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Câmbio automático

O real continuará a se desvalorizar ao longo de 2020, para R$ 4,57

Paulo Leme*, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2020 | 05h00

O comportamento da taxa de câmbio é um assunto técnico, mas que desperta acaloradas discussões políticas. O real já se desvalorizou 11% em 2020 e 19% nos últimos 12 meses. Como temos um regime de câmbio flutuante, este é o resultado do mercado automaticamente precificando a moeda de acordo com as mudanças dos fundamentos econômicos no Brasil e no mundo. 

Para entender a desvalorização do real, o primeiro passo é determinar qual é o seu preço justo. Hoje, o real está subvalorizado entre 12% a 17%. Portanto, não temos um problema de competitividade: o real está barato e a taxa de câmbio deveria estar entre R$3,80 e R$4,00.

A diferença entre as taxas de inflação entre o Brasil e os EUA (apenas 2%) também não é a causa da desvalorização do real. 

O segundo passo é analisar o comportamento do balanço de pagamentos. Nos últimos três anos, o déficit em corrente aumentou em 2 pontos porcentuais do PIB, chegando a 2,85% em janeiro de 2020. Metade deste aumento é devido à queda da taxa de poupança e a outra metade reflete um aumento da taxa de investimento. Por sua vez, o crescimento do investimento e do consumo privado explicam porque as importações subiram e o superávit comercial caiu. Houve uma pequena queda nas exportações, o que é devido a uma pequena queda no volume, mas não nos preços, já que o País não sofreu uma deterioração dos termos de troca. Nos últimos meses, o ritmo do aumento do déficit em conta corrente diminuiu. Portanto, já faz tempo que a taxa de câmbio reflete a deterioração da conta corrente. 

Dado que a moeda estrangeira é um ativo financeiro, o mecanismo de transmissão dos juros ao câmbio também se dá através da conta financeira do balanço de pagamentos. Portanto, o terceiro passo é analisar o efeito da política monetária nos fluxos de capitais. Este exercício revela que, desde 2019, a principal causa da desvalorização do real é o corte da taxa Selic de 14,25% a 4,25%. A desvalorização do real se deve à redução de 8 pontos porcentuais na diferença entre a Selic e a Fed Funds rate americana.

A redução na diferença entre as taxas de juros interna diminuiu a taxa de rolagem dos vencimentos da dívida externa das empresas brasileiras abaixo de 50% em 2020, porque agora é relativamente mais barato obter financiamento em reais e no mercado interno. Ou seja, as empresas estão diminuindo o seu financiamento em dólares e aumentando a sua dívida em reais, reduzindo sua exposição cambial. Além disso, houve uma saída líquida dos investimentos estrangeiros de portfólio, principalmente o de ações. Na bolsa, o investidor estrangeiro saiu porque as baixas taxas de crescimento do País e do lucro das empresas limitam o aumento do preço das ações.

O Copom acertou ao reduzir a Selic. No entanto, umas das consequências foi reduzir o superávit da conta financeira e desvalorizar o real. Dado que é provável que o Copom seguirá cortando a Selic, o real continuará a se desvalorizar ao longo de 2020. Para os próximos 12 meses, o mercado futuro de câmbio precifica que o real irá se desvalorizar 2,2%, para R$4,57, que é aproximadamente a diferença esperada entre a Selic e a Fed Funds. É provável que o Fed irá cortar a taxa de juros no dia 18 de março. 

Não há nada de errado com o câmbio. Ele vem cumprindo a sua missão: responder automaticamente às mudanças nas variáveis econômicas (internas e externas). O Bacen pode ocasionalmente intervir no mercado de câmbio spot, vendendo reservas internacionais (US$ 359 bilhões), ou no mercado futuro, vendendo swap cambial.

O Bacen só deve intervir no mercado em casos extremos (falta de liquidez ou volatilidade excessiva). E foi exatamente isto que o Bacen fez esta semana. O mercado financeiro global reduziu bruscamente suas posições de risco: o investidor procurou o dólar e vendeu as moedas emergentes que, incluindo o real, se desvalorizaram. 

Caso alguém prefira um real forte, a receita é simples: (a) implementar reformas que aumentem a competitividade e reduza os obstáculos às exportações (infraestrutura, impostos, encargos trabalhistas); (b) adotar um programa que estimule produtividade, investimento e crescimento; (c) desenvolver um arcabouço econômico e jurídico para atrair investimento estrangeiro para o setor de infraestrutura; (d) executar o programa de privatizações, contando com um elevado grau de participação de investimento estrangeiro.

Dado que o câmbio também reage às notícias e expectativas, o governo deveria zelar pela imagem do País e das suas instituições, melhorando as manchetes políticas e ambientais na mídia. 

* PROFESSOR DE FINANÇAS  NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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