Klabin
Espessante da Klabin desenvolvida de celulose Klabin

Câmbio e pandemia fazem empresas investirem em projetos made in Brazil

Objetivo é tentar fugir das importações, que estão mais caras com a valorização do dólar, da dependência de poucos fabricantes globais e da escassez de produtos

Cleide Silva e Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 05h00

Duas explosões simultâneas, a do câmbio e a do coronavírus, estão levando empresas a ampliar o processo de nacionalização de matérias-primas e componentes. A intenção é escapar das importações que estão mais caras diante da valorização de 25% do dólar desde o início da pandemia, da dependência de poucos fabricantes globais e da escassez de produtos de combate à covid-19 por causa da alta demanda mundial.

Diante da falta generalizada de álcool gel, usado para evitar a disseminação da covid-19, a Klabin, fabricante de papéis para embalagens, desenvolveu um espessante em substituição ao carbopol, matéria-prima derivada do petróleo que transforma o álcool líquido em gel. O produto era 100% importado da China e, além da escassez, teve significativo reajuste de preço.

O novo produto é extraído da madeira e foi desenvolvido em apenas duas semanas numa parceria da Klabin com o Instituto Senai de Inovação e com a indústria de cosméticos Apoteka, que produzirá o álcool gel em sua fábrica de Leme (SP).

“Conseguimos, num momento crítico para nós e para o mundo, um substituto do carbopol derivado da microfibra celulósica extraída de nossas florestas o que é muito bom em termos de sustentabilidade pois é um produto renovável”, afirma Carlos Augusto do Amaral Santos, gerente corporativo de P&D da Klabin. A empresa já entrou com pedido de patente.

O novo espessante também tem outras aplicações, como em fórmulas de cosméticos e na própria produção de papel. “Isso abre uma possibilidade grande de mercado interno e, no futuro, de exportar, dependendo da nossa estratégia”, diz Santos.

O economista do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Rafael Cagnin, acredita que haverá algumas mudanças substanciais no País. Para ele, as empresas vão ampliar o número de fornecedores para diminuir a dependência de fabricantes externos.

“A reconversão das plantas (para produção de equipamentos médicos, por exemplo) mostra que temos competência industrial para voltar a produzir e reduzir alguns gargalos”, diz.

Na avaliação do presidente da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), Humberto Barbato, a crise atual escancarou a vulnerabilidade do País em relação ao mercado internacional. “Quando o problema surgiu na China, em pouco tempo sofremos com a falta de peças. Esse nível de dependência de componentes eletrônicos cria uma situação grave.”

Ele acredita que o Brasil tem oportunidade de retomar a nacionalização da sua indústria, mas, para isso, as empresas precisam ser competitivas e, além de atender o mercado interno, também exportar. E isso, diz ele, só será possível com as reformas tributária e administrativa.

A ZF, fabricante de transmissões para veículos comerciais, diz que, mesmo em home office, seu pessoal está buscando identificar potenciais fornecedores locais que atendam os níveis de tecnologia de seus produtos.

“Este trabalho tem apoio dos nossos clientes pois, além de reduzir a exposição cambial, minimiza riscos logísticos ante a fragilidade demonstrada por esta pandemia, para não depender de um único fornecedor, principalmente distante e de ação limitada”, afirma Silvio Furtado, diretor da ZF América do Sul.

Cooperativa

O presidente da Volkswagen na América Latina, Pablo Di Si, afirma que a empresa já vinha acelerando projetos de nacionalização de peças em razão da alta do dólar. Com a pandemia o processo passa a ser estratégico, e não só no Brasil. 

Di Si admite os planos podem ser atrasados porque as empresas vão sair da pandemia sem caixa para investimentos. Ele sugere a criação de uma cooperativa entre as associações de montadoras e de fornecedores (Anfavea e Sindipeças).

O executivo afirma que a Volkswagen vai introduzir no seu próximo lançamento, o SUV Nivus, uma central de multimídia, chamada de VW Play, desenvolvida no País, assim como o carro. “A tela do sistema (de 10 polegadas) virá da Coreia, mas tenho certeza de que temos competência de produzir no Brasil e utilizá-la no setor automotivo e em outros setores.” Ele cita ainda como passíveis de nacionalização peças para motores e para airbags. 

Um dos critérios a ser avaliado nos pós-pandemia é se vale a pena pagar um pouco mais por um produto nacional para não depender de um só fornecedor, afirma o economista José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados. “Acredito que um pedaço da lógica de que se compra porque é mais barato – ainda que seja do outro lado do mundo –, vai mudar, e não é só para o Brasil.” 

Ele vê oportunidades para fabricantes brasileiros desde que, utilizando tecnologia moderna, consigam fazer algo com custo competitivo. Ele também avalia que qualquer nacionalização será bem vinda, desde que as empresas não recorram a dinheiro do governo. “Tem de ser uma iniciativa do setor privado, que selecione itens que poderão ser feitos sem necessidade de subsídio.”

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Para avançar no mercado, produção brasileira necessita ser competitiva

Fabricantes também preveem que após pandemia mundo vai registrar nova onda de protecionismo

Cleide Silva e Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 05h00

O presidente do Sindicato Nacional da Indústria de Autopeças (Sindipeças), Dan Iochpe, acredita que o choque cambial pode ser um incentivo num primeiro momento para a nacionalização, mas pondera que, “para ter um movimento efetivo será necessário que haja competitividade ao longo do tempo, o que envolve o trabalho árduo de redução do custo sistêmico local, o chamado custo Brasil.”

Besaliel Botelho, presidente da Bosch, avalia que a discussão também vai envolver quais componentes valem a pena serem mantidos em produção. “Vai haver oferta mundial forte com a queda geral das vendas e isso vai aumentar a pressão por custos e o mecanismo de competitividade será outro.” Ele acredita que, passada a pandemia “se espera mais protecionismo do que havia até agora.”

Para Botelho, a disparada do dólar torna a produção local atraente, mas, com a crise atual, que deve fazer com que a produção de veículos demore de dois a três anos para voltar aos níveis de 2019, “é difícil pensar em novos investimentos porque as empresas estão sem caixa”.

A nacionalização esbarra em problemas antigos como falta de crédito, juros altos, carga tributária elevada e burocracia. “O Brasil tem condições de ser uma potência industrial, mas falta estratégia”, diz José Velloso, presidente da Associação Brasileira da Indústria de Maquinas (Abimaq). Ele cita que alguns produtos ligados ao agronegócio e à mineração poderiam ser feitos localmente, como fertilizantes. “Temos tudo no Brasil. Por que importamos?” A resposta é que o custo de importar é menor do que produzir aqui. “O resultado é que hoje não fabricamos mais máquinas para esse setor.” 

Mais espessante

Também no combate à covid-19 a Basf iniciou na semana passada a produção, em São Paulo, de um espessante para o álcool gel. Chamado de Luviset®360, o produto era importado da matriz alemã.

A Basf brasileira usava o Luviset em matéria-prima fornecida a fabricantes de produtos de cuidados pessoais, como gel de cabelo. “Com a escassez de álcool em gel em decorrência da falta de espessantes juntamos forças, envolvemos pessoas de diferentes responsabilidades, áreas e países da empresa e conseguimos em tempo recorde transferir a tecnologia de produção de um espessante da Alemanha para o Brasil”, informa Tatiana Kalman, vice-presidente da Basf para a América do Sul.

Segundo ela, serão produzidas “centenas de toneladas” de espessante na planta de Guaratinguetá (SP). Se houver demanda pós-coronavírus, a empresa diz que manterá a produção local.

Já a Braile, de São José do Rio Preto (SP) desenvolveu um aparelho oxigenador que funciona como um pulmão artificial. O equipamento fica ligado ao paciente em situação de gravidade, quando o respirador não atende suas necessidades, e oxigena o sangue para o pulmão. A empresa fará 100 unidades até meados de maio. 

Os oxigenadores existentes fora do Brasil só podem ser usados por seis a oito horas, praticamente durante uma cirurgia cardíaca. O nacional poderá ser usado por 30 dias, afirma Patrícia Braile, presidente da empresa especializada em equipamentos para cirurgia cardiovascular. A Braile investiu R$ 2,3 milhões para desenvolver o oxigenador, e metade foi bancada pela Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapii)/Instituto Eldorado.

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Dólar alto faz Mondial investir na fabricação de eletroportáteis no País

Com a medida, fabricante também busca exportar para os demais países do Mercosul, como a Argentina; R$ 47 milhões estão sendo aplicados na fábrica da Bahia

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

05 de maio de 2020 | 05h00

O novo patamar do câmbio, cotado acima de R$ 5, acelerou ainda mais os planos de Mondial, fabricante de eletroportáteis, de nacionalizar a produção. No mês passado, a empresa anunciou que iria fabricar no País batedeiras, ventiladores de grande porte usados em comércios e igrejas, caixas de som e cooktops. Agora acrescentou à lista mais quatro produtos: ferro elétrico tradicional, ferro a vapor e dois modelos de fritadeira elétrica. “Com o dólar se consolidando acima de R$ 5, entrou no nosso radar a fabricação local de mais produtos”, afirma o sócio-fundador da empresa, Giovanni Marins Cardoso.

Ele conta que os quatro primeiros eletroportáteis nacionalizados começam a ser produzidos na fábrica em Conceição do Jacuípe, no Recôncavo Baiano, em agosto. Em setembro começarão a ser produzidos os outros quatro itens. Também a empresa analisa a nacionalização de mais dois eletroportáteis: chaleira e processador. Neste caso, a decisão ainda depende de estudos técnicos e avaliação de mercado.

Até o ano passado, esses oito eletroportáteis eram fabricados na China. A empresa desenvolvia os moldes no Brasil e os fornecedores fabricavam o produto sob encomenda. Cardoso explica que com o dólar cotado ao redor de R$ 4, era mais vantajoso produzir no país asiático porque o custo de produção era 25% menor comparado ao do Brasil. “Neste momento, com o dólar acima de R$ 5, os custos de produção entre Brasil e China estão equiparados.”

Exportações

Além do dólar, outro fator que pesou na decisão de nacionalizar esses itens foi a intenção da companhia de expandir as exportações para países do Mercosul, especialmente a Argentina. O país vizinho não tem uma indústria forte de eletroportáteis. “A Argentina aplica lei anti dumping na importação de ferro elétrico. Se fabricarmos no Brasil, ficaremos fora dessa restrição”, explica o empresário. Ele conta que as exportações da companhia para a região são muito pequenas e, produzindo no Brasil esses eletroportáteis, será possível ampliar significativamente as vendas.

Na primeira fase de nacionalização, cuja produção começa em setembro, a companhia está contratando 215 trabalhadores. Agora, com mais itens fabricados localmente, planeja admitir mais 200 empregados para a fabrica da Bahia. Estão sendo aplicados na planta industrial R$ 47 milhões para ampliar a capacidade das linhas de produção.

Com a primeira rodada de nacionalização, a fatia de produtos fabricados localmente sai de 55% para 65% no total da empresa. Agora com mais quatro eletroportáteis incluídos nessa lista, esse indicador sobe para 72%. E a meta é atingir 80% de produtos nacionalizados do total produzido pela companhia até o início do ano que vem.

Em 2019, a Mondial faturou R$ 2 bilhões. No último trimestre de 2019, a marca respondia, em média, por 36% das vendas totais de eletroportáteis no varejo.

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