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Caixa recebe capitalização de R$ 1,5 bi do Tesouro e já negocia novos aportes

Em nota, banco diz que valor é resultado de negociações com o governo para aumentar capital; analistas veem risco na expansão do crédito

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

31 de agosto de 2012 | 03h07

Líder na expansão de crédito no País nos últimos meses, a Caixa Econômica Federal vai receber um aporte de R$ 1,5 bilhão do Tesouro Nacional. Como o ritmo de crescimento dos empréstimos é muito forte, o banco continua negociando novas capitalizações. No fim do ano passado, a instituição controlada pelo governo federal já havia recebido R$ 500 milhões.

Em nota, a Caixa informou que o novo valor "é resultado das negociações com o governo para o aumento do seu capital". "As negociações continuam transcorrendo no intuito de dar suporte à estratégia de crescimento do banco no mercado." A capitalização será feita com ações da Petrobrás e Eletrobrás.

A estratégia à qual a Caixa se refere na nota já se reflete em vários indicadores do balanço e tem preocupado analistas. Em relação aos números, destaca-se, por exemplo, a expansão de 45% da carteira de crédito nos 12 meses encerrados em junho. Para se ter uma ideia, no Banco do Brasil, a alta foi de 20% no mesmo período. No Itaú, de 12,6% e, no Bradesco, de 11,3%.

Outro dado que chama atenção é a relação entre carteira de crédito e patrimônio líquido. Trata-se de um indicador que revela a chamada alavancagem de uma instituição financeira - em linhas gerais, alavancagem mede a relação entre dinheiro próprio e créditos concedidos.

Segundo levantamento da Austin Rating obtido pelo Estado, a Caixa é hoje o banco mais alavancado do País, considerando as 58 instituições que divulgaram os resultados relativos ao segundo semestre. No banco público, o indicador está em 14,14%, quase o dobro do Banco do Brasil (BB), que estava em 7,44%. Nos privados, os porcentuais são ainda menores: Itaú tinha 4,72% e o Bradesco, 4,37%.

"O risco da alavancagem elevada é que, se houver algum problema de inadimplência fora do esperado, o prejuízo afetará mais rapidamente indicadores importantes do banco, como o Índice de Basileia", disse o analista de instituições financeiras da Austin, Luís Miguel Santacreu.

O Índice de Basileia foi criado por autoridades globais e estabelece parâmetros mínimos para a relação entre capital e empréstimos em um banco. O objetivo é dar mais segurança ao setor financeiro mundial. No Brasil, o índice mínimo exigido pelo Banco Central é 11. Na Caixa, o indicador estava em 12,9 ao final do segundo trimestre. Com o novo aporte, a relação vai subir, mas o banco não informou quanto.

Santacreu explicou que, quando um banco tem prejuízo, a perda é automaticamente incorporada ao patrimônio líquido, reduzindo-o. "Com patrimônio líquido menor, só restam duas saídas: ou a instituição para de emprestar para manter o Basileia dentro das regras do BC ou recebe um novo aporte dos controladores."

Risco alto. Um ex-dirigente do BC, que falou sob a condição de não ser identificado, disse que a estratégia da Caixa de expandir rapidamente o crédito "provavelmente resultará em problemas em algum momento".

O argumento dele é o de que, quando o crédito cresce rápido demais - e isso vale para qualquer instituição financeira do mundo -, a qualidade do devedor tende a cair. No caso específico da Caixa, ele lembrou que há mais um fator de alto risco: nos últimos tempos, o banco tem entrado em negócios com os quais não tem familiaridade.

"Está aí o exemplo do Panamericano. A Caixa nunca tinha feito uma aquisição na vida, ou seja, não estava pronta para um movimento daqueles", observou.

O executivo faz uma ponderação. "Vemos hoje a Caixa de um lado e todos os outros bancos, incluindo o BB, do outro", afirmou. "Lá na frente, pode-se concluir que a Caixa estava certa e todos os outros, errados."

Para outro analista, que também pediu anonimato, a Caixa está tomando risco demais. "Com a alavancagem nesses níveis, um erro na estratégia pode levar o governo a ter de socorrer o banco", disse. Ele ponderou que a Caixa empresta principalmente na área imobiliária, o que reduz o risco de calote.

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