Caixa tem perdas em aplicação do FGTS

Houve prejuízo em quase 70% dos investimentos na participação de empresas no ano passado, o que reduziu a rentabilidade esperada

Edna Simão / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

23 de agosto de 2011 | 00h00

A Caixa Econômica Federal perdeu dinheiro em quase 70% dos investimentos feitos com recursos do fundo de investimento do FGTS na compra de participação de empresas. Das 15 companhias em que o fundo adquiriu ações, dez tiveram prejuízo no ano passado. A perda foi de R$ 150,72 milhões, de acordo com relatório de gestão.

Esse resultado influenciou diretamente na redução da rentabilidade esperada para esses investimentos. A Caixa prometeu um retorno de pelo menos 6% ao ano mais a variação da Taxa Referencial (TR), o que daria no ano passado algo em torno de 6,66%. O resultado final, entretanto, ficou em 6,17%.

Para o superintendente nacional de Fundos de Investimentos Especiais da Caixa, Flávio Arakaki, esse desempenho "é natural e esperado" e o prejuízo deve ser revertido no longo prazo. "Essas companhias ainda não estão gerando receitas. Como não têm receitas, toda despesa impacta o valor patrimonial. Mas não quer dizer que isso é uma tendência."

Os investimentos do FI-FGTS em compra de participação de empresas estão concentrados no setor de energia elétrica e as obras escolhidas sofrem com atrasos no cronograma. Segundo Arakaki, assim que as companhias estiverem atuando comercialmente e tiverem suas ações cotadas em bolsa de valores, haverá um impacto favorável no patrimônio, revertendo a "perda" verificada no ano passado.

Rentabilidade. O presidente da Associação dos Analistas e Profissionais de Investimento do Mercado de São Paulo (Apimec-SP), Reginaldo Alexandre, ressaltou que o retorno apurado pelo fundo no ano passado ficou bem abaixo das melhores oportunidades de investimento em operações de infraestrutura. Erivelto Rodrigues, da Austin Rating, concorda. Na avaliação dele, os fundos voltados para o setor tiveram taxa média líquida de rentabilidade de 8% em 2010. "O retorno deveria ser maior para compensar o risco", disse Rodrigues.

A rentabilidade do FI-FGTS no ano passado foi garantida graças ao investimento de R$ 6,7 bilhões em debêntures do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), segundo avaliaram analistas de mercado ouvidos pelo Estado. A Caixa, no entanto, não informou qual foi o retorno recebido pelo dinheiro aplicado nos papéis do banco de fomento.

Obras atrasadas. O professor do Ibmec Gilberto Braga disse que o prejuízo do FI-FGTS é uma "fotografia" dos negócios em 31 de dezembro de 2010. "Se fosse liquidar em condições de mercado, o fundo receberia um valor menor que o investimento realizado. Isso ainda não quer dizer uma perda porque não houve liquidação e o investimento pode se valorizar com o tempo."

Segundo ele, o desempenho de 2010 está diretamente relacionado a atrasos nas obras das empresas nas quais o fundo detém participações. "Se o calendário tivesse sido cumprido, a meta de rentabilidade teria sido atingida com facilidade."

De acordo com a demonstração financeira de 2010 do fundo, várias obras estão descumprindo o cronograma de entrega, causando elevação de custos e consequente piora dos resultados. É o caso das hidrelétricas de Lavrinhas e Queluz, em São Paulo.

Em Lavrinhas, a previsão, em 2009, era de que o empreendimento estivesse funcionando em agosto de 2010. No ano passado, essa estimativa passou para março de 2011. Levantamento da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) mostra que a nova data prevista é setembro.

No caso de Queluz, em 2009 a previsão era de que a usina entraria em operação em abril de 2010. A data foi prorrogada para março deste ano. Dados da Aneel já apontam que o empreendimento deve operar comercialmente apenas em setembro.

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