Wilton Junior/Estadão
Wilton Junior/Estadão

Dólar bate em R$ 4,27 mesmo depois de intervenção do BC

Moeda americana chegou a desacelerar na sequência da operação, mas logo voltou a subir; movimento é de reação à fala de Paulo Guedes, que disse não se preocupar com o novo patamar do dólar

Fabrício de Castro e Luci Ribeiro, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2019 | 09h32
Atualizado 27 de novembro de 2019 | 07h38

BRASÍLIA -  O dólar registrou na terça-feira, 27, forte oscilação, influenciado por declarações do ministro da Economia, Paulo Guedes. Mesmo após duas intervenções do Banco Central, a moeda americana atingiu a marca de R$ 4,27 durante as negociações do pregão e fechou cotada a R$ 4,24, uma alta de 0,61% – novo recorde histórico nominal, sem contar a inflação ao longo dos anos. No ano, a variação é de 9,52%, mas só neste mês o avanço chega a 5,76%.

 

Em entrevista na segunda-feira, 25, em Washington, Guedes disse que o País deve se acostumar a conviver com um ambiente de juros baixos e dólar mais alto. Foi a senha para o mercado “testar” um novo patamar para a moeda logo nos primeiros minutos de negociação. 

A manutenção desse patamar acima de R$ 4 deve gerar novas incertezas para consumidores como a assistente de ensino Beatriz Pacheco. Com viagem marcada para os EUA em janeiro, ela deixou para comprar dólares às vésperas do embarque. “Eu não comprei porque fiquei na esperança de que fosse bater R$ 4.” As empresas também reclamam de uma possível alta no preço dos insumos importados e da falta de previsibilidade para os negócios. “Sempre falo que o melhor dólar é o dólar estável, indiferente do valor”, disse o presidente da Bosch na América Latina, Besaliel Botelho.

Economistas falam em outro efeito: a desaceleração do ciclo de redução dos juros básicos em 2020. José Francisco Lima Gonçalves, do Banco Fator, é um dos que não vê cortes da Selic além de 4,5% – a taxa é hoje de 5% e o Copom ainda tem reunião em dezembro.

Como acontece nas demais economias emergentes, o dólar no Brasil tem subido puxado por fatores internacionais, como a disputa comercial entre EUA e China. Mas no caso brasileiro, segundo economistas, também tem pesado questões como a demora do governo Bolsonaro para avançar na aprovação de novas reformas.

O presidente do BC, Roberto Campos Neto, se referiu ao comportamento do mercado como “disfuncional” e acenou com novas intervenções para corrigir “movimentos de curto prazo”. “Essas intervenções não têm capacidade de alterar movimentos de longo prazo, que têm como origem bases macroeconômicas.” 

Em entrevista coletiva na embaixada brasileira em Washington, Guedes disse que o Brasil tem uma moeda forte e que flutuações no câmbio não são motivo de preocupação. "Quando você tem um fiscal mais forte e um juro mais baixo, o câmbio de equilíbrio também ele é mais alto."

O sinal do ministro reforça a percepção do mercado de que o Banco Central pode fazer o último corte de juros em dezembro. Na semana passada, o presidente do BC, Roberto Campos Neto, afirmou que se o patamar da moeda americana pressionar os preços, o BC poderá atuar via política monetária (ou seja, na taxa de juros), e não via câmbio.

"Os comentários do Guedes mostram que não tem uma preocupação com a taxa de câmbio no atual patamar", disse à Reuters Camila Abdelmalack, economista da CM Capital Markets. "O mercado acaba achando que isso é uma indicação de que o BC não vai atuar."Na manhã desta terça, o presidente Jair Bolsonaro disse que "há prós e contras" com fato de o dólar ter alcançado novo valor nominal recorde. "Se você for analisar na ponta da linha, tem vantagens, prós e contra no dólar a R$ 4,21 como está agora (sic)", afirmou o presidente, na saída do Palácio da Alvorada. "Espero que caia (a cotação da moeda), torço, assim como torço para que caia a taxa Selic, torço para que aumente a nossa credibilidade junto ao mundo", acrescentou. / Colaboraram Silvana Rocha,  Luciana Xavier e Niviane Magalhães 

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