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Caminho longo

Bolsonaro terá de enfrentar a questão fiscal, que exigirá não seis meses, mas seis anos

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2018 | 07h52

Bolsonaro venceu. Essa foi a parte fácil. Agora vem a necessidade de enfrentar todos os problemas.

E o sucesso exigirá a integraração de várias opiniões que se defrontaram na eleição. O Brasil ainda está dividido. Persiste uma resposta negativa à ampla participação dos militares e preferências manifestadas com relação a algumas opiniões não mais toleráveis. Ele inicia seu governo com um Congresso que deseja participar ativamente e onde o seu controle dos votos é modesto, no melhor dos casos, e sua rejeição da parte de outros partidos políticos é bem conhecida.

Ele mostrou sensatez na escolha para o Ministério da Justiça. Sergio Moro, que liderou as investigações da Lava Jato, concordou em assumir a pasta. Ele desfruta de um forte apoio que transcende o recebido por Bolsonaro. As suas exigências no sentido de atuar com independência e ter um papel mais abrangente foram satisfeitas. Vamos ver como isso se desenvolve na prática. Os tribunais já estão às voltas com ações impetradas envolvendo a legalidade das contribuições de campanha, Caixa 2. Honestidade realmente deve começar no topo.

Na área econômica está Paulo Guedes. Seu compromisso para com a política do laissez-faire está bem consolidado. E as respostas a dois problemas centrais são desconhecidas. Conseguirá ele negociar com o Congresso, como precisa, uma emenda que trate da questão da Previdência? Já existem muitos planos sobre maneiras de tratar o déficit crescente no decorrer do tempo. Ir mais além, tentando capitalizar o sistema e transferir para administradores privados de recursos pode não satisfazer o mercado, ávido por um plano imediato que funcione. Conseguirá ele negociar com o Congresso para satisfazer as contínuas necessidades nos próximos anos do Bolsa Família, saúde, saneamento básico, em que existem contratos sociais implícitos? De novo, existem alternativas privadas, reduzindo os recursos públicos necessários, com o risco de mais desigualdade econômica, pessoal e regional. Há necessidades cruciais de uma mão de obra melhor, necessária para tornar o Brasil uma força econômica global.

Algum otimismo é relevante na indicação de Joaquim Levy como dirigente do BNDES. Poucos compreendem o mundo e o Brasil tão profundamente, ou possuem um currículo como o dele no serviço público. Ele assumirá uma tarefa fundamental: retomar uma visão racional e de prazo mais longo para o banco, que ainda é uma importante fonte de investimento doméstico.

Outras nomeações são mais preocupantes. As indicações para as pastas do Exterior, Agricultura e um militar na Defesa geram dúvidas. Relevante também é a escolha por Bolsonaro de um pequeno grupo de assessores, especialmente sua família, dos quais ele depende. É um retorno a políticas já vistas em governos anteriores quando assuntos políticos e econômicos foram resolvidos independentemente. São necessárias interações com mais transparência, não menos.

Bolsonaro deixou claro que espera manter um relacionamento estreito com Trump. E o Brasil parece disposto a mudar sua embaixada para Jerusalém, como os EUA. Seu novo ministro do Exterior deixou claro seu apoio ao nacionalismo brasileiro, incluindo, e possivelmente “drenando o pântano” de Brasília. 

Mas Trump experimenta um forte declínio da popularidade, mesmo com o desemprego com queda recorde. E sofreu uma importante derrota nas eleições de meio de mandato recentemente realizadas. Trump hoje tem muito menos apoio do que imaginava. Grandes grupos se reuniram nos seus comícios durante a campanha, aplaudindo sua oposição à imigração, seu desinteresse pelos assuntos externos, e a insistência em grandes acordos a serem ainda feitos com Rússia e Coreia do Norte.

Sua família é seu único refúgio e apoio pessoal. Ele está desesperado para pôr um fim na investigação a cargo de Robert Mueller antes que ocorram novos indiciamentos. Para isso, nomeou um secretário de Justiça interino. E deseja substituir outros ministros. Com o controle da Câmara pelos democratas, ele enfrenta a ameaça de suas declarações de imposto de renda serem publicadas, ao passo que as negociações com o exterior fracassam. Ele já vem se preparando para a campanha presidencial em 2020. Há sinais de uma desaceleração do crescimento econômico, enquanto Bolsonaro terá de enfrentar problemas imediatos mais difíceis no Brasil.

Há a questão fiscal que exigirá não seis meses, mas seis anos, para ser resolvida. O Brasil necessita de poupança muito maior exatamente quando os juros nos países desenvolvidos estão subindo, o que piora a situação. Necessita desenvolver tecnologias não tradicionais e deixar de subsidiar privilegiados históricos como os fabricantes de automóveis. E, sobretudo, precisa rever seu sistema educacional não aumentando gastos, mas competências, o que dará melhores oportunidades para um número muito maior de pessoas.

Só podemos esperar que se coloque um foco nessas questões e não em tantas outras que dificilmente tornarão o Brasil grande novamente. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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