Capítulo 08

Caminho para a economia sair do buraco ainda é longo

Os números do PIB do ano passado e os primeiros indicadores deste ano mostram o tamanho do desafio do governo Bolsonaro, e também que a reforma da Previdência é fundamental, mas não é tudo

Alexandre Calais, O Estado de S.Paulo

01 de março de 2019 | 13h18

Caro leitor,

Há tempos todos já têm mais ou menos uma noção dos desafios a serem enfrentados na economia brasileira. Esta semana, isso ficou um pouco mais claro. E é um desafio gigantesco. Os números do produto interno bruto (PIB) de 2018 não deixam dúvida: o País tem enorme dificuldade para sair do buraco em que entrou . Como mostramos, com o pífio crescimento de 1,1% no ano passado, a atividade econômica está no nível de 2012. E, pior, a renda per capita está abaixo do nível em que se encontrava em 2010!

As expectativas vêm sendo frustradas mês a mês, desde que o Brasil entrou e saiu da recessão. No início do ano passado, como lembra o nosso colunista José Roberto Mendonça de Barros, todos esperavam um crescimento entre 2,5% e 3%. Mas ele admite que a extensão da crise foi subestimada.

Os números da economia neste início de ano também não são animadores. O índice de desemprego voltou a crescer em janeiro. Tem um aspecto sazonal nisso, já que há o efeito da demissão dos temporários contratados para as vendas de fim de ano. Mas, a essa altura, já se esperava um resultado melhor. O País ainda conta com uma legião de 12,7 milhões de desempregados, e, entre os que estão trabalhando, a informalidade é muito grande.

Os dados do Caged (o cadastro geral de empregados e desempregados, que mede a criação de vagas com carteira assinada) de janeiro mostraram um saldo de 34 mil empregos. Apesar de positivo, isso é menos da  metade do que foi registrado em janeiro do ano passado.

A constatação é unânime. Para o País voltar a crescer, é urgente que reformas estruturais sejam aprovadas. A da Previdência, que já está no Congresso, é essencial. Silvia Matos, pesquisadora do Ibre/FGV, diz que isso seria crucial para a sinalização do compromisso do governo de Jair Bolsonaro com as contas públicas. Mas, mesmo com a reforma, ela acredita que o País ainda terá um longo caminho para voltar a crescer na casa dos 3%.

Nosso colunista Celso Ming também bate na mesma tecla. Reforma da Previdência é essencial, mas não é tudo. Os problemas da economia são maiores: indústria sem competitividade, poupança muito baixa, investimentos num nível mais baixo ainda. Para fazer os investidores ganharem confiança e a economia reagir de verdade seria preciso avançar mais.

Há, portanto, nesse momento, uma grande incerteza sobre os rumos da economia. O mercado financeiro continua a acreditar que haverá uma reforma da Previdência, que vai destravar os investimentos. Sem ela, o cenário fica sombrio. A Secretaria de Política Econômica do Ministério da Economia preparou um estudo para mostrar que, sem essa mudança, o País voltará em breve à recessão.

Ao mesmo tempo, avolumam-se as dúvidas em relação a qual reforma da Previdência será aprovada. A tramitação do projeto ainda nem começou, não há comissão criada, nem relator escolhido. Mas o bombardeio em cima da proposta no Congresso é forte. A questão do auxílio aos idosos carentes é criticada por todos, a idade para a aposentadoria dos trabalhadores rurais também é um alvo frequente. Sem contar a pressão dos servidores públicos, todos querendo garantir a manutenção de seus benefícios.

Não ajuda muito na negociação quando o próprio presidente da República admite, mesmo antes de a tramitação começar, que pode atenuar pontos da reforma para facilitar a aprovação – reduzindo, por exemplo, a idade mínima das mulheres de 62 anos para 60 anos. Talvez o que seja necessário agora é convencer o próprio presidente Bolsonaro da importância dessa reforma, ou corremos o risco de ficar ainda muito tempo nesse buraco que entramos lá no governo Dilma Rousseff.

 

Alexandre Calais

Alexandre Calais

Jornalista

Está no Estadão desde 2004

Bolsonaro e a Economia

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