Paul Yeung/Bloomberg
Para Ribeiro, a taxa de câmbio no Brasil está desalinhada também por razões que ele classifica de “idiossincráticas”, ou seja, características ao Brasil que vão além do risco fiscal e os problemas recentes com o Orçamento de 2021. Paul Yeung/Bloomberg

Câmbio 'justo' deveria estar na faixa de R$ 4,60, diz especialista

O Estadão ouviu o economista do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getúlio Vargas, Livio Ribeiro, especialista em fazer uma série de exercícios de modelos econômicos para entender o comportamento do real frente ao dólar

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2021 | 15h30

BRASÍLIA - Não tem nem 10 dias que o ministro da Economia, Paulo Guedes, afirmou que a taxa de câmbio de equilíbrio no Brasil deveria estar em torno de R$ 4,50. A fala foi feita na esteira da pressão política sobre o governo para aumentar a vacinação. Guedes disse que o dólar vai cair, nos próximos três ou quatro meses, com a aceleração da vacinação em massa e retomada da economia. Um ano antes, logo após confirmação do novo coronavírus no Brasil, uma outra declaração do ministro ficou marcada: Guedes disse que a cotação do dólar poderia ir a R$ 5 caso fosse feita "muita besteira".

O Estadão ouviu o economista do Instituto Brasileiro de Economia (IBRE) da Fundação Getúlio Vargas, Livio Ribeiro, especialista em fazer uma série de exercícios de modelos econômicos para entender o comportamento do real frente ao dólar.  Num desses modelos, que leva em conta uma avaliação dos fundamentos de longo prazo, o cambio “justo” para o final do ano passado era de R$ 4,60, bem próximo ao citado pelo ministro.

Para Ribeiro, a taxa de câmbio no Brasil está desalinhada também por razões que ele classifica de “idiossincráticas”. Ou seja, características ao Brasil que vão além do risco fiscal e os problemas recentes com o Orçamento de 2021. "Podemos elencar um rosário delas, que são questões que sugerem o mau humor com o País”, diz. Na lista, o economista aponta desde a gestão da pandemia, a questão ambiental e até mesmo o recente intervencionismo do presidente nas empresas estatais de capital misto, como a Petrobrás e o Banco do Brasil.

“As pessoas reduzem o debate ao fiscal mais tem que abrir um pouco o horizonte e entender: fiscal é um problemão, mas nossos problemas não se encerram na questão fiscal. Ele tem peso e não colocaria todos os ovos nessa cesta”, diz Ribeiro.

Esse desalinhamento da cotação do real frente ao real também pode ser observado em comparação do real a outras 14 moedas de países emergentes, África do Sul, Turquia, Hungria, Polônia, Chile, México e Argentina. “O Brasil está muito mais perto da classe de países emergentes. Está sempre na pior turma”, afirmou.

Um recente relatório do BTG chamou atenção por causa das suas projeções de câmbio. O banco elevou a cotação do câmbio de R$ 5,00 para R$5,60 em 2022 por causa da deterioração substancial do cenário doméstico. Já a taxa de câmbio no fim de 2021 subiu de R$5,20 para R$5,40. “Enquanto a pandemia não for controlada e a incerteza permanecer elevada, é possível que a taxa de câmbio alcance patamares ainda mais depreciados antes de iniciar trajetória de apreciação sugerida pelos fundamentos”, previu o BTG. O ponto que mais chamou atenção, no entanto, foi cenário pessimista, que mostra que um custo custo fiscal adicional entre R$200 bilhões e R$ 300 bilhões com a pandemia, a taxa de câmbio depreciada para R$6,40 no fim de 2021. O BTG diz que esse é um cenário menos provável.

O economista-chefe da BlueLine Asset, Fábio Akira, diz que a maior estabilidade dos juros nos Estados Unidos medidos pelos papéis do Tesouro norte-americano pode fazer com os investidores voltem a buscar oportunidade de ganho em países onde a moeda pode apreciar em relação ao dólar. “Nesse contexto, como o real apanhou bastante recentemente por motivos externos e locais, pode acabar se beneficiando um pouco porque está barato”, avaliou. A taxa Selic mais alta no Brasil pode dar um conforto maior. Para Akira, o  problema é que essa estabilidade dos títulos americanos, calcada no discurso do FED que vai ser mais paciente com a inflação doméstica no Estados Unidos, pode mudar com uma “simples virgula".

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O que faz o dólar não ficar abaixo de R$ 5

Economistas apontam que o dólar poderia estar abaixo de R$ 5 se não fosse o 'caldo' de incertezas que rondam a economia brasileira em 2021

Adriana Fernandes, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2021 | 14h00

BRASÍLIA - A combinação perversa de três riscos - fiscal, político e da condução da crise sanitária da pandemia da covid-19 - está por trás do patamar elevado do dólar do Brasil, que não cede apesar da maré favorável para o fortalecimento do real frente à moeda norte-americana.

Na virada do ano, a expectativa de muitos craques do mercado era de que a perspectiva do início do ciclo de alta de juros pelo Banco Central (BC) e o boom de alta de commodities (produtos básicos, como petróleo, grãos e minério de ferro)  contribuiria para a valorização da moeda brasileira. Mas esse movimento não aconteceu.

Economistas ouvidos pelo Estadão apontam que o dólar poderia estar abaixo de R$ 5 se não fosse o “caldo” de incertezas que rondam a economia brasileira em 2021. Na sexta-feira, a moeda americana fechou em torno de R$ 5,60.

Tem algo diferente no Brasil: sobra dólares e nem assim o valor da moeda americana cai. Isso é novo. O temor desses riscos também deve estar por trás da decisão dos exportadores brasileiros em deixar parte dos dólares obtidos com a venda dos seus produtos fora do País. Estratégia que é legal, mas que tem sido acompanhada com atenção pelos especialistas para entender o seu impacto no comportamento da taxa de câmbio no Brasil.

Estima-se no mercado que os exportadores têm pelo menos US$ 40 bilhões de receitas de exportação que não foram trazidas para o Brasil. Se esse dinheiro tivesse entrado no País, o dólar deveria estar mais baixo. O saldo comercial é grande, mas o saldo de compra e venda de câmbio no mercado é menor.

“Tem muita gente encucada com isso. Eu acho que está associado à incerteza. Melhor deixar lá fora do que trazer para aqui”, avalia o economista e consultor José Roberto Mendonça de Barros, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda. " O fiscal dá uma incerteza gigante", diz. Com décadas de experiência em comércio exterior e  setor agrícola, José Roberto diz que é a primeira vez no Brasil que o real não se valoriza num cenário de commodities fortes, de alta do saldo da balança comercial e perspectiva de superávit nas contas externas. Um movimento de valorização do real teria que ter reduzido em pelo menos R$ 0,20 o dólar, colocando a cotação abaixo de R$ 5,50, segundo ele.

O que pesa no clima geral de incertezas não é somente o ruído fiscal, que piorou com o impasse político após a aprovação do Orçamento de 2021 maquiado para acomodar mais emendas parlamentares, mas também a forma como o governo Jair Bolsonaro tem lidado com a pandemia e a vacinação.

Nitidamente a economia brasileira está enfraquecendo, após a perspectiva de recuperação mais forte em 2021, com a má-condução do Brasil no enfrentamento do agravamento da doença. O que muitos se perguntam agora é: quando é que vai melhorar a covid-19? Qual é o fluxo de vacinas? Para onde vai a vacinação?

Também houve uma elevação do ruído político porque o governo ficou mais enfraquecido e terá que enfrentar a CPI da Covid no Senado e ameaças de o presidente Jair Bolsonaro perder apoio da coalizão do Centrão, a depender do desfecho da crise do Orçamento, como mostrou o Estadão.

Dois fatores podem dar algum alívio a uma valorização do real e queda do dólar: o aumento da vacinação para um patamar de 1,5 milhão por dia e a recuperação econômica no segundo semestre. Mesmo assim, não se espera um recuo do dólar muito maior. A última pesquisa Focus do BC (com uma centena de economistas de instituições financeiras) mostrava o câmbio fechando 2021 em R$ 5,37.

Para o ex-presidente do Banco Central, Gustavo Loyola, é o pessimismo maior em relação ao Brasil, que não tem permitido que o real se aprecie, apesar da cotação estar mais calma nos últimos dias. “Mas é tudo volátil, de acordo com as notícias, porque existe toda essa dúvida agora em relação à sanção do Orçamento e sobre a própria articulação política do governo”, avalia. Ele destaca o efeito do câmbio na inflação, que pressiona os juros.

Loyola diz que o Brasil hoje é um País visto sob o prisma negativo e que “ninguém quer apostar no momento”. Para o ex-presidente do BC, há um sério risco desse quadro de incerteza emendar em 2022, ano de eleições. “Se formos para um cenário mais tranquilo do ponto de vista fiscal, o real poderia ficar em torno de R$ 5,50 e um pouco menos até. Com a incerteza política, não faço essa aposta”, prevê.

O economista-chefe do Banco Votorantim, Roberto Padovani, diz que os economistas estão tendo dificuldade em medir o impacto do risco do comportamento das contas públicas, porque tradicionalmente ele deveria estar aparecendo no risco soberano País. “Talvez a única variável que consiga explicar esse descolamento (do câmbio) seja a questão fiscal”, diz. Para Padovani, o Brasil deveria ter uma moeda abaixo de R$ 5 “O fator é que nos últimos nove meses a moeda brasileira oscila em R$ 5,40. A explicação mais possível, é que o risco fiscal cresceu muito e está dentro dessa conta”, avalia.  

Ex-ministro da Fazenda, Joaquim Levy tem avaliação mais otimista. Para ele, o BC tem indicado que há vários fatores sobre o câmbio que estavam presentes no ano passado e que são se vê mais, como o overhedge dos bancos (proteção extra dos ativos em moeda estrangeira dos bancos), pagamento de dívidas pelas empresas e a saída de investidores estrangeiros do País. Para ele, as exportações que foram bem em 2021 serão muito melhores este ano. “Há uma série de fatores, alguns técnicos, que sugerem uma pressão menor no câmbio neste ano do que no ano passado”.

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Dólar pressionado vira pesadelo para parte da indústria

Situação é complicada para fabricantes de remédios e eletrônicos que usam insumos importados, mas vendem no mercado interno

Márcia De Chiara, O Estado de S.Paulo

18 de abril de 2021 | 14h40

A forte valorização do dólar, que já subiu mais de 7% este ano em relação ao real, após alta de quase 30% em 2020, é um pesadelo para boa parte da indústria. Isso ocorre por causa do aumento de custos que a moeda americana provoca, seja pela importação direta de matérias-primas e componentes ou pelo fato de os insumos usados, mesmo que produzidos localmente, serem cotados a preços do mercado internacional.

Esse equilíbrio de forças entre benefícios e prejuízos ocasionados pela alta do dólar depende, no entanto, do peso das exportações em cada negócio. Fabricantes de calçados e frigoríficos de aves e suínos, por exemplo, que vendem grande parte da produção para o mercado externo estão conseguindo se sair bem neste momento de câmbio pressionado, pois embolsam receita em dólar.

Já empresas de setores que usam insumos importados, mas são voltadas para o mercado doméstico, como fabricantes de eletroeletrônicos e medicamentos, estão sendo penalizadas pelos aumentos de custos sem ter a contrapartida do faturamento em moeda estrangeira. Neste caso, a saída é buscar alternativas para compensar as perdas de margens.

Na indústria de medicamentos, onde 90% das matérias-primas são importadas e os preços dos remédios são controlados pelo governo, há empresas que resolveram deixar de fabricar determinados itens porque não querem operar com prejuízo, conta o diretor executivo da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais (Alanac), Henrique Tada. Outras farmacêuticas tentam compensar a pressão de custos provocada pelo câmbio, aumentando a escala de produção de um mix de medicamentos. “Sempre o reajuste autorizado pelo governo foi inferior aos custos, mas agora piorou porque o câmbio está alto”, diz o executivo.

No segmento de eletroeletrônicos, onde boa parte dos componentes são importados, a pressão do dólar é visível. Em 12 meses até março, os preços ao consumidor de televisores, equipamentos de som e itens de informática acumulam alta de quase 23%, segundo o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). No mesmo período, a inflação geral aumentou 6,1%.

A Multilaser, uma das maiores indústrias nacionais de eletroeletrônicos, que fabrica tablets, televisores, computadores, entre outros, registrou aumento de mais 40% nos custos nos últimos meses por conta do câmbio e da escassez de componentes, como chips de memórias. “Não repassamos integralmente esses custos, no entanto isso não assegura um aumento inexpressivo na ponta, já que a pressão é muito alta”, diz o presidente da empresa Alexandre Ostrowiecki.

Para contrabalançar a retração nas vendas que os aumentos de preços podem provocar, Ostrowiecki conta que a companhia está desenvolvendo linhas de produtos mais simples e competitivas para caber no bolso do consumidor.

José Jorge do Nascimento, presidente da Eletros, associação que reúne os fabricantes de eletroeletrônicos, explica que as indústrias estão repassando os aumentos de custos para os preços porque as empresas não têm como absorver. Apesar da situação complicada, ele ressalta que as companhias do setor não pensam em ajustar a produção e o emprego. Mesmo com a demanda fraca neste momento, os fabricantes enxergam uma recuperação do consumo no segundo semestre, com o avanço da vacinação.

Exportadores

Apesar do peso da alta do dólar nos custos de vários componentes e matérias -primas, fabricantes de calçados e frigoríficos que vendem para o exterior parcela significativa da produção conseguem obter ganhos com o avanço do câmbio.

O Grupo Dok, fabricante de calçados femininos e infantis com as marcas Ortopé, Dok e Dijean, com unidades em Birigui (SP) e em Frei Paulo (SE), viu dobrar no último ano a fatia das exportações na produção de 16 mil pares por dia. Hoje a empresa exporta 16% da produção. “Esse resultado é por conta do desabastecimento que houve no mercado externo em razão da pandemia e da alta do dólar”, diz o diretor de Negócios, Otávio Facholi.

Ele conta que desde o ano passado a empresa tem sido afetada pela retração nas vendas domésticas por causa da covid-19 e as exportações para 25 países, a maioria da América Latina, têm contribuído para manter as duas fábricas em funcionamento. Juntas, elas empregam 1.300 trabalhadores.

O cenário de alta do câmbio também é favorável para frigoríficos de aves e suínos, mas apenas para aqueles que têm uma parcela significativa da produção voltada para exportação. Ricardo Santin, diretor executivo da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), observa que a alta do câmbio foi boa para os frigoríficos que são grandes exportadores “porque deu mais competitividade aos produtos, apesar dos custos malucos”.

Pressionado pelo milho e pelo farelo de soja, commodities cotadas em dólar que são a base da alimentação de suínos e frangos, o custo de produção dessas carnes subiu, em média, 45% nos últimos 12 meses. Essa alta afetou os frigoríficos voltados para o mercado doméstico, onde há hoje empresas que operam no vermelho.

Santin diz que não é possível dizer qual é a posição geral do setor. “Depende da representatividade das exportações na produção de cada um. Para quem exporta muito foi maravilhoso.” Em março, as vendas externas de frango e suínos superam a meta de 500 mil toneladas estabelecida pelo setor. Foram 109 mil toneladas de suínos e 396 mil toneladas de frango. “Essa marca foi atingida muito em função do câmbio.” 

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