Caminhão dá prejuízo para o produtor

'Pelo preço que oferecem, tenho um prejuízo de R$ 4 para cada saca de milho que vender'

Alexa Salomão, enviada especial / Sinop (MT), O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2013 | 02h03

"Em nenhum outro lugar no mundo, além do Brasil, safras são transportadas por Rodovia". Leonildo Barei, presidente do Sindicato Rural de Sinop.

"Fizemos a nossa parte, que é produzir mais e melhor. Falta o governo fazer a dele e garantir uma estrutura competitiva". Adelmo Zuanazzi, produtor de grãos do médio norte do MT. 

O fazendeiro Adelmo Zuanazzi passou as últimas semanas com uma única preocupação na cabeça: vender parte da produção de milho com o menor prejuízo possível para não colocar nem um grão ao relento. Não que ele não tenha onde guardar a sua colheita. Muito pelo contrário. Zuanazzi é um produtor que fez o dever de casa. Desde 1998, investiu R$ 2,5 milhões em seis silos capazes de receber 20 mil toneladas de grãos na região de Sinop. Normalmente, a estrutura é suficiente para abrigar os estoques. Neste ano porém, ele vive uma situação atípica. A produção de milho nos principais países produtores - Argentina, Estados Unidos, Ucrânia e Brasil - promete ser farta. Como ocorre nessas ocasiões, o aumento da oferta fez o preço despencar. Seus silos estão lotados, ele não consegue um preço para cobrir os custos, mas ainda está colhendo milho. "Pelo preço que oferecem, tenho um prejuízo de R$ 4 para cada saca de milho que vender", disse Zuanazzi.

Os produtores no Médio Norte do Mato Grosso, como Zuanazzi, gastaram entre R$ 10 e R$ 12 para produzir cada saca de milho colhido na atual safra. No entanto, como planta, no coração de Mato Grosso, a busca pelo preço justo é complicada. Quando se trata de produtos agrícolas, quanto mais longo e custoso for o trajeto para escoar a produção, menor será o preço pago ao produtor. Isso ocorre porque quem adquire o grão desconta o valor do transporte. O escoamento da produção nas cidades no Médio Norte só tem uma saída: o caminhão rodando pela BR-163, uma estrada com muitas deficiências, ainda em obras e trechos por asfaltar.

Uma rodovia, mesmo quando bem pavimentada, é de longe, a pior alternativa para o agronegócio. O custo de transporte sob pneus sai por cerca de R$ 320 a tonelada. Se a carga seguir por trem, o valor cai para menos da metade: R$ 120 a tonelada. A opção mais competitiva é a hidrovia. Custa cerca de R$ 65 a tonelada transportada. "Em nenhum outro lugar no mundo, além do Brasil, safras de grãos são transportadas por rodovia", diz Leonildo Barei, presidente do Sindicato Rural de Sinop. "Qualquer um sabe que o caminhão é a pior alternativa porque, além de caro para o produtor, desgasta as estradas, o que exige investimentos altos e constantes em manutenção, e ainda acarreta perdas da carga - cerca de 1% da safra de grão do Brasil cai das carrocerias." O desperdício é visível. Quem passa pela BR-163 hoje, por exemplo, pode ver o milho colorindo de amarelo trechos do acostamento.

Não é difícil também dimensionar as perdas dos produtores, Basta ver a cotação do milho por região. Na sexta-feira passada, o produtor de Rondonópolis, ao sul do Mato Grosso, podia vender a saca de milho por pouco mais de R$ 14. Rondonópolis está a 98 quilômetros dos trilhos da ALL, ferrovia que liga o sul do Mato Grosso ao Porto de Santos. A mesma saca nas cidades do Médio Norte, como Sinop, Sorriso e Lucas do Rio Verde, valia pouco mais de R$ 8. "Não faz o menor sentido estarmos nessa situação", diz Zuanazzi. "Para dar um salto na produção de milho foi preciso investir em novas variedades de sementes e no plantio. Nós fizemos a nossa parte, que é produzir mais e melhor. Falta o governo fazer a dele e garantir uma infraestrutura competitiva."

Tudo o que sabemos sobre:
Milho

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.