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Calote pode ultrapassar os US$ 600 bilhões

Para especialista, aumento dos créditos irrecuperáveis deve requerer nova onda de recapitalização dos bancos

PEQUIM, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2011 | 03h07

O tamanho dos créditos podres que os bancos chineses terão dificuldades para recuperar deverá ficar clara ao longo dos próximos dois anos, com o vencimento de grande parte dos financiamentos. Mas não há dúvida de que a recente explosão de empréstimos gerou um problema de dimensões "significativas", avalia Fraser Howie, coautor de Red Capitalism - The Fragile Financial Foundation of China's Extraordinary Rise (Capitalismo Vermelho - A Frágil Fundação Financeira da Extraordinária Emergência da China).

Segundo ele, o próprio governo chinês já deu indicações de que o calote poderá alcançar algo entre 3 trilhões e 4 trilhões de yuans (US$ 476 bilhões a US$ 635 bilhões). "É uma enorme quantia, que vai requerer uma nova onda de recapitalização dos bancos", disse Howie ao Estado, por telefone.

O aumento dos créditos irrecuperáveis terá como efeito a redução no ritmo de crescimento da China, já que haverá menos recursos disponíveis para financiar um boom de investimentos semelhante ao experimentado a partir do fim de 2008. "O estímulo impulsionou o crescimento no curto prazo, mas criou problemas que vão conter a expansão no longo prazo", avaliou.

Em sua opinião, o ritmo de expansão chinês poderá desacelerar para algo entre 6% e 7%, o que ele não considera "desastroso". A grande questão é se o país terá condições políticas de gerenciar um ritmo de expansão bem mais baixo que os 9% a 10% que se tornaram regra no país. "A China está viciada em crescimento elevado", observou.

O risco será a repetição da mesma receita, com injeção de crédito para financiar nova onda de investimentos. "O custo de manter crescimento elevado dentro desse modelo será cada vez mais elevado", disse Howie. Além da deterioração dos balanços bancários, o sistema financeiro enfrenta o problema da alta do volume de crédito concedido fora de canais tradicionais, que escapam das cotas de empréstimo fixado pelo banco central e estão sujeitos a frágil regulamentação.

Com a enorme liquidez da economia e forte demanda por crédito, muitos bancos começaram a fazer operações de financiamento disfarçadas, que não entram em seus balanços como empréstimos. Também houve uma multiplicação de empresas fiduciárias que concedem crédito fora do sistema bancário. Segundo estimativa de vários analistas, esse universo soma 4 trilhões de yuans (US$ 635 bilhões).

Há um outro mercado de crédito "subterrâneo", no qual agiotas conhecidos como "tubarões" emprestam a taxas elevadas para os que estão desesperados em busca de capital. O que alimenta esse mercado é a diferença entre a remuneração dos depósitos - 3,5% ao ano - e os 6,56% ao ano que os bancos cobram para conceder empréstimos. Com inflação na casa dos 6%, os depositantes perdem dinheiro se o deixam em suas contas bancárias e alguns preferem entregá-lo aos agiotas. / C.T.

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