Câmbio mais fraco ajudaria, mas não resolve o problema

O real tem sido atingido pela combinação perversa de elevada liquidez mundial, que faz com que o dólar se desvalorize em relação a quase todas as moedas, e um elevado diferencial de juros, que acende o interesse do capital estrangeiro pelo Brasil. Isso motivou o governo a adotar medidas para conter a valorização cambial, como o aumento do IOF para operações de renda fixa.

Análise: Thaís Marzola Zara, O Estado de S.Paulo

31 de outubro de 2010 | 00h00

Tanto barulho deve-se aos efeitos do câmbio sobre a capacidade dos produtos brasileiros, especialmente manufaturados, de competir com estrangeiros. O real forte eleva os custos da indústria em dólares e, portanto, o preço do bem final, dificultando a competição. O salário pago na indústria paulista, medido em dólares, por exemplo, cresceu 150% entre janeiro de 2004 e agosto de 2010.

Frequentemente, a indústria tenta amenizar o problema por meio da importação de bens de capital e intermediários, mas tal estratégia tem limites - além de continuar correspondendo a uma desindustrialização quando se pensa na cadeia como um todo.

É claro que o câmbio não é o único fator a deprimir a competitividade: há a carga tributária escorchante, a infraestrutura precária, os elevadíssimos custos logísticos e trabalhistas. Embora corrigir as distorções fosse o mais correto, é mais complexo do que tentar influenciar a taxa de câmbio. Para reduzir a carga tributária, seria necessário um programa sério de redução dos gastos do governo, algo que nem sequer está em discussão.

Trazer o câmbio a um nível mais elevado poderá até dar algum fôlego à indústria; todavia, além de ter um custo em termos de inflação, está longe de se configurar numa solução final para o tema.

É ECONOMISTA-CHEFE DA ROSENBERG ASSOCIADOS

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