Camboja ressuscita indústria da seda

País luta para reconquistar posição mundial perdida após anos de tumultos políticos

Simon Marks, O Estado de S.Paulo

25 de setembro de 2010 | 00h00

Longe do glamour das semanas da moda dos Estados Unidos e da Europa, a indústria da seda do Camboja luta para reconquistar a posição mundial que ela perdeu no período caracterizado pelos tumultos políticos e civis.

O governo acaba de determinar que a seda será um dos oito itens de exportação prioritários que receberão estímulos do Ministério do Comércio. Os especialistas concordam que a qualidade da seda cor de ouro tecida à mão deste país é muito superior à da seda branca industrializada da China, Vietnã e Tailândia.

O Camboja produz apenas cinco toneladas de seda ao ano, embora a demanda seja calculada em torno de 400 toneladas.

Além disso, ela é vendida a cerca de US$ 70 o quilograma, muito acima dos US$ 50 pagos pela seda importada, o que a torna muito menos competitiva no exterior.

O Camboja "não tem ainda capacidade e design próprios", disse Sokunthy Heng, gerente de exportação da Kearny Alliance, uma organização sem fins lucrativos que cuida do intercâmbio comercial do produto.

Renascimento. No entanto, vários sinais indicam que o setor começa a experimentar um verdadeiro renascimento. Em 2008, a cadeia britânica de lojas de departamentos Marks & Spencer decidiu encomendar a produção de fronhas de seda de 200 famílias da província de Prey Veng, e até o momento foram exportados 500 quilogramas do produto.

Em janeiro, a Kearny Alliance elaborou um relatório sobre a produção de acessórios de seda a fim de que os compradores pudessem localizar facilmente os fornecedores de qualidade no Camboja. (Sokunthy Heng não sabe se o relatório favoreceu a conclusão de algum negócio até o momento).

A Organização para a Alimentação e a Agricultura da ONU (FAO) contribui para o desenvolvimento da sericicultura. No ano passado, financiou um projeto de US$ 475 mil para colaboração com o governo na criação de um centro de produção de ovos de bicho da seda. Além disso, estão sendo instaladas sete fazendas onde os habitantes receberão treinamento para a sua criação.

A entidade calcula que, se o setor se desenvolver a ponto de atender à demanda interna, gerará empregos para 25 mil pessoas e resultará em uma economia de aproximadamente US$ 10 milhões ao ano em importações.

A produção cambojana de seda foi sempre uma atividade modesta, reservada principalmente às mulheres de áreas rurais que frequentemente carecem de elementos básicos como eletricidade e estradas modernas.

Muitas dessas regiões são também produtoras de arroz para uma economia de subsistência, na qual as mulheres trabalham exclusivamente em seu cultivo de maio a julho, época em que chegam as chuvas das monções, e à colheita em dezembro, tarefas que não permitem uma dedicação exclusiva à produção da seda.

O comércio da seda no Camboja data do século 13, quando os aldeões começaram a criar bichos da seda ao longo das margens dos rios Mekong e Bassac. Agora, os aldeões criam uma variedade de larvas da Bombyx mori, uma espécie de mariposa, que se alimenta das folhas de amoreira durante três semanas e depois tece um casulo dourado. O fio de seda dos casulos é então lavado, tingido e tecido.

Entretanto, entre 1975 e 1979, o regime comunista do Khmer Vermelho obrigou as pessoas a cultivar arroz em fazendas coletivas, causando a devastação da indústria da seda.

A recuperação tem sido penosamente lenta - na realidade, tão lenta, que somente 2% do fio usado para criar a seda cambojana hoje é produzido no Camboja, observou Kellianne Karatau, 40, uma das proprietárias da Jasmine Boutique, cujos vestidos ela também desenha, uma das poucas lojas de roupas da moda de Phnom Penh. O restante do fio da seda é importado de vários países.

"O aumento do fornecimento mundial de seda afeta o preço e a disponibilidade do fio", disse Karatau. "Portanto, para garantir o fornecimento de seda o Camboja teria de desenvolver a produção da matéria-prima da seda". / Tradução Anna Capovilla

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