Câmara Árabe vê futuro de cooperação mútua e inovação

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Câmara Árabe vê futuro de cooperação mútua e inovação

Fórum Econômico apontou caminhos e soluções para a ampliação do comércio bilateral e dos investimentos

Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Media Lab Estadão
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03 de novembro de 2020 | 12h09

As transformações de um mundo cada vez mais interconectado foram aceleradas pela pandemia global do novo coronavírus e vão exigir de governos, entidades e empresas ações de cooperação mútua e de compartilhamento de informações sem precedentes na história. E o papel das câmaras de comércio bilaterais será cada vez mais importante neste novo contexto. Essa foi uma das conclusões do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes, evento patrocinado pela Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB) e realizado entre os dias 19 e 22 de outubro em um inovador formato virtual.

Em seu discurso de abertura do encontro, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que “a relação entre o Brasil e o mundo árabe se encontra em seu melhor momento histórico”. A estatística corrobora a declaração. Considerados como um bloco, os 22 países da Liga Árabe são hoje o terceiro destino das exportações do Brasil e cerca de 30 empresas brasileiras já possuem escritórios comerciais ou unidades de produção na região.

O presidente da República ainda destacou as oportunidades que se estendem para além das trocas comerciais ao lembrar a intenção da Arábia Saudita de aportar até US$ 10 bilhões em projetos de infraestrutura no Brasil por meio de seu fundo soberano. De acordo com o secretário especial de Comércio Exterior brasileiro, Roberto Fendt, esses aportes devem “ajudar a recuperar a deficiência em infraestrutura que compromete a competitividade da economia brasileira e encarece o fornecimento de alimentos aos países árabes”.

Em sua participação, o secretário-geral da Liga Árabe, Ahmed Abou Al Gheit, sugeriu que os participantes estudem as fragilidades do comércio internacional expostas pela pandemia. “Há oportunidades para as economias emergentes aumentarem sua vitalidade e presença no cenário global, especialmente para sociedades jovens, com potencial humano e capital, como é o caso do mundo árabe e do Brasil.”

O presidente da CCAB, Rubens Hannun, acredita que já estão fundamentados os alicerces que vão favorecer novos fluxos de capital entre as duas pontas. Ele vê oportunidades em várias áreas além do agronegócio, como os setores de energia, petróleo e tecnologia. Para ajudar a construir esse cenário, a Câmara investe na internacionalização. A entidade mantém um escritório em Dubai desde o ano passado e anunciou durante o Fórum a abertura de outros dois: em Riad e no Cairo.

Representantes dos países árabes apontaram outras potencialidades, como o uso de zonas em terminais portuários para que os produtos brasileiros acessem com maior agilidade mercados da África e da Ásia. “Somos uma porta de entrada para a região”, afirmou Ahmed Ali Al Sayegh, ministro de Estado do Ministério de Relações Exteriores e Cooperação Internacional dos Emirados Árabes Unidos. “Estamos prestes a determinar quais são os portos principais que podem ser aproveitados nessa área”, disse o secretário-geral da União das Câmaras Árabes, Khaled Hanafy.

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Relação entre o Brasil e o mundo árabe se encontra em seu melhor momento
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Jair Bolsonaro, presidente da República

Blockchain integrará cadeias

A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira (CCAB) lançou durante o Fórum Econômico a plataforma de negócios Ellos, que utiliza a tecnologia do blockchain para integrar eletronicamente todas as pontas da cadeia comercial de transações entre os parceiros brasileiros e árabes. O objetivo é eliminar a burocracia, reduzir custos e agilizar os processos.

Além do registro criptografado de informações consideradas essenciais e previamente acordadas sobre fluxos de exportação, a plataforma vai permitir o compartilhamento de dados úteis a todos os elos, oferecendo funcionalidades como a prospecção de demandas, ofertas de produtos e serviços, agendamento de reuniões e visitas virtuais e divulgação de estudos personalizados e notícias sobre os mercados envolvidos, entre outras possibilidades.

O primeiro parceiro do Brasil na nova plataforma será a Jordânia, país que vinha desde o ano passado trabalhando em conjunto com a Câmara em projetos digitais para desburocratizar as transações entre os países.

Segundo o secretário-geral da Câmara Árabe, Tamer Mansour, a ocorrência da pandemia de coronavírus acabou por acelerar os trabalhos para a criação de uma plataforma completa. “Nosso trabalho é para o consumidor final. Queremos garantir para a comunidade que tudo o que se compra do Brasil tenha transparência, qualidade, garantia e Halal, caso necessário.”

O acordo inicial de cooperação foi assinado com entidades do segmento do agronegócio como as associações de Proteína Animal (ABPA) e das Indústrias Exportadoras de Carnes Industrializadas (Abiec), além das certificadoras Fambras Halal e Cdial Halal, e das companhias de transporte e logística Maersk e Tradelens.

O próximo passo da plataforma será a integração total das cadeias, incluindo a rastreabilidade, desde a produção e a distribuição até a entrega do produto ao destino final.

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Há oportunidades para as economias emergentes aumentarem sua vitalidade e presença
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Ahmed Abou Al Gheit, secretário-geral da Liga Árabe

Segurança alimentar tem reforço de startups do agro

Desenvolvimento das chamadas agtechs pode ajudar a combater vulnerabilidades da cadeia de abastecimento

Ao mesmo tempo que a pandemia do novo coronavírus expôs os temores sobre deficiência da cadeia produtiva global de alimentos, despertou a busca por soluções comerciais e tecnológicas que consigam mitigar os efeitos dessa crise e de outras que posam ameaçar o futuro. Por isso, um dos painéis de discussão mais importantes do Fórum Econômico Brasil & Países Árabes abordou especificamente o tema da segurança alimentar.

Na abertura do painel, o vice-presidente de Comércio Exterior da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira, Ruy Carlos Cury, dimensionou a importância brasileira no fornecimento de alimento para os 420 milhões de pessoas dos países da Liga Árabe. “O Brasil fornece 50% dos alimentos consumidos no bloco, sendo que para alguns países este porcentual chega a 80%”, disse.

A garantia desse abastecimento durante a pandemia foi primordial para o governo brasileiro, disse a ministra da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa), Tereza Cristina. “O Brasil demonstrou sua capacidade de cumprir seus compromissos internacionais mesmo em momento de crise, consolidando sua posição global de fornecedor de alimentos a preços competitivos com altos padrões técnicos, sanitários e fitossanitários”, afirmou.

A ministra de Estado de Segurança Alimentar dos Emirados Árabes Unidos (EAU), Mariam bint Mohammed Al Mheiri, trouxe à tona a interdependência entre as nações. “As importações do Brasil ajudam a decolagem do nosso país, ao mesmo tempo que as nossas exportações de fertilizantes dão apoio ao setor agrícola brasileiro.” Neste contexto, Mariam salientou a parceria firmada no ano passado entre Embrapa e autoridades dos EAU para um programa de pesquisa conjunto no segmento da pecuária.

Ela ressaltou ainda a necessidade de soluções disruptivas para aumentar a produtividade no campo, garantir a segurança alimentar e atingir um dos 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável da Agenda 2030 da ONU, que é o de acabar com a fome no mundo. “O Brasil e os Emirados Árabes têm a chance de trabalhar juntos e começar uma mudança de paradigma, que tenha as agtechs (nome dado às startups do agro) no seu cerne”, disse a ministra, que tem como meta transformar seu país num hub mundial de inovação. “Precisamos criar incubadoras de negócios para que as agtechs possam se enraizar, crescer e depois florescer”, defendeu.

Brasil Halal

O relacionamento comercial entre Brasil e Liga Árabe vem de décadas. Em 1974, os brasileiros enviaram a primeira remessa de carne de frango para o Kuwait. De lá para cá, o comércio entre os países só aumentou. No ano passado, o Brasil produziu 13,2 milhões de toneladas de carne de frango, sendo que 4,2 milhões toneladas, o equivalente a US$ 6,9 bilhões, foram para o mundo árabe. “Hoje, o Brasil é o maior produtor e exportador de carne de frango Halal (preparada segundo os preceitos do islamismo) do mundo, mais do qualquer país árabe individualizado”,  revelou o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin.

A Câmara de Comércio Árabe-Brasileira apresentou no Fórum um projeto para tornar a marca Halal Brasil uma referência mundial. “Na pandemia, a certificação Halal mudou de patamar. Ela está sendo muito mais importante não só para os árabes, mas também para aqueles que não seguem a religião muçulmana, porque traz uma série de garantias quanto à forma de produção”, afirmou o presidente da Câmara, Rubens Hannun.

No açúcar, a parceria entre Brasil e Liga Árabe também é estratégica. “Nos últimos cinco anos, o bloco dos 22 países árabes foi o principal destino do nosso açúcar. Eles receberam 40% da nossa produção anual”, afirmou o membro do comitê executivo do Grupo Tereos Jacyr Costa Filho.

A busca de alguns países pela autossuficiência, estratégia acelerada pela crise da covid-19, traz riscos para as populações locais, alertou o diretor do Departamento de Promoção do Agronegócio do Ministério das Relações Exteriores, Alexandre Ghisleni. “Se nós partíssemos do pressuposto de que deveríamos comprar alimentos de um raio não superior a 100 km, isso chegaria à situação em que apenas 27% da população teria acesso ao trigo”, afirmou.

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Brasil demonstrou capacidade de cumprir compromissos mesmo em momento de crise
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Tereza Cristina, Ministra da Agricultura

Estilo Halal e boa governança

A preocupação global com questões éticas e sustentáveis, como o aproveitamento racional dos recursos naturais e o respeito aos direitos humanos, tem ganhado cada vez maior relevância no mundo dos negócios. O olhar para essas questões chegou a ponto de se tornar fator decisório para a escolha do local de instalação de uma unidade fabril, por exemplo, ou de aportes num projeto de investimento. É a emergência da governança ambiental, social e corporativa (ESG, na sigla em inglês).

Segundo o secretário-geral do Pacto Global das Nações Unidas, Carlos Pereira, que mediou o painel sobre ESG no Fórum Econômico, estamos na transição da era dos shareholders (acionistas) para a dos stakeholders (partes interessadas). “Sustentabilidade é imperativo até nos grandes acordos comerciais”, afirmou, ao lembrar das atuais discussões sobre o acordo Mercosul-UE.

O vice-presidente de Sustentabilidade do Al Baraka Bank (do Bahrein), Ali Adnan Ibrahim, disse ver uma relação direta entre as atuais políticas de “minimizar o dano e maximizar o benefício” das corporações globais com o estilo de vida Halal, característico da religião islâmica. “Andam de mãos dadas. Qualquer coisa danosa para a natureza é danosa para os seres humanos”, afirmou.

O gerente do Halal Trade and Marketing Centre (dos Emirados Árabes), Tomas Guerrero Blanco, concorda com Ibrahim. “A indústria Halal pode alavancar a produção sustentável. O conceito está associado à sustentabilidade e à qualidade e as empresas certificadas têm melhor desempenho”, afirmou.

Mesmo no mercado de capitais, as práticas responsáveis se tornaram balizadores de decisões de investimento. O head de Dívida e Mercados para a América Latina da KPMG, Samy Poudlubny, afirmou que projetos de bonds sustentáveis têm avançado e que os países buscam adaptar suas legislações para se equiparar aos padrões internacionais. As taxas pagas são mais baixas que as dos bônus tradicionais, comparou.

O head de Relações Institucionais da Natura, Paulo Dallari, lembrou que a opção sustentável da empresa está em seu DNA e que a fabricante de cosméticos adotou seu “Compromisso com a Vida” pautado nos pilares de combate à crise climática, inclusão social e economia circular.

As câmaras árabes de comércio também têm trabalhado no sentido de servir como pontos de orientação de ESG com seus associados. O diretor responsável pelos escritórios internacionais da Dubai Chamber, Omar Khan, afirmou que seu centro já certifica empresas com selos e que seus projetos estão alinhados com a adoção de energias renováveis.

O presidente da Câmara de Comércio de Trípoli (no Líbano), Simon Bachawati, afirmou que seu escritório se tornou um hub para incubar empresas com princípios e projetos de desenvolvimento urbano. A Câmara Árabe, por sua vez, assinou durante o evento sua carta de adesão ao Pacto Global da ONU, iniciativa criada para disseminar as boas práticas empresariais.

Evento virtual fortaleceu parceria e gerou entusiasmo

Qual balanço final do Fórum?

Rubens Hannun: Foi além das expectativas. Avançamos na discussão de temas atuais e estratégicos das relações Brasil-Países Árabes nos âmbitos institucional, empresarial e comercial. A repercussão também surpreendeu. A audiência online chegou a 10 mil pessoas, em 61 países. As relações entre árabes e brasileiros vão se fortalecer e já se vê isso no entusiasmo dos participantes.

O formato virtual foi aprovado?

RH: A complexidade do momento nos foi imposta (a pandemia de covid-19), mas nós também nos impusemos pela realização do evento fora do ambiente físico. Além do seminário, a área dos expositores recebeu 2,3 mil visitantes, que puderam pegar materiais, conversar com as empresas e realizar reuniões, inclusive com embaixadores. Houve uma agregação de valor que talvez não tivéssemos conseguido no ambiente apenas físico.

Quais acordos assinados se destacam?

RH: Todos foram importantes, tanto os institucionais como a Casa Árabe, o Halal Brasil e a adesão ao Pacto Global, como os de negócios, como a parceria com a Apex e com os parceiros do Egito. Mas acho que a plataforma Ellos Blockchain é algo maravilhoso, que vai agilizar os negócios, acabar com a burocracia e trazer uma segurança fantástica. Todos os projetos têm um grande efeito no curto prazo, mas esse portal de negócios tem um potencial de futuro enorme.

Que mensagem o Fórum deixa para o futuro?

RH: Quando você sabe onde quer chegar, os parceiros vêm até você, se agregam e percorrem juntos a jornada. Isto está ocorrendo entre árabes e brasileiros, o Fórum reforçou e tende a incorporar também os latino americanos.

 

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