Mauro Pimentel/AFP
Mauro Pimentel/AFP

Petróleo passa de US$ 70, mas Petrobrás mantém preços inalterados há 40 dias

Queda do dólar tem ajudado estatal a manter os preços, mas especialistas dizem que novos aumentos serão inevitáveis

Denise Luna e Fernanda Nunes, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2021 | 15h40

RIO - O preço do barril de petróleo ultrapassou nesta semana o patamar de US$ 70, nível que não era visto desde maio de 2019. E, segundo analistas, tudo indica que pode chegar aos US$ 80 ainda este ano, por causa da retomada global. O avanço, porém, não tem sido repassado pela Petrobrás para os preços dos combustíveis. O último reajuste da gasolina e do óleo diesel da estatal foi em 1.º de maio, há 40 dias - e, mesmo assim, as revisões foram para reduzir os preços em cerca de 2%.

A explicação é que a valorização do real em relação ao dólar nas últimas semanas está ajudando a Petrobrás a manter os preços inalterados em suas refinarias. Para definir o valor dos seus produtos, a empresa considera as cotações do dólar e do petróleo internacional, além dos custos logísticos de importação. Assim, equipara seus preços aos dos concorrentes, que trazem combustíveis de outros mercados para competir com a estatal no Brasil. Mesmo assim, com a escalada da cotação da commodity nos últimos dias, novos aumentos serão inevitáveis, segundo especialistas.


Em Londres, o petróleo do tipo Brent, usado como parâmetro pela estatal para ajustar os preços internos dos derivados, chegou a ser negociado a US$ 20 no ano passado, como reflexo das medidas de isolamento social motivadas pela pandemia do coronavírus. Nesta semana, diante da retomada econômica gradual nos Estados Unidos e Europa, o barril superou o patamar de US$ 70.

A última alteração nos preços da Petrobrás se deu um pouco após a posse do general Joaquim Silva e Luna, que substituiu o ex-presidente Roberto Castello Branco, demitido pelo presidente Jair Bolsonaro por promover “aumentos excessivos” dos combustíveis. Em 1.º de maio, o barril do petróleo estava cotado a US$ 67 e na quarta-feira, 9, fechou o pregão negociado a US$ 71. Houve, portanto, uma alta de 6%. Nesse período, o dólar passou da casa dos R$ 5,40 para algo mais perto dos R$ 5.

“A alta do preço do petróleo está calcada na expectativa de retomada econômica. Os Estados Unidos estão com um espraiamento maior da vacinação e isso aumenta agora com o verão no hemisfério norte, quando as pessoas se locomovam mais. Mas temos que lembrar que os fundamentos do mercado, de oferta e demanda, estão artificialmente controlados pelos cortes de produção da Opep”, observou a professora e assessora estratégica da Fundação Getúlio Vargas Energia (FGV) Fernanda Delgado.

Reagindo à redução de demanda trazida pela pandemia de covid-19, somente a Arábia Saudita cortou cerca de 1 milhão de barris diários da sua produção de 12 milhões de barris, fora os cortes dos outros produtores como Rússia, Nigéria e México, que no total chegaram a quase 10 milhões de barris diários. O Irã e o Iraque, por sua vez, já anunciaram que vão aumentar sua produção para níveis pré-coronavírus.

Para Fernanda Delgado, a Petrobrás, em algum momento, vai alinhar seus preços ao mercado internacional. Mas a pesquisadora destaca que a empresa já avisou que os prazos para os reajustes vão ser mais longos na nova gestão. Um mês após a posse do general Luna, a estatal comunicou que não teria uma frequência definida de ajustes. O seu antecessor revisava os valores em intervalos de dez a 15 dias.

A ausência de ajustes da Petrobrás poderia ajudar os importadores brasileiros a aumentar a fatia no mercado nacional de combustíveis e trazer maior concorrência para o mercado, reduzindo os preços internos, mas, de acordo com o presidente da Associação dos Importadores de Combustíveis (Abicom), Sérgio Araújo, isso não está acontecendo. Em abril, a estatal foi responsável por 48% das importações de diesel e, em maio, o resultado deverá ser semelhante.

“O general Luna está até com sorte, porque os aumentos nas commodities têm sido ajudados pela redução do câmbio, então o preço das Petrobrás está acompanhando bem a paridade. Eu não diria que está gerando uma janela de oportunidades (para importação), mas a defasagem tem ficado muito pequena”, avaliou Araújo.

Até o mês passado, quando o real estava mais cotado a cerca de R$ 5,5 por dólar, a diferença entre os preços praticados nas refinarias da Petrobrás e os de importação apontavam para uma defasagem de 4% a 5%, ou cerca de R$ 0,10 a R$ 0,12 por litro. Com o câmbio em torno dos R$ 5, essa defasagem caiu para o intervalo de 1% a 2%, informa o executivo.

“A gente ainda tem uma insegurança. Se de fato o petróleo chegar a US$ 80, como alguns especialistas já falam, qual será o comportamento da Petrobrás?”, questiona.

O que a Petrobrás diz

A Petrobrás afirmou em nota que não houve alteração na política de preços, e que monitora permanentemente o mercado. “A partir de uma percepção de realinhamento de patamar, seja de câmbio, seja de cotações internacionais de petróleo e derivados, a empresa realiza reajustes de preço. Os estudos e monitoramentos elaborados pelas áreas técnicas de comercialização da Petrobrás suportam a tomada de decisão e a proposição de reajustes de preço, sendo observado permanentemente o ambiente de negócios e o comportamento dos seus competidores, visando a um posicionamento competitivo adequado”, concluiu.

Pesquisador do Instituto de Energia da PUC-Rio, Edmar Almeida avalia que qualquer demora no ajuste de preços que não seja justificada pela competição pode representar perdas para a Petrobrás. Em mercados abertos, as companhias, às vezes, não repassam imediatamente aumentos no preço internacional para proteger seu mercado da concorrência. “Mas estamos falando de dias, no máximo semanas. Para poder segurar preços em momentos de altas muito expressivas, as empresas trabalham com hedge (proteção cambial)”, afirmou Almeida, complementando que operações desse tipo têm custo, embora sejam comuns em ambientes competitivos.

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