PHILIPPE WOJAZER | Reuters
PHILIPPE WOJAZER | Reuters

‘Cameron jogou roleta russa com a União Europeia’

Lamy não acredita num ‘efeito dominó’ no bloco por causa do Brexit, mas, se isso ocorrer, países pró-UE terão de ‘lutar’

Entrevista com

Pascal Lamy

Jamil Chade, correspondente, O Estado de S.Paulo

10 Julho 2016 | 05h00

GENEBRA - O primeiro-ministro britânico, David Cameron, “jogou roleta russa” com a União Europeia ao propor o referendo que aprovou a saída do Reino Unido do bloco por causa de uma disputa interna de poder. A afirmação é de Pascal Lamy, um dos comissários europeus de maior influência nos últimos 20 anos e ex-diretor da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Em entrevista ao Estado, o francês afirma que não acredita que partidos extremistas repliquem o mesmo referendo em outros países. Mas admite que, se isso ocorrer, líderes pró-europeus terão de lutar.

Lamy foi uma espécie de superministro do comércio do bloco europeu entre 1999 e 2004. Entre 2005 e 2013, comandou a OMC, num dos momentos mais delicados da organização. A seguir, os principais trechos da entrevista.

Como o sr. recebeu a notícia de que o referendo do Reino Unido terminou com a saída dos britânicos da UE?

Com grande tristeza e muito bravo com David Cameron, que jogou roleta russa com a Europa para ganhar um jogo de poder dentro do partido.

De que forma o projeto de integração passou a ser visto como uma ameaça, e não como um dos projetos de paz de maior êxito da história?

A relação dos britânicos com a UE foi sempre específica. Um pé dentro, um pé fora. Há 40 anos, eles entraram em um trem que estava em marcha já por 20 anos. Agora, eles querem desembarcar. O povo britânico decidiu que consegue nadar sozinho no oceano da globalização. Este não é o caso de nenhum outro dos 27 membros da UE, onde as pessoas não querem sair, mesmo que tenham dificuldades em chegar a um acordo sobre como administrar a loja.

O sr. teme que essa decisão gere um efeito dominó?

Não, precisamente pela mesma razão. Alguns movimentos extremistas na França, Alemanha, Holanda, Finlândia e Dinamarca vão tentar forçar um referendo para definir se seus países ficam ou saem da UE. Duvido que sejam apoiados pela maioria. Se nós, pró-europeus, tivermos de lutar essa batalha, vamos lutar.

O sr. acredita no risco de a Europa perder relevância?

Pelo contrário. Acho que, se a UE não tivesse sido inventada para se recuperar da guerra mundial feita pelos europeus, ela deveria ser inventada hoje para unir países europeus que compartilham valores similares: menor tolerância às desigualdades e mais tolerância à diversidade do que em qualquer outro lugar no mundo.

O sr. vê uma Europa mais protecionista depois do Brexit?

Não acredito. A política comercial europeia tem sempre se movido na direção de maior abertura. Os pedidos de mais protecionismo vêm dos extremos do espectro político.

E as negociações entre Mercosul e UE?

Não acredito que sejam influenciadas de uma forma ou de outra pelo Brexit, se é que elas vão ocorrer. Essas negociações já duram 20 anos.

Alguns apontam que o resultado do Brexit foi consequência de uma UE que era liberal demais e não suficientemente social.

Essa é uma das interpretações entre muitas outras. Os resultados foram muito diferentes de acordo com a idade, geografia, situação social e nível de educação. É verdade que as desigualdades aumentaram em alguns países europeus antes e durante a crise e que as pessoas mais pobres podem se sentir com raiva, frustradas e ameaçadas pelo capitalismo de mercado. Mas a interpretação da elite contra o povo não se verifica ao se avaliar os números da votação. Eu tenho dúvidas se o Reino Unido “fora” será socialmente mais justo. Infelizmente, os perdedores podem perder ainda mais.

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