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Câmbio, o patinho feio

Com aprovação de reforma da Previdência, fluxo de capital estrangeiro volta com força

Fábio Alves*, O Estado de S.Paulo

10 de abril de 2019 | 04h00

O câmbio perdeu o rali obsevado na Bolsa e nos contratos de juros futuros em dois eventos considerados pelo mercado como muito positivos para os ativos brasileiros: a eleição de Jair Bolsonaro e a primeira sinalização do Federal Reserve (Fed) em favor de uma política monetária americana mais relaxada em 2019.

Desde o primeiro turno da eleição presidencial (em 7 de outubro) até o fechamento da sexta-feira passada, o Ibovespa subiu 12,8%, enquanto as taxas pagas pelos juros de prazo de 5 anos caíram 2,46 pontos porcentuais, mas o real registrou uma desvalorização de 2,5% ante o dólar.

Quando se leva em conta o discurso proferido no dia 4 de janeiro deste ano pelo presidente do Fed, Jerome Powell, indicando a possibilidade de o Banco Central americano não mais elevar os juros neste ano, fica evidente como o real não acompanhou a alta da Bolsa brasileira nem o rali registrado em ativos de outros países emergentes que também seriam beneficiados pela política monetária mais branda do Fed, que previa originalmente duas elevações de juros em 2019.

Desde o discurso de Powell até a sexta-feira passada, o real perdeu 4,3% ante o dólar, enquanto o Ibovespa subiu 5,7%. No México, o peso ganhou 1,8% em relação à moeda americana no mesmo período, a Bolsa mexicana subiu 6% e os juros de 5 anos recuaram 0,64 ponto porcentual.

Por que o câmbio tem sido o patinho feio dos ativos brasileiros durante o rali desde a eleição presidencial?

“Os investidores não estão acostumados com taxas de juros tão baixas no Brasil”, explica o sócio e gestor da MZK Investimentos, Marco Mecchi.

O diferencial de juros entre o Brasil e os Estados Unidos sempre foi um chamariz do capital estrangeiro, via as chamadas operações de “carry trade”, quando os investidores vendem ativos de países com baixas taxas de juros para comprar papéis denominados em moedas de países que proporcionam elevadas taxas de retorno. Nessa equação, os investidores levam em conta ainda a volatilidade dos diferentes mercados, pois a forte oscilação nos preços pode corroer a rentabilidade dessas operações.

Já há algum tempo o real vem perdendo a atratividade para os investidores estrangeiros nas operações de “carry trade” em comparação com outras moedas emergentes, por oferecer agora juros básicos mais baixos e volatilidade bem maior: taxa Selic em 6,50% e volatilidade implícita de um mês anualizada do real de 13,70%. No México, cujos juros básicos são de 8,25%, a volatilidade do peso está em 9,60%. A Indonésia tem juros de 8,15% com uma volatilidade da moeda de 7,80%.

“O Brasil sempre foi um dos campeões em taxas de juros elevadas, mas hoje a taxa de carregamento do real, quando se descontam os juros americanos, está muito baixa para uma volatilidade bastante elevada”, diz Mecchi. Todavia, ele adverte que esse é apenas um fator que explica o desempenho ruim do real no período. “A decepção com o ritmo de crescimento da economia brasileira também está afetando muito a atratividade do real”, afirma.

Há ainda um fator técnico que impede a apreciação do real frente ao dólar: a posição comprada em moeda americana por parte dos investidores estrangeiros, a qual diminuiu pouco, mesmo com a redução de incertezas relacionadas à eleição presidencial, quando o mercado temia uma vitória do candidato do PT.

Na véspera do primeiro turno da eleição presidencial, a posição comprada em dólar pelos investidores estrangeiros, segundos dados da B3, somava US$ 38 bilhões. Na sexta-feira passada, esse valor era de quase US$ 34 bilhões. Uma das explicações para essa posição comprada elevada em dólar, refletindo aposta de alta da moeda americana ante o real, é a incerteza ainda existente em relação à aprovação da reforma da Previdência. “Enquanto os estrangeiros não saírem dessa posição comprada, vai ficar difícil o real se apreciar”, diz Mecchi.

O gatilho para isso pode ser um avanço mais concreto da tramitação da reforma da Previdência no Congresso. Quando os estrangeiros se sentirem confiantes quanto à aprovação de uma reforma robusta, resultando numa economia fiscal entre R$ 700 bilhões e R$ 800 bilhões em dez anos, o fluxo de capital estrangeiro deve voltar com força e a reversão da posição comprada em dólar pode ser rápida.

*É COLUNISTA DO BROADCAST

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