Calote em alta limita nova queda dos juros, diz Itaú

Lucro líquido do maior banco privado do País recua 2,9% no 1º trimestre, para R$ 3,4 bilhões, por causa da inadimplência

LEANDRO MODÉ, O Estado de S.Paulo

25 de abril de 2012 | 03h11

O inesperado aumento da inadimplência, que reduziu o lucro do Itaú no primeiro trimestre do ano em 2,9%, limita o espaço para o maior banco privado do País diminuir novamente as taxas de juros cobradas de pessoas físicas e empresas. Na semana passada, a instituição cortou taxas em várias modalidades de crédito.

"Gostaríamos de poder reduzir mais (os juros), mas identificamos uma alta da inadimplência", disse o diretor corporativo de controladoria do Itaú, Rogério Calderón, durante entrevista em que comentou os resultados do banco nos três primeiros meses de 2012 - lucro de R$ 3,4 bilhões, 2,9% inferior ao de igual período do ano passado.

A frase de Calderón é muitíssimo parecida com a declaração do presidente do banco, Roberto Setubal, ao Estado na última quarta-feira, dia em que o corte dos juros foi anunciado.

"Gostaríamos de poder reduzir mais as taxas, mas neste momento identificamos um cenário de inadimplência mais elevado do que o normal. É desejável diminuí-la para que tenhamos juros mais baixos", afirmou.

O índice de inadimplência na carteira de crédito do Itaú alcançou 5,1% ao final do primeiro trimestre, ante 4,9% no quarto trimestre do ano passado e 4,2% nos três primeiros meses de 2011. Esses números englobam os atrasos acima de 90 dias.

Outro indicador, que mede os atrasos entre 15 e 90 dias, subiu de 4,4% em dezembro para 4,8% em março. Significa dizer que a tendência para o índice ainda é de alta. "Esperamos que a inadimplência se estabilize apenas no fim do ano", disse Calderón.

O executivo reconheceu que o próprio banco tem tido dificuldades para entender a alta do calote nos últimos trimestres, uma vez que o ambiente macroeconômico brasileiro é marcado por taxa de desemprego historicamente baixa e renda do trabalhador em expansão. "Nos fazemos essa pergunta (sobre o porquê da inadimplência em expansão) continuadamente", disse.

Em relatório divulgado nesta semana, a Votorantim Corretora cita declarações do economista Luiz Rabi, da Serasa Experian, para quem "a inadimplência (recente) pode ser explicada pelo excesso de endividamento das famílias e o crescimento exagerado das concessões de crédito entre 2009 e 2010, particularmente nas operações de financiamento de veículos".

A estratégia do Itaú, segundo explicação de Calderón, bate com a análise de Rabi. "Passamos a ser mais cautelosos nas concessões de crédito entre o fim de 2010 e o início de 2011", disse o executivo. "O problema é que isso só se reflete na melhora da nossa carteira mais à frente", argumentou.

No período descrito por Calderón, a emissão de cartões de crédito para não correntistas caiu de uma aprovação em cada 3 solicitações para uma em cinco. O banco também segurou os financiamentos para a compra de automóveis. "Precisamos evitar o superendividamento."

Sem efeito na margem. Apesar do cenário mais difícil, o Itaú mantém a estimativa de expandir as operações de crédito entre 14% e 17% neste ano. "Acreditamos em um desempenho bem parecido para pessoas físicas e jurídicas", disse Calderón.

Assim como Bradesco e Banco do Brasil, o Itaú avalia que a redução dos juros cobrados nos financiamentos não terá efeito negativo sobre as margens de lucro. O argumento é semelhante ao dos concorrentes. "O aumento do volume de empréstimos vai compensar a redução dos juros", afirmou o diretor executivo do Itaú.

As ações do banco perderam 0,72% na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa) ontem, enquanto o principal termômetro da bolsa (Ibovespa) subiu 0,70%.

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