Câmbio afeta a inflação e reduz o poder de compra

Um número maior de produtos fabricados no País conta com insumos importados e amplia o efeito da alta do dólar

Alexa Salomão, O Estado de S.Paulo

08 de agosto de 2015 | 17h31

A perda de riqueza medida pelo Produto Interno Bruto (PIB) não é meramente contábil. Acontece na vida real. Está nos preços dos produtos. “O pior efeito da valorização do dólar aparece na inflação”, diz Armando Castelar Pinheiro, coordenador de Economia Aplicada do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas (IBRE/FGV). 

A alta da moeda americana não afeta apenas preços de serviços e mimos internacionais, como viagens à Disney, vinhos franceses e chocolates suíços. Nos últimos anos, uma ampla gama de produtos fabricados no País passou a depender, em maior ou menor grau, de insumos importados, segundo levantamentos feitos pela Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex) junto com a Confederação Nacional da Indústria (CNI). 

No primeiro trimestre de 2010, 16 em cada 100 produtos vendidos no Brasil eram importados (total ou parcialmente). A relação passou de 23 para cada 100 no primeiro trimestre deste ano (último dado disponível). Até a agricultura é impactada. Quase metade dos insumos utilizados em produtos químicos, que incluem fertilizantes e defensivos, vem de fora do País. Não tem jeito: a valorização do dólar é repassada em algum momento. “Como a economia está em recessão e a demanda em queda, é difícil repassar todo o aumento”, diz Marcelo Azevedo, economista da CNI. “Mas eles ocorrem, mesmo em menor grau, fazendo com que o consumidor perca, ao menos em parte, o poder de compra.”

Celulares. O estado de ânimo do mercado em relação aos efeitos do dólar sobre os preços pode ser medido pelo comportamento de consumidores e de lojistas no mercado de celulares mais sofisticados, os smartphones. Segundo Gisela Pougy, diretora da GfK, uma das maiores empresas de pesquisa de mercado do mundo, os celulares estão entre os aparelhos que resistem à crise no Brasil. Ainda atraem consumidores. Ocorre que celulares também estão entre os produtos com os maiores índice de componentes importados. Para aliviar o impacto do dólar, as lojas não estão repassando todo o efeito cambial. Resultado: desde junho do ano passado, o preço médio no segmento registrou alta de 19%, mas, ao mesmo tempo, o faturamento do varejo com os smartphones caiu 5%. “O varejo não ganha tudo que poderia, mas não perde o cliente, que por sua vez, consegue um produto com preço melhor”, diz Gisela. 

Castelar, porém, vê um lado positivo na alta do dólar: “Pode ser chato descobrir que não se era tão rico quanto se pensava em dólar, mas a valorização do real era artificial. Agora, a realidade bateu à porta e vai ajustar a economia.” 

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