Divulgação/PRF
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Caminhoneiros bloqueiam trechos de rodovias em 8 Estados

Desde a manhã de domingo, motoristas organizam bloqueios em importantes rodoviais do País para protestar contra o aumento do preço do diesel e exigir elevação dos valores dos fretes

José Maria Tomazela, O Estado de S. Paulo

23 Fevereiro 2015 | 09h53

 

Texto atualizado às 17h29

Em protesto contra aumentos no diesel, pedágio e impostos, caminhoneiros bloquearam rodovias em pelo menos oito Estados nesta segunda-feira, 23. As manifestações, lideradas por sindicatos e de iniciativa dos próprios transportadores autônomos, cobravam reajuste nos fretes e melhoria nas estradas. Em regiões do Paraná e de Santa Catarina, o bloqueio de rodovias teve início na semana passada e já afeta o abastecimento de frigoríficos e o escoamento do leite. Em algumas cidades desses Estados e do Mato Grosso começa a faltar combustível. 

A rodovia Fernão Dias, principal ligação entre São Paulo e Belo Horizonte, tinha 36 quilômetros de congestionamento à tarde, entre a região de Perdões e a capital, em território mineiro, causado por dois bloqueios na pista sentido São Paulo e quatro na pista sentido BH. Uma faixa de cada lado estava liberada para automóveis e veículos de emergência. A Polícia Rodoviária Federal negociava a liberação completa no final da tarde. 

No Paraná, 20 trechos rodoviários estavam interditados. Por causa dos bloqueios, postos das regiões de Cascavel e Guarapuava estavam sem combustível. Em São João, produtores estavam sem óleo diesel para seguir com a colheita, segundo o Sindicato Rural. Os protestos vêm ocorrendo no Estado desde o dia 13. 

A paralisação atingiu o Rio Grande do Sul nesta segunda-feira. Os caminhoneiros chegaram a atear fogo em pneus no acostamento da estrada de acesso a Ijuí. No início da tarde, seis bloqueios deixavam o trânsito lento em rodovias federais. A Polícia Rodoviária confirmou pontos de interrupção no tráfego também nas rodovias estaduais, mas informou que os protestos eram isolados e afetavam apenas veículos de carga.

Produção agrícola. Em Mato Grosso, caminhoneiros trancaram a BR-163, principal via de escoamento da produção agrícola do Estado, que está em plena colheita da soja. De acordo com o vice-presidente da Associação dos Produtores de Soja (Aprosoja) para a região norte, Silvésio de Oliveira, já há relatos de falta de combustível em municípios pequenos. "Se essa situação se prolongar, vamos ter graves problemas, pois muitos produtores não têm onde estocar a soja", afirmou. 

Os bloqueios afetam, além de acessos a Cuiabá, vias de ligação entre Sinop, Nova Mutum, Lucas do Rio Verde, Sorriso e Adamantina, municípios com grande produção agrícola. O caminhoneiro autônomo Renato Prates de Luca, que atende grupos agrícolas de Rondonópolis, reclama do frete baixo. "Pagam R$ 3,80 o km rodado, quando deveria ser no mínimo R$ 4,60. Temos um imposto caro no Estado e, quando caímos em estradas de São Paulo e do Paraná, o custo fica insuportável por causa do pedágio." Ele conta que é obrigado a fazer rotas alternativas, mas que aumentam o risco e elevam o gasto com diesel.

Leite e carne. A mobilização dos caminhoneiros afeta o funcionamento das indústrias de leite, carne e grãos do oeste catarinense, gerando prejuízos ainda não calculados, segundo o diretor do Sindicato das Indústrias de Carnes e Derivados de Santa Catarina, Ricardo de Gouvêa. Embora os bloqueios permitam a passagem de veículos com cargas perecíveis, como carne, leite, animais e frangos vivos, no retorno esses veículos são barrados e não podem recarregar.

Gouvêa, que é dirigente também da Associação Catarinense de Avicultura (ACAV), disse que a situação é caótica e pode haver demissões. "A economia da região está sendo estrangulada. Em muitos municípios, a coleta de leite foi suspensa. Enviamos alertas a órgãos dos governos estadual e federal pedindo ação rápida. Animais e aves podem perecer por falta de alimentação." Houve bloqueios também em Goiás, Rondônia e Mato Grosso do Sul.

De acordo com o presidente da União Nacional dos Caminhoneiros (Unicam), José Araújo Silva, a mobilização mostra que os autônomos estão "em situação de desespero", pois os custos subiram e o frete não remunera seu trabalho. "O frete está como a água do Cantareira, não existe. Se não houver um reajuste, a maioria dos caminhoneiros não chega até o fim do ano." 

Ressaltando que a Unicam não participa das manifestações - "nem sei quem está organizando" - ele disse que a mobilização é justa. "O autônomo não tem mais como apertar sua torneira. Do lado dos empresários dos transportes, o que se vê são muitos que foram incentivados a adquirir caminhões, agora não conseguem pagar e os estão vendendo para seus empregados, transformando-os em autônomos." 

Segundo Silva, para evitar que "o caos se instale", as partes envolvidas - autônomos, empresários e governo - devem dialogar e discutir as causas dessa situação. "É melhor que todos os envolvidos assumam suas parcelas de culpa e, em conjunto, caminhem para uma solução." Citado como organizador da mobilização, o Movimento União Brasil Caminhoneiro (MUBC) informou que apenas apoia, mas não participou diretamente de nenhuma ação.

Em nota em seu site, a Associação Brasileira de Caminhoneiros (Abcam) também negou participação nos bloqueios. "A Abcam não está conclamando os caminhoneiros autônomos para participarem de nenhuma paralisação", informou em nota. Não lançamos nossos irmãos caminhoneiros em aventuras e quimeras apenas para satisfazer o ego, o ódio e o inconformismo de ninguém."

Já o presidente do Sindicato dos Transportadores Autônomos de Cargas de Minas Gerais (Sindimac-MG), Antonio Vander da Silva Reis, disse ter tomado conhecimento da mobilização pela imprensa. "Nosso sindicato não aderiu até porque não foi convidado."

Em Santa Catarina, o presidente do Sindicato das Empresas de Transporte e Transportadoras do Oste Catarinense (Setcom), Paulo Sermione, disse que o movimento é independente e liderado por caminhoneiros autônomos da região. "Mas a causa é justa e apoiamos as reivindicações." 

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