Câmbio muy amigo

Análise: Sérgio Vale

ECONOMISTA-CHEFE DA MB ASSOCIADOS, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2011 | 03h06

Talvez fartos de esperar medidas de infraestrutura que os tornem competitivos, os empresários apelaram ao governo por medidas alternativas. Juntos, ressuscitaram velhos argumentos para compensar a perda de competitividade. Um exemplo são as medidas protecionistas que começaram com automóveis e certamente se espalharão para outros setores. Outro passa pela depreciação da taxa de câmbio que estamos tendo agora. O efeito cambial aqui é dito benéfico para as exportações de manufaturados. É esse o objetivo quase obsessivo do governo ao buscar uma taxa de câmbio mais fraca. Mas, como é de praxe, ao tentar ajudar um setor, acaba por interferir em inúmeros outros e, pior, no consumidor.

A indústria manufatureira pode não se beneficiar inteiramente de uma depreciação porque muitos de seus insumos e bens de capital são importados. Além disso, a ideia simplista de estimular depreciações para exportar mais pode não funcionar bem porque pega a economia num momento ainda de crescimento. Dessa forma, o pass-through do câmbio para os preços é mais fácil do que numa crise mais aguda, como a de 2008. Esse aumento de preços significa apreciação real da taxa de câmbio que tira parte do efeito da depreciação nominal ocorrida. Isso sem falar no aumento de custos salariais que também decorrerão de uma inflação maior.

Adicionalmente, temos de lembrar que o mundo está em desaceleração. Tanto a demanda quanto os preços de manufaturados exportados tendem a diminuir. Afinal, exportaríamos para quem? Pelo contrário, o governo tem ajudado a aumentar a exportação de carros do México e da Argentina para o Brasil. E temos ainda um efeito Ásia que tem de ser considerado. Esses países não terão os antigos mercados desenvolvidos como grandes compradores, como no passado. A tendência de exportar ainda mais manufaturados para a América Latina será inexorável.

A visão tacanha de que a taxa de câmbio resolve tudo esquece de considerar que o câmbio é um sintoma da qualidade de uma economia. Uma depreciação exagerada é, da mesma forma, indicação de que algo está errado. O que está errado é a mudança de rumo na política econômica, com queda na Selic e medidas cambiais deletérias para o mercado. Esse conjunto de eventos dá a ilusão para a indústria que ela estará protegida e poderá exportar mais. Mas os empresários responsáveis sabem que esse tipo de política apenas vai prejudicá-los no longo prazo, com mais inflação e baixo crescimento. E o grande perdedor, no final será o consumidor, com produtos de menor qualidade e mais caros, o que parece ser a nova bandeira do governo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.