$ 555 e reconheceu que dormiu na direção.

O caso colocou o político no centro de uma polêmica sobre um equipamento pouco conhecido mas cada vez mais usado: o gravador que registra todos os dados sobre a velocidade e a forma de condução, conhecido como 'caixa preta'.

Cerca de 96% de todos os veículos novos vendidos nos Estados Unidos tem as caixas pretas, e em setembro de 2014, todos serão obrigados a ter o equipamento, por determinação da Administração Nacional de Segurança do Tráfego Rodoviário.

As caixas têm sido muito utilizadas por empresas de carros para avaliar o desempenho de seus veículos. Mas os dados armazenados nos dispositivos são cada vez mais usados para identificar problemas de segurança nos carros e como prova em acidentes de trânsito e casos criminais.

E o tesouro de dados dentro das caixas tem levantado preocupações em relação à privacidade dos motoristas, incluindo perguntas sobre quem detém a informação, e quando elas podem ser utilizadas.

Para os reguladores federais, autoridades policiais e companhias de seguros, os dados são uma ferramenta indispensável para investigar falhas.

"As caixas-pretas fornecem informações de segurança que não podem ser de outra forma disponíveis para as autoridades avaliarem o que aconteceu durante um acidente - e que medidas futuras poderiam ser tomadas para salvar vidas e prevenir lesões", explica David Strickland, administrador da agência governamental de segurança.

Mas, para os defensores dos consumidores, os dados são apenas o exemplo mais recente de como os governos e empresas estão invadindo a privacidade e obtendo informações sobre o comportamento das pessoas.

"Esses carros são equipados com computadores que coletam grandes quantidades de dados", disse Barnes Khaliah, do centro de informações eletrônicas privadas, um grupo de consumidores com sede em Washington. "Sem proteção, o consumidor pode ser vítima de todo tipo de abuso".

Os defensores dos consumidores dizem que o governo deveria deixar claro as diretrizes de como os funcionários públicos podem utilizar os dados das caixas pretas. "Não há normas claras sobre o que é permitido", disse Barnes.

Quatorze Estados, incluindo Nova York, aprovaram leis que dizem que, embora os dados da caixa preta sejam de propriedade do dono do veículo, policiais e outros envolvidos no acidente podem ter acesso às informações nela contidas com uma ordem judicial.

Os advogados podem pedir judicialmente os dados para as investigações criminais e cíveis, tornando a informação acessível a terceiros, incluindo a Justiça ou companhias de seguros, que podem usar as informações contra o motorista acidentado para não pagar indenização ou retirar vantagens como descontos na apólice.

As normas atuais exigem que a presença da caixa-preta seja divulgada no manual do proprietário. Mas, a grande maioria dos motoristas não lê o manual por completo e não sabem que seu veículo pode capturar e gravar a sua velocidade, a posição do freio, o uso do cinto de segurança e outros dados a cada vez que o carro é utilizado.

Os fabricantes de veículos podem utilizar os dados das caixas pretas para estudar melhorias nos veículos, mas garantem que preservam a privacidade do consumidor. "As montadoras não acessam os dados sem permissão do consumidor, e acreditamos que todas as exigências do governo para instalar caixas pretas em todos os veículos devem incluir medidas para proteger a privacidade do consumidor", afirma Wade Newton, da associação das montadoras.

Além das preocupações com a privacidade, porém, os críticos têm questionado a confiabilidade dos dados.

Em 2009, Anthony Niemeyer morreu após bater um Ford Focus alugado em Las Vegas. Sua viúva, Kathryn, processou tanto a Ford Motor quanto a locadora Hertz, alegando que o sistema de air bag não funcionou.

A caixa preta registrou que o motorista viajava rápido demais, o que impediu que o air bag fosse acionado a tempo. Os dados isentaram as empresas de culpa e a viúva perdeu a ação.

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