Cameron, Hollande e Angela Merkel

A Europa continua enfrentando ventos contrários. Na cúpula do G-20 e nas chancelarias, todas as outras potências, Estados Unidos, Brics, China ou Rússia a advertem e imploram que se mexa um pouco para salvar sua moeda comum, este euro, tão exuberante quando não existia e tão pálido, tão melancólico, agora que existe.

Gilles Lapouge,

21 de junho de 2012 | 03h07

Ademais, à margem ou por baixo dessa guerra disfarçada entre a Europa e o resto do mundo, uma outra questão se desenvolve entre as principais potências do Velho Continente.

O francês Hollande (o presidente François Hollande), esse homem tão doce, tão pacato, tão roliço e tão pouco agressivo, só precisou de algumas semanas para se indispor com as duas principais nações da União Europeia, a Grã-Bretanha e a Alemanha.

O (primeiro-ministro) inglês David Cameron disparou um foguete devastador em Hollande. Ele declarou à cúpula do G-20 que Hollande tivera uma ideia estúpida quando decidiu taxar em 75%, na França, as rendas superiores a 1 milhão de euros anuais. Por quê? Porque os empresários franceses, se os privarem de suas existências douradas, vão fechar suas empresas e transportá-las para ambientes mais serenos. Por exemplo, para o ambiente britânico.

E Cameron, longe de se indignar, antes encoraja os ricos franceses e se propõe a acolhê-los em seu país. Com seu belo sotaque de Oxford e um "humour" intempestivo, ele acrescentou que a Grã-Bretanha estenderia o tapete vermelho para acolher os franceses que quisessem fugir dos apetites delirantes do fisco francês.

Esse entrevero verbal extraordinário revela que a integração no cerne da União Europeia não faz grandes progressos.

Não é curioso que um chefe de Estado europeu seduza cidadãos de um outro Estado europeu, encorajando-os a burlar o fisco de seu país e se deslocar para um outro Estado da mesma "comunidade europeia"?

Eventuais riscos. Mas os temores de Cameron são compreensíveis, como o são os dos empresários franceses e de muitas capitais europeias. Ele teme que Hollande, um dos únicos dirigentes socialistas na Europa, siga caminhos escabrosos mais propícios a alimentar o mal europeu que a curá-lo.

O receio de Cameron, como o do empresariado, é que as empresas francesas, cuja competitividade já é fraca, sejam prejudicadas pelas primeiras escolhas de Hollande: aumento das deduções sociais para financiar uma redução parcial da idade de aposentadoria, taxação das empresas que pagam dividendos, aumento da fiscalização do capital, elevação iminente do salário mínimo, tudo coroado por essa taxação de 75% sobre os salários superiores a 1 milhão de euros anuais.

O alarmante é que o caso de Cameron não é isolado. As divergências francesas também se aguçam com a Alemanha. Hollande intriga Madame Merkel (a chanceler alemã Angela Merkel).

Esse homem pouco vistoso, gordo e roliço, amável e modesto, a surpreende. Ele a tirou do convívio com Sarkozy (o ex-presidente francês Nicolas Sarkozy). Com este, era formidável. Como Merkel e Sarkozy tinham a mesma ideologia e a mesma estratégia, Merkel falava e Sarkozy seguia.

É o que dá ser socialista: Hollande não é contra o rigor, mas diz que é preciso também pensar no crescimento. Merkel não está convencida disso. Mas ela prometeu à cúpula do G-20 dar um passo, um pequeno passo, na direção de Hollande. E Hollande concluiu que ele também daria um passo. Um pequeno passo. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.