Call center brasileiro agora atende na Argentina

Por causa dos custos menores, empresas nacionais e estrangeiras que atuam no País instalam suas centrais de atendimento em Buenos Aires

GLAUBER GONÇALVES / RIO, ARIEL PALACIOS, CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES, O Estado de S.Paulo

02 de setembro de 2012 | 03h09

Num movimento semelhante ao da ida dos call centers americanos e europeus para a Índia, grupos brasileiros e estrangeiros que atuam no País estão contratando centrais na Argentina para fazer o teleatendimento de seus clientes em português. A lista das empresas que adotam essa estratégia já inclui de bandeira de cartão de crédito a companhias aéreas.

Segundo consultores, a estratégia tem o objetivo de reduzir custos ou buscar sinergias com a estrutura usada para atender outros países da América Latina. Para o consumidor brasileiro, o movimento, muitas vezes, é imperceptível. No Brasil, a ligação é feita para um número 0800 ou de código de área 11 (São Paulo) ou 21 (Rio).

Do outro lado da linha, porém, a chamada é atendida em Buenos Aires, muito possivelmente por profissionais brasileiros que vivem no país vizinho. Até mesmo companhias europeias, como a alemã Lufthansa, optaram por montar central de atendimento aos clientes brasileiros na capital argentina.

No caso da TAM, o passageiro que estiver em Nova York ou qualquer outro destino internacional e precise falar com a empresa não é atendido no Brasil, mas numa central argentina, onde, além do português, também se utilizam os idiomas inglês e alemão, entre outros.

"Quando se vai fazer uma operação offshore (fora do país), o maior objetivo é buscar um lugar em que você tenha carga tributária menor, melhor estabilidade da operação e cenário de custos mais baixos do que se tem no Brasil", disse o consultor Vladimir Valadares, da V2Consulting.

A Argentina, que era muito cara durante os tempos da conversibilidade econômica, quando um peso equivalia a um dólar, tornou-se um lugar atraente para as empresas de call centers após a crise de 2001-2002 e a abrupta desvalorização da moeda. Em sites de busca de empregos do país vizinho, é comum encontrar vagas para quem fala português.

Na semana passada, uma empresa recrutava 20 operadores de telemarketing de "origem brasileira ou com excelente domínio do português", para vender seguros de vida ao mercado brasileiro. Outra procurava um supervisor que dominasse a língua para um cliente do setor de "vendas massivas". A multinacional de call centers Atento selecionava falantes do português para dar suporte a clientes de uma fabricante de impressoras.

Os brasileiros que buscam uma vaga nesse setor geralmente foram a Buenos Aires para fazer algum curso universitário ou um mestrado.

Uma fonte ligada a uma das empresas especializadas diz que um problema com a mão de obra é que as pessoas não ficam muito tempo nesses empregos. No caso específico dos estudantes, por exemplo, eles somem em épocas de exame. "É difícil manter o mesmo plantel por longo tempo", explica.

Fronteiras. De acordo com o diretor executivo da Associação Brasileira das Relações Empresa Cliente (Abrarec), Stan Braz, empresas brasileiras já têm terceirizado serviços de call center também no Peru e na Colômbia. "Enquanto estamos preocupados com a segunda língua, que é o inglês, outros países, como Colômbia e Peru, já estão preocupados com a terceira, que é o português."

Apesar da escalada do custo argentino nos últimos três anos, período em que a inflação acumulada chega a 100%, um executivo do setor no país vizinho diz que contratar esse serviço lá ainda continua mais barato do que no Brasil. Embora não conte com um contrato específico com uma empresa brasileira, ele diz que está disputando três licitações para obter contratos com companhias do País.

"Isso modificou um pouco a procura dos serviços prestados na Argentina, já que alguns clientes optam por concentrar aqui o atendimento mais VIP, em vez do atendimento em massa", avaliou outra fonte ouvida pelo Estado em Buenos Aires.

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