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Câmbio na Argentina

As cotações do dólar no câmbio paralelo (blue) oscilam em torno dos 15,2 pesos, enquanto o câmbio oficial está parado nos 9,67 pesos por dólar

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2015 | 03h00

“Nunca se mente tanto quanto em véspera de eleições, durante a guerra e depois da caça”, avisava Bismarck, o chanceler da Prússia de 1862 a 1890. Por aí se vê que o estelionato eleitoral não é invenção tão recente.

E é também o que prevaleceu ao longo desta campanha eleitoral da Argentina, cujo desfecho acontecerá hoje, quando se conhecerá o novo presidente da República.

Os dois candidatos, o liberal de oposição ao atual governo, Mauricio Macri, que lidera as pesquisas, e o candidato oficial Daniel Scioli, repetiram à exaustão aquilo em que apenas os tolos acreditaram: que o próximo governo será generoso em distribuição de bondades. E, no entanto, seja quem for eleito, o que virá em seguida é um forte ajuste, provavelmente mais duro do que aquele pelo qual passa o Brasil.

O que se pode supor é que um governo Macri tende a ser mais contundente para buscar o reequilíbrio das contas públicas e a saída para a crise cambial do que seria Scioli. A diferença básica é, portanto, apenas de ritmo.

O programa populista do período Kirchner (dos 12 últimos anos) está esgotado. As despesas públicas crescem a 7% ao ano, enquanto a produção (PIB) não deve aumentar mais do que 0,5%. O tamanho do rombo está no Confira.

Os dois candidatos vêm prometendo forte derrubada de impostos, outras dessas mentiras típicas a que aludiu Bismarck. O provável vencedor tem repetido outra coisa: “Soy Mauricio Macri, me comprometo a arreglar tus problemas sin quitar nada de lo que ya tenés”. Parece inevitável o contrário disso, se o objetivo for sanear as contas públicas.

A inflação real vem sendo avaliada em cerca de 30% ao ano, enquanto as projeções oficiais apontam para 14%. As exportações caem 15%. O país está sem crédito desde 2001, quando impôs um calote aos credores. A maior parte das reservas externas, em torno dos US$ 30 bilhões, é fictícia, porque está em títulos cedidos temporariamente por outros países, especialmente pela China. 

As cotações do dólar no câmbio paralelo (blue) oscilam em torno dos 15,2 pesos, enquanto o câmbio oficial está parado nos 9,67 pesos por dólar. A queda das exportações derrubou a arrecadação porque o Imposto de Exportação (retenciones) pesa cerca de 10% nas receitas totais. 

Para atrair investimentos e promover as exportações, o novo governo terá de consertar esse câmbio atrasado, assunto negado ou evitado durante a campanha. O impacto imediato será a disparada da inflação e a perda do valor patrimonial em dólares das empresas estrangeiras estabelecidas na Argentina.

Será também inevitável novo esforço para promover um acerto com os credores, os mesmos que vêm processando a Argentina em Nova York e, por isso, têm sido chamados de abutres pelo governo de Cristina Kirchner.

Tanto Macri quanto Scioli vêm acenando com a normalização das relações comerciais com o Brasil, hoje travadas por bloqueios burocráticos e aduaneiros. Afora isso, também se espera pela erradicação da ideologia bolivariana e da política externa correspondente que prevaleceu em todo o período do casal Kirchner. Melhor assim.

CONFIRA

O gráfico mostra como vem piorando o rombo das contas públicas.

Distorções. Essas estatísticas têm de ser tomadas com cuidado porque estão expostas a distorções. Boa parte das receitas (cerca de 22,5%) vem sendo obtida hoje com apropriação (indevida) de reservas. Portanto, na prática, o rombo pode ser bem maior. Além disso, os exportadores têm preferido deixar seus dólares no exterior à espera de um câmbio mais favorável. E isso produz efeito inverso ao anterior: vem reduzindo as receitas com o Imposto sobre Exportações (retenciones).

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