Calor deixa videiras com 'stress' na França

Mesmo que os grandes produtores relutem em admitir, mudanças climáticas têm feito estragos em todas regiões de vinhedo do país

ULRICH FICHTNER, DER SPIEGEL , O Estado de S.Paulo

16 de novembro de 2014 | 02h04

À luz cálida dos candelabros no Château Ausone, Alan Vauthier muda de assunto e voa para séculos distantes em busca de histórias mais seguras, divagando sobre relatos das Guerras das Rosas e cavalos de corridas, tratores quebrados e grandes aventuras dos seus ancestrais na Argélia. Tendo como pano de fundo tapeçarias em seda e ouro, ele menciona o Cheval Blanc 47 que bebia outrora, procura desculpas para falar sobre lagostas e o início da televisão, e se queixa dos pedágios nas estradas francesas, dizendo que é mais barato voar com companhias aéreas econômicas - qualquer coisa para evitar falar sobre o principal assunto, sobre o qual ninguém quer falar.

"Não sou daqueles que negam a mudança climática", porém, na sua maneira elegante, é exatamente o que ele está fazendo. É tudo muito complexo, diz ele, um homem mais velho, usando camisa de manga curta e que, como vinicultor, conseguiu ocupar o 273.º lugar na lista dos franceses mais ricos. Vauthier diz que certamente não é um "bon problème", termo usado na região ao se referir à mudança climática. Mas admite que existe um "faux problème", que foi inventado. O aquecimento global não é na verdade tão desvantajoso, diz ele, pelo menos não em Bordeaux. E, certamente, não nas vinhas do seu Château, que tem permissão para usar a classificação Saint-Emilion Premier Grand Cru Classé "A" para seus vinhos.

Sete hectares de terra apenas são a fonte da sua fama. O vinhedo produz 12.000 garrafas de vinho ao ano e nas boas safras, cada uma dessas garrafas vale pelo menos 1.500 (US$ 1.910) em Tóquio, Hamburgo e Nova York, mesmo antes de o vinho envelhecer. A empresa, se é que podemos chamar o castelo assim, esteve nas mãos de apenas quatro famílias nos últimos 400 anos. A família Vauthier tem comandado os últimos dois séculos. Seu castelo está situado no alto de um platô rochoso tendo abaixo um cenário que parece uma pintura a óleo, com as fileiras de vinhas nas colinas se estendendo para o vale da Dordogne, pontuado com as silhuetas de torres de igrejas. Um local que Hugh Johnson certa vez ungiu como o papa das vinhas, caracterizado como "claramente o mais promissor de toda a região de Bordeaux". Se isso for verdade, então Vauthier controla o melhor vinhedo da França.

É muito provável que essa história remonte a dois mil anos. Numa conversa com Vauthier, ficou claro que alguém com tanto tempo nas costas não está a ponto de ser dissuadido por um pequeno revés da era atual. Por que uma pessoa cujo vinho o tornou milionário vai se queixar sobre algo tão incômodo como tempo e clima? Ele deve se preocupar com a possibilidade de uma iminente crise do vinho? "Desculpe-me, preciso trabalhar", disse ele enquanto passa pelo portão da adega onde barris de carvalho estão armazenados na eterna escuridão. Dez minutos depois, ele retorna, e nos convida para uma degustação.

Ele despeja um Ausone 2006 nas taças, um vinho escuro e denso como sangue, cujo preço no varejo é de 600 a garrafa, um vinho forte promissor e com notas nítidas do Cabernet Franc.

Condições extremas. À medida que ingere um gole e cospe, Vauthier, como se repentinamente tivesse mudado de ideia, diz que "as tempestades, talvez estejam cada vez piores". Ele não se esquece do mau tempo que se registrou em junho, quando uma tempestade de granizo veio do sudoeste e desabou sobre a faixa de 12.000 hectares de terra. "Isso jamais ocorreu antes. Em questão de minutos, cinco mil hectares de uvas Bordeaux da mais alta qualidade foram destruídas, literalmente ficaram despedaçadas. Talvez, meu senhor, esta seja a sua mudança climática", disse ele.

As condições climáticas extremas estão se tornando mais comuns em todas as regiões de vinhedos da França. Chuvas torrenciais e tempestades de granizo frequentemente ocorrem depois das ondas de calor no verão e períodos de seca. Os invernos e as temperaturas noturnas são tão amenos que as plantas nunca descansam. Poucos viticultores continuam a negar esse fenômeno tangível.

Por outro lado, não é fácil perceber que as últimas três décadas foram as mais quentes dos últimos 1.400 anos. É difícil compreender que a temperatura média anual aumentou um grau Celsius, que o Atlântico e o Mediterrâneo estão se aquecendo quase que imperceptivelmente, e que os dias estão ficando ligeiramente mais quentes. Os seres humanos não possuem sensores naturais para detectar tais mudanças, mas as videiras sim. As vinhas estão sofrendo de estresse, dizem alguns vinicultores.

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