Câmbio entra em círculo vicioso

O Brasil é contra o controle de preços das commodities proposto pela União Europeia, e também é contra a política de desvalorização cambial adotada pelos Estados Unidos e pela China. Que se acompanhe a tendência do mercado, mesmo com distorções, afirma nos fóruns internacionais.

Alberto Tamer, O Estado de S.Paulo

23 de janeiro de 2011 | 00h00

No caso do câmbio, o governo condena os Estados Unidos por estarem fazendo injeções maciças de capital que provocam a desvalorização do dólar e aumentam a liquidez, que acaba vindo, em boa parte, para o Brasil. Um processo em que o real se valoriza diante da moeda americana e o yuan, que a acompanha.

Mas essa valorização não estaria sendo provocada, em grande parte, pelo próprio aumento dos preços das commodities agrícolas que defendemos?

A coluna nem de longe defende controle de preços externos dos produtos básicos, mas nas circunstâncias atuais, em que o dólar e o yuan estão sendo manipulados e os preços das commodities pressionam a inflação, o cenário se complica para o Brasil. Mais ainda porque para mantê-la sob controle, o BC tem de continuar elevando os juros que.... atraem mais investimentos... que valorizam o real...

E aí voltamos ao começo do círculo commodities-inflação-juros-mais dólares, tudo valorizando o real...

Está certo, sim. Fabio Silveira, diretor e sócio da RC Consultores concorda com a coluna ao afirmar que o Brasil está certo ao se opor a qualquer interferência nos preços das commodities. Mas discorda quanto à importância do efeito das importações desses produtos sobre o câmbio no Brasil. Eles não pesam tanto assim, afirma.

"Esses produtos representam cerca de 65% das exportações brasileiras", afirma ele. "O Brasil conseguiu aumentar de forma espetacular as reservas cambiais nos últimos anos por causa da receita externa das exportações de soja, minério, açúcar, carnes, café, celulose, aço, entre outras commodities e quase commodities", acrescenta.

O que existe é um choque de interesses e o Brasil esta certo ao lutar pelo seu. O mercado é que deve ditar a formação dos preços.

Fabio Silveira afirma ainda que são os afluxos financeiros e não o das commodities que estão valorizando o real. "Esse é um processo que vem desde o biênio 2004-2005 e a política de desvalorização do dólar começou a ganhar corpo em 2010. O problema é que se esta última for bem-sucedida, a competitividade dos manufaturados brasileiros será convertida totalmente em fumaça."

Para ele, a excessivamente elevada taxa de juros é preponderante na atração de investimentos no Brasil.

Câmbio, não adianta gritar. Sergio Vale, economista-chefe da MB Associados, tem outra posição. A gritaria contra os EUA é irrelevante, não vai mudar nada. Até porque não dá para imaginar que essa política vá depreciar tanto assim o dólar. O problema é a China e não os EUA. O dólar até voltará a se valorizar se a Europa e o Japão continuarem fracos e os EUA se recuperarem de fato.

Não vai mudar. Não adianta nada ficar falando, diz Sergio Vale. "Os preços de commodities vão continuar subindo ainda, ajudando a manter uma balança comercial relativamente boa este ano. E não me parece que o governo possa fazer muito. Além disso, não é o problema da taxa de câmbio. Quem dita os movimentos do câmbio não é a conta corrente, mas sim a conta de capital, investimentos financeiros. Em vez de se preocupar com a exportação de commodities ou com o Fed (Federal Reserve, banco central americano), o governo deve agir para aumentar a competitividade da empresa exportadora nacional, como, por exemplo, reduzindo o custo trabalhista, além de tomar outras medidas já anunciadas. Isso ajudaria muito a compensar a apreciação do real decorrente da entrada de dólares pelo mercado financeiro, as commodities e investimentos diretos.", argumenta Vale.

"O foco é fiscal. Enquanto se espera, seria muito interessante se o que Dilma fala em relação a diminuir o custo trabalhista, por exemplo, se concretize. É bem melhor isso do que escolher vencedores para dar crédito ou fazer desoneração tributária. Intensificar o investimento em infraestrutura é outro caminho necessário para compensar essa apreciação", completa.

Caminho certo. "O governo iniciou o ano focando em coisas que não são as mais importantes agora", diz Vale. "O câmbio é importante, mas não há muito a fazer para mudar sua tendência. Apenas políticas muitos erradas poderiam fazer isso."

Commodities, inflação, juros, câmbio - são todos desafios superáveis provocados não pelo mal maior, recessão, mas pelo crescimento. Eles só precisam, agora, ser administrados. Não é mais fácil?

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