André Dusek/ ESTADÃO
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Caixa reduz taxa de juros do cheque especial para 4,99% ao mês

Segundo o presidente do banco, Pedro Guimarães, decisão foi 'matemática' e não teve interferência do governo; para ele, instituições privadas podem ir na mesma direção

Aline Bronzati e Fabrício de Castro, O Estado de S.Paulo

12 de novembro de 2019 | 12h28
Atualizado 13 de novembro de 2019 | 11h43

SÃO PAULO/BRASÍLIA - A Caixa Econômica Federal anunciou nesta terça-feira, 12, a redução de juros no cheque especial. A partir do próximo mês, a taxa mínima cobrada pela instituição será de 4,99% ao mês, ante os atuais 9,99%. O corte acontece no momento em que o governo se prepara para lançar novas regras para esse tipo de linha de crédito – que tem um dos maiores juros do mercado (média anual de 307,6% em setembro). 

Uma das possibilidades é que os bancos possam cobrar tarifa do cliente que quiser manter determinado limite do cheque especial, abrindo espaço para a redução dos juros na operação. Atualmente, o mercado pode elevar ou reduzir limites conforme o perfil do cliente. É comum que clientes com histórico de adimplência e mais recursos na conta corrente tenham limites maiores no cheque especial, mas não utilizem os recursos que estão disponíveis. 

O presidente da Caixa, Pedro Guimarães, afirmou que a nova taxa “continua gerando resultado” e que existe mais espaço para novas reduções. Segundo ele, a iniciativa partiu do próprio banco e não houve ingerência do ministro da Economia, Paulo Guedes. Durante a gestão Dilma Rousseff, o governo usou as instituições públicas para forçar os concorrentes privados a mexerem nos seus juros.

“Essa taxa (os 4,99%) não parou por aqui. Continuamos estudando (novas reduções)”, disse Guimarães. A pedido do Estado, o professor de finanças Fábio Gallo, da FGV, calculou o custo de um saque de R$ 1 mil no cheque especial. Com uma taxa de 9,99% ao mês, esse custo depois de um ano chega a R$ 3,135,01. Com 4,99%, o correntista tem de pagar R$ 1.793,80 (diferença de R$ 1.341,21).

Autorregulamentação

Em reunião com senadores na semana passada, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, tratou do assunto. Segundo parlamentares, uma das avaliações é que, ao disponibilizar um limite ao cliente, o banco está sendo onerado, mesmo que esses recursos não sejam utilizados. Esse custo para a instituição financeira estaria sendo bancado pelos clientes que efetivamente utilizam o limite do cheque especial – geralmente, aqueles com menor poder aquisitivo.

Sob a presidência de Ilan Goldfajn, que esteve no comando do BC durante o governo de Michel Temer, a solução que surgiu foi a de uma autorregulação por parte dos bancos. Em julho do ano passado, por iniciativa da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), as instituições financeiras passaram a oferecer um parcelamento para dívidas superiores a R$ 200 no cheque especial. A expectativa era que essa migração para linhas mais baratas acelerasse a tendência de queda dos juros cobrados do consumidor. Em junho de 2018, porém, antes do início da nova dinâmica, a taxa do cheque especial estava em 304,9% ao ano – patamar abaixo do verificado atualmente.

Na avaliação do economista, Luis Miguel Santacreu, analista da Austin Rating, o corte anunciado pela Caixa é um sinal de que há muita gordura para queimar nessa modalidade. “Mesmo com a redução, a taxa continua alta, considerando o atual nível da taxa Selic (hoje em 5% ao ano)”, disse ele.

Questionado sobre a movimentação da Caixa, o Itaú Unibanco afirmou que suas taxas começam a partir de 2,6% ao mês e que os valores cobrados dependem de fatores que vão além da Selic, como inflação e custos operacionais. Já o Santander afirmou que sempre orienta os clientes para que a utilização do cheque especial seja apenas no curto prazo e em emergências. 

Lucro do banco cresce 66,7% e chega a R$ 8 bi 

A Caixa Econômica Federal registrou lucro líquido contábil de R$ 8 bilhões no terceiro trimestre deste ano, um salto de 66,7% ante o mesmo período do ano passado (R$ 4,813 bilhões). O impulso no terceiro trimestre veio de uma receita que não deve se repetir nos próximos meses. Trata-se de um efeito positivo de quase R$ 7 bilhões com a mudança de hedge em títulos emitidos no passado para injetar recursos no banco e compensar a estratégia de forte expansão de crédito adotada na gestão da ex-presidente Dilma Rousseff.

Na contramão dos concorrentes, que têm adotado medidas para enxugar os custos com redução de quadro e da rede física como resposta ao aumento da concorrência e ao processo de digitalização, a Caixa decidiu abrir mil novos pontos até março de 2020. Com o investimento, o objetivo é cobrir 100% dos 5.570 municípios brasileiros.

“Não vamos fechar agência para melhorar retorno. Não competimos com Bradesco e Itaú. Nosso foco é ser o banco dos brasileiros, da habitação”, disse o presidente da instituição, Pedro Guimarães.

Apesar disso, ele admitiu que o retorno (ROE, na sigla em inglês) do banco pode ser melhor. Depois de cair a 14,22% ao fim de setembro, ele vê o indicador na casa dos 15% como um bom número, mas não deu pistas de quando pretende entregá-lo neste patamar. Joga contra o retorno do banco, por exemplo, o reforço nas provisões para os chamados devedores duvidosos.

No terceiro trimestre, a Caixa voltou a crescer em crédito, com leve alta de 0,1% em relação aos três meses anteriores – encerrando com um saldo de R$ 683,2 bilhões em operações. Em um ano, porém, ainda amarga uma queda de 1,5%. / COLABORARAM RENÉE PEREIRA e TALITA NASCIMENTO 

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