Câmbio sem saída. De novo

Mais uma semana de tensões cambiais. Os ministros das Finanças e presidentes de bancos centrais do G-20 estiveram reunidos por dois dias para debater o assunto e aqui o governo aumentou de 4% para 6% o IOF sobre a entrada de certas formas de capitais. Tudo sem muito resultado em médio prazo. Continua havendo dinheiro demais lá fora e oportunidades de lucros insuperáveis aqui no Brasil.

ALBERTO TAMER, O Estado de S.Paulo

24 de outubro de 2010 | 00h00

Quando terminava a coluna, o comunicado final da reunião de Seul ainda não havia sido divulgado, mas isso não tem importância. Mesmo que eles concordem com a tese dos Estados Unidos de fixar em 4% limites para os superávits comerciais dificilmente respeitarão os compromissos assumidos. E não seria a primeira vez. Sempre que o G-20 se reúne, saem mais divididos. Nada será possível sem a cooperação da China e da Alemanha, que acumulam superávits e já disseram que não estão dispostos a ceder parte dos seus mercados.

Nós e o amigo errado. O Brasil, com um superávit anão de US$ 17 bilhões, que pode muito bem virar déficit ainda este ano, sofre o impacto direto da luta cambial. O governo tem uma posição meio "guache" nessa história cambial. Ataca os EUA porque adotam medidas que desvalorizam o dólar, para voltar a crescer, poupa a China, que está na origem de tudo. O yuan continua desvalorizado em 20% em relação ao dólar. E o Brasil silencia. Nenhuma palavra contra o protecionismo cambial.

Apanhamos dos dois. Nós, coitadinhos, sofremos dos dois lados. Perdemos nas exportações para os EUA e nas importações da China, para a qual só vendemos produtos primários e compramos industriais. Neste caso, perdemos duplamente porque, mesmo se o yuan fosse valorizado, os produtos chineses chegariam aqui a preços abaixo do custo de produção e nos desalojariam do mercado mundial, como estão desalojando. Não é a história do "capitalismo desleal", como diz ingenuamente Roberto Giannetti da Fonseca, da Fiesp. É competição de mercado, na qual cada um utiliza a arma da qual pode dispor. A China tem muitas em seu arsenal. Nós não temos quase nada.

Nossas importações explodem, as exportações se concentram em produtos primários e o déficit industrial aumenta. E eles não estão nem aí para nós. Como costuma dizer o ex-ministro Delfim Netto, "só há dois países que consideram a China como economia de mercado: a China, mais ou menos, e nós firmemente".

Vamos que vamos. E o nosso comércio exterior vai continuar manquitola de uma perna só. É como aquele bêbado que dizia, "não empurrem, não empurrem que eu caio sozinho". É um "vamos que vamos". Só que estamos ficando enquanto a China e União Europeia, que tem superávit de 51% com o Brasil, continuam indo sem olhar para trás. Sei que a coluna já tratou disso, mas o tema é por demais oportuno quando o G-20 se reúne para enfrentar o desequilíbrio cambial e nós ficamos no lugar errado. O que nos salva é o mercado interno.

Burti, demanda vigorosa. Nesse cenário externo que preocupa, a economia está sendo salva pelo crescimento vigoroso do mercado interno, com o aumento da renda. Representa hoje mais de 70% do PIB. E são nítidos os sinais que vai crescer ainda mais nos próximos dois meses. O presidente da Associação Comercial de São Paulo (ACSP), Alencar Burti, confirma à coluna que a expectativa para as vendas de Natal serão as maiores dos últimos anos. As projeções feitas até agora devem ser superadas.

Até 12%. "Acredito que as vendas no varejo deverão ultrapassar os 10% de crescimento, podendo chegar até 12%, acima de 2009. E isso em todos os setores. Só o 13.º salário injetará mais de R$ 100 bilhões até o fim do ano, sem contar o que já entrou na economia com o que já foi pago aos aposentados", lembra Alencar Burti. Para ele, a decisão do Copom de manter os juros em 10,75% foi extremamente cautelosa, o que está levando o Ministério da Fazenda a adotar medidas para atenuar a valorização do real, puxada em grande parte pelo juro elevado.

É de novo a vigorosa demanda interna, o mercado interno, sustentando a economia. Só está à espera que o mercado externo venha a ajudá-la a sustentar esse crescimento. E o peso a carregar é muito grande.

É muito peso para carregar sozinho.

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