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Caminho sem volta

Tanto a presidente Dilma como o ex-presidente Lula começam relutantemente a admitir que erraram na condução da política econômica.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

04 de abril de 2015 | 02h03

Oficialmente admitem ter errado apenas na dose. Mas, na medida em que já apoiam não só um ajuste temporário, mas também uma política de reforço dos fundamentos da economia, parecem demonstrar que estão convencidos de que o governo PT errou também na política adotada. Mas isso precisa ser trocado em miúdos.

Depois de meses afirmando categoricamente que não havia nada a consertar e de ter centrado sua campanha eleitoral com esse discurso, dia 16 de março, a presidente Dilma reconheceu que "pudesse ter cometido algum erro de dosagem", mas não que tivesse adotado a política errada.

Na última terça-feira, na manifestação das centrais sindicais, Lula foi até mais direto: "Todos nós cometemos equívocos. Poderíamos ter aumentado o preço da gasolina lá em 2012". Como também defende o ajuste, conclui-se que, então, admita a existência de desajustes na economia.

Erro de dose também mata. É a dose que faz o veneno, diz sabedoria tão antiga quanto a história da farmacopeia. Mas, se fosse apenas erro de dose, seria só uma questão de aplicar o antiveneno e, em seguida, a dose correta do mesmo remédio.

É bem mais do que isso. Ter adotado uma política que deu prioridade ao consumo sem ter cuidado do investimento e da produção; ter derrubado artificialmente os juros logo no primeiro ano do seu primeiro mandato; ter adotado uma política fiscal gastadora; ter optado pela desoneração "grosseira", como afirmou o ministro da Fazenda, Joaquim Levy; ter represado o câmbio, as tarifas da energia elétrica e os preços dos combustíveis; ter, enfim, adotado a Nova Matriz Macroeconômica não foi apenas um simples erro de mão. Foi um erro de diagnóstico e um erro de terapia.

Quando reconhece que foi um equívoco segurar os reajustes dos combustíveis, política que sangrou o caixa da Petrobrás em pelo menos R$ 20 bilhões, o ex-presidente Lula ainda não chegou aonde teria de chegar. Não fez autocrítica do erro básico, que foi a adoção de políticas de represamento de preços para segurar a inflação. Nem passou a recomendar o alinhamento dos preços, tanto interna como externamente, como procedimento para evitar distorções.

Uma política econômica que emperra o crescimento econômico a níveis que hoje estão próximos do zero; que suporta inflação superior a 8% em 12 meses, como começa a acontecer; que desorganiza o sistema elétrico; que esfola a Petrobrás; que asfixia a indústria; e que produz rombos crescentes nas contas correntes com o exterior - essa política não pode ser considerada resultado apenas de erros sucessivos de dose. É equivocada não só porque desorganizou os fundamentos da economia, mas também porque impediu ou tornou insustentáveis as políticas sociais corretas.

Ainda há quem aposte em que, tão logo se complete o ajuste, a presidente Dilma voltaria à política anterior, mais adequada a seu perfil intervencionista. No entanto, começa a ser mais provável que aconteça o contrário. Na entrevista que concedeu à Bloomberg na última terça-feira, a presidente Dilma deu a entender que, além de estar comprometida com o ajuste, está convencida de que este é um caminho sem volta.

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