Câmbio e balança da indústria atrapalham acordo UE-Mercosul

Em Bruxelas, Antonio Patriota diz que acordo de livre comércio pode sair ainda em 2011, mas real valorizado é problema

Andrei Netto, O Estado de S.Paulo

27 de janeiro de 2011 | 00h00

A guerra cambial e a supervalorização de moedas como o real estão se tornando um problema para o Brasil também em negociações de acordos de livre comércio. A afirmação foi feita ontem, em Bruxelas, pelo ministro das Relações Exteriores, Antonio Patriota, que discutia na capital belga a viabilidade do acordo União Europeia-Mercosul. Para o chanceler, o aumento das importações de bens industriais europeus também terá de ser considerado antes de um acordo, que poderia ser assinado ainda em 2011.

Patriota fez as referências em relação às dificuldades com o câmbio e com a balança comercial do setor industrial ao presidente do Conselho Europeu, Herman Van Rompuy, com quem discutiu na manhã de ontem o atual estágio das negociações entre os dois blocos. "Encaramos esse exercício (a negociação) com seriedade, mas não sem incluir algumas considerações sobre a pressão que representa a valorização do real para o nosso setor exportador e as dificuldades do nosso setor industrial", disse ao Estado.

Segundo o ministro, o novo cenário cambial gera impactos nas negociações comerciais, e prova disso seria o resultado da balança comercial. Em 2010, o Brasil exportou US$ 200 bilhões e teve superávit de US$ 20 bilhões. No setor industrial, porém, o déficit superou US$ 30 bilhões - grande parte pelo desequilíbrio das trocas em benefício da Europa.

Apesar da questão cambial, Patriota saiu otimista das reuniões com Van Rompuy e com a alta representante de Relações Exteriores da UE, Catherine Ashton. Ambos teriam reiterado seus empenhos para que as negociações resultem em acordo. Em 17 e 18 de março, uma rodada de discussões será realizada entre diplomatas dos dois blocos, quando serão apresentadas as "ofertas melhoradas" de ambos os lados.

Apesar dos discursos de Rompuy e Ashton, em Bruxelas os sinais sobre o acordo de livre comércio UE-Mercosul são ambíguos. Ontem, deputados da Comissão de Agricultura do Parlamento Europeu exortaram Bruxelas a congelar as negociações com o Brasil, a Argentina e seus parceiros latino-americanos. Por 35 votos a favor, um contra e duas abstenções, o texto critica a Comissão Europeia por ter reaberto em 2010 os debates para um acordo de livre comércio.

Além do texto do Parlamento, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, reafirmou nesta semana que o momento não é propício para concessões no setor agrícola - uma das chaves para o acordo UE-Mercosul. "Os agricultores franceses não têm de se submeter às imposições comerciais", afirmou Sarkozy.

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