Calçadistas diversificam produtos para ganhar mercado

Indústria tenta alternativa para compensar as perdas causadas pela valorização do real ante o dólar

José Henrique Lopes, de O Estado de S. Paulo,

16 de janeiro de 2008 | 17h50

Depois do Skatenis, o calçado com rodinhas que virou mania no ano passado, as crianças brasileiras ganharam uma nova forma de, literalmente, brincar com seu tênis. Com um sistema de molas e amortecimento que, acoplado à sola, transforma o calçado em uma espécie de pula-pula, o Big Jump permite à criança andar saltando. A novidade promete fazer a alegria da criançada e causar apreensão aos pais. Essa é mais uma aposta no ramo dos calçados "dois em um", aqueles que também servem como brinquedo, a exemplo do próprio Skatenis e dos modelos com visual e luzes que imitam miniaturas de carros. "A idéia é ter algo com que a criança possa interagir. Vamos tirá-la da frente da televisão e incentivar a prática do exercício físico", explica Marlin Kohlrausch, presidente da Calçados Bibi, fabricante do Big Jump. Os produtos de maior valor agregado têm sido uma alternativa encontrada pelo setor calçadista do País para suprir perdas causadas pela valorização do real ante o dólar, que encarece o produto brasileiro no mercado internacional. O Big Jump, por exemplo, custa em média R$ 160. Com quase 8 mil empresas, 300 mil postos de trabalho gerados e uma produção de 800 milhões de pares em 2007, a indústria brasileira, a terceira maior do mundo, quer agora conquistar o consumidor interno e enviar ao exterior calçados que se destaquem pela qualidade e inovação, superando assim a concorrência do sudeste asiático, que vende calçados mais básicos a preços baixos. O desempenho do setor no acumulado de 2007 demonstra como, lá fora, o produto brasileiro ficou de fato mais caro. Dados da Associação Brasileira das Indústrias de Calçados (Abicalçados), baseados em números da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), confirmam que, embora a exportação tenha diminuído em números de pares na comparação com o ano anterior - 177 milhões contra 180,4 milhões -, a receita cresceu 2,6%. O salto em termos financeiros foi de US$ 1,86 bilhão para US$ 1,91 bilhão, pois o preço por unidade passou de US$ 10,33 para US$ 10,80.  Apesar dos ganhos maiores, custos de produção elevados estão reduzindo a margem de lucro dos empresários do setor. Não por acaso, números do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam um encolhimento do emprego de 8,7% em 12 meses. Novos mercados Os Estados Unidos, principal destino do calçado brasileiro no exterior, compraram menos em 2007. Foram 49 milhões de pares, redução de 25% se comparado a 2006, de acordo com a Abicalçados. Novos mercados, porém, têm absorvido o excedente da produção. O Reino Unido aumentou suas importações em 7%; a Argentina, em 21%; e a Itália, tradicional pólo calçadista mundial, em 33%. Dentro do País, as importações crescentes preocupam. Em 2007, 28,6 milhões de pares desembarcaram no Brasil, a maioria vinda da China. Trata-se de um crescimento de 54%. Calçados "verdes" Até quinta-feira, 1.100 empresas brasileiras estarão na Couromoda 2008, no Anhembi, em São Paulo, expondo criações que seguem esta mesma linha: investimento em inovação, design e tecnologia para enfrentar uma concorrência cada vez mais dura. Dentro da disputa para seduzir o consumidor, a preocupação com a questão climática e a preservação ambiental têm ocupado posições estratégicas. O argumento da sustentabilidade está forçando fabricantes a buscar matérias-primas e processos de produção menos nocivos à natureza. A Yellow Port, de Franca, importante pólo calçadista do interior paulista, mostrará na feira seus sapatos femininos feitos com couro de peixe. O material, retirado de tilápias cultivadas em cativeiro, passa por tratamento artesanal, o que eleva o preço final. Cada par custa R$ 90. Para Célio Caetano de Souza, diretor-geral e estilista da empresa, o produto brasileiro precisa ter seus diferenciais ressaltados. "Hoje, as pessoas querem comprar um conceito. De produtos que apelam apenas para os preços baixos, o mercado está cheio."

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