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Caminhoneiros goleiam por 7 a 1

Retirada de radares, maior limite de pontos na CNH, rejeição do reajuste no preço do diesel, linha de crédito do BNDES, R$ 2 bi para a conclusão de obras e manutenção de rodovias: os caminhoneiros conseguiram tudo o que pediram

João Domingos, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 04h00

Uns dizem que o governo de Jair Bolsonaro se tornou refém do movimento dos caminhoneiros. Outros que, ao contrário do que ocorreu há menos de um ano, quando o então presidente Michel Temer foi pego de surpresa pelo bloqueio de estradas, o serviço de inteligência do atual governo, comandado pelo general Augusto Heleno, detectou a movimentação dos caminhoneiros e possibilitou ao presidente agir antes que o tumulto se instalasse.

Independentemente do que dizem uns e outros, o certo é que no governo de Bolsonaro os caminhoneiros têm ganhado de goleada de qualquer outra categoria. Digamos que uns 7 a 1, só para lembrar a goleada que a seleção brasileira de futebol tomou da Alemanha na Copa de 2014, a fracassada “Copa das Copas”, como a chamou a então presidente Dilma Rousseff antes do vexame que nos eliminou nas semifinais.

O fato é que os caminhoneiros conseguiram tudo o que pediram. Se é que pediram tudo o que já conseguiram de Bolsonaro, se não a decisão em si, pelo menos a promessa: 40 pontos negativos na Carteira de Habilitação em vez dos 20 atuais, retirada dos radares que medem o excesso de velocidade nas estradas federais, não ao reajuste superior a 5% no preço do diesel, linha de crédito do BNDES para manutenção de caminhões, R$ 2 bilhões do Ministério da Infraestrutura para a conclusão de obras importantes e manutenção de rodovias tidas como essenciais, e de fato são, como as BR-163, BR-101 e BR-116.

A respeito dessas rodovias, é bom lembrar que não tem uma vez em que as chuvas ou a precária infraestrutura de estradas no Brasil ameaça o transporte de grãos que um governo não se lembre delas. Depois, as chuvas se vão, os atoleiros acabam, os caminhões carregados de soja enfim chegam a seus destinos e o assunto é esquecido.

Quanto à força dos caminhoneiros no governo de Bolsonaro, não se deve subestimá-la de forma nenhuma. Uma boa parte deles deu apoio à campanha do atual presidente, seja pelas redes sociais, seja por carregar faixas com propaganda do então candidato do PSL. O próprio Bolsonaro estabeleceu linhas diretas com os caminhoneiros logo depois do bloqueio das estradas no final de maio e início de junho passado. Esse movimento que paralisou o País foi muito bem compreendido por Bolsonaro, que soube tirar dele o máximo de proveito eleitoral.

Portanto, quando interveio na Petrobrás para impedir aumento superior a 5% no preço do diesel, sob o argumento de que a inflação anual não tinha chegado a tanto, Bolsonaro fez um gesto de agradecimento a uma categoria que muito o ajudou a chegar ao Planalto. Não interessa se quebrou preceitos do liberalismo, de não intervenção no mercado. Num momento delicado como o atual, sem uma base de sustentação no Congresso e com as instituições numa guerra ferrenha, bloqueios de rodovias podem se tornar um pesadelo de consequências imprevisíveis logo no início do governo.

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