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Caminhos da energia: o desafio de encurtar a travessia para a economia de baixo carbono

Especialistas concordam que tempo para fazer essa transformação é curto e que todos têm papel decisivo no processo, inclusive os consumidores

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

14 de outubro de 2021 | 08h00

O Brasil tem todo o potencial para ser um grande protagonista na chamada economia de baixo carbono. O que não significa que não existam grandes obstáculos pela frente, como o controle do desmatamento amazônico e, principalmente, um plano estrutural mais ousado a favor de valores sustentáveis, que possa unir setor privado, academia, a comunidade política e a sociedade.

Exemplos a favor da diversificação da matriz energética, como os parques eólicos e a transformação social em curso no interior do Nordeste, apontam caminhos importantes que precisam ser potencializados. Vários especialistas em energia também discutem, com propriedade, o que precisa ser feito para que o Brasil possa virar a chave de forma definitiva.

O que todos concordam é que o tempo é curto. Para não perder o bonde da história - e ser impactado em cheio pelas mudanças climáticas globais - a revolução verde não pode parar no meio do caminho. Todos têm um papel decisivo neste processo, inclusive os consumidores. No Brasil, o desperdício de energia é histórico e constante.

Em busca do baixo carbono

Quando o assunto é bioenergia, o Brasil está bem posicionado para a travessia rumo a uma economia planetária de baixo carbono. O que não significa que não existam vários ajustes e aprimoramentos que precisam ser perseguidos. Na visão de especialistas no tema, se a questão tecnológica é uma das mais bem equacionadas, o lado humano ainda é o que mais deixa a desejar

"O ser humano precisa estar mais convencido e preparado como um todo", afirma José Antônio Per­rella, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp). A questão humana, no sentido de maior engajamento a favor da economia de baixo carbono, é a parte mais complicada da equação que se tem hoje, segundo o cientista. "Do ponto de vista social, quando se fala muito em ESG, que envolve o ambiente, o próprio social e a governança, temos um campo grande aí pela frente", diz Per­rella.

A pesquisadora Glaucia Souza, professora do Instituto de Química da USP, concorda que a questão da governança é central no debate que se tem hoje sobre bioenergia. "A economia fóssil não foi necessariamente ruim. A saúde das pessoas melhorou, a longevidade também. Mas estamos em uma situação de emergência e o indivíduo, por exemplo, tem um papel importante em pressionar os governos a mudar", afirma a pesquisadora.

No caso específico do Brasil, explica Glaucia, já existe um grande potencial a ser explorado. "O Brasil é o único país com mais de 60 milhões de habitantes que tem 43% de energia renovável. Nenhum outro país tem isso. Por isso, é um exemplo que precisa ser copiado", afirma a pesquisadora da USP. No caso específico do uso de biocombustíveis, a marca brasileira, por volta de 50% se somadas todas as fontes, também evidencia que a curva de aprendizado tem sido satisfatória.

Bagaço da cana

São vários os caminhos que ainda podem aumentar a presença das fontes energéticas renováveis, indicam as pesquisas, como é o caso do bagaço da cana. "Com apenas 50% da palha colhida no campo, o que não vai tirar a proteção do solo, pode-se conseguir responder com 98% da demanda de energia elétrica residencial brasileira", calcula Glaucia.

A experiência brasileira, segundo os resultados científicos, também pode ajudar em outro dilema atual, ligado à produção de energia e alimentos em pouca quantidade de terra. "Temos vários projetos nesse sentido, que podem ser espelhados em outros países da América Latina e também na África", afirma Glaucia, que também coordena o Bioen, Programa de Bioenergia financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). 

"A tecnologia, em muitos casos, está pronta. Não precisamos de muitas inovações. Mas existe muito espaço para avançar na área dos bioprodutos", segundo a professora da USP. 

Um dos desdobramentos que podem surgir é o uso da lignina (das plantas) para a fabricação de cimento. "O ponto importante é entrar em harmonia com os ciclos naturais, como o do carbono, do fosfato e do nitrogênio", resume Glaucia.

Virada de chave

Uma economia baseada na bioenergia, além de gerar renda e emprego, vai colocar o planeta na rota da sustentabilidade. Mas essa fase de transição para uma economia de baixo carbono tem de ser curta, algo próximo de uma década. Se a chave não virar de forma inequívoca, o comprometimento da qualidade de vida na Terra será irreversível.

"Em certas situações precisamos falar em adaptação e não mais em mitigação", afirma Glaucia Souza, da USP. No caso da cana-de-açúcar, planta que ela classifica como "maravilhosa", os estudos tentam entender como a cultura pode se comportar melhor em tempos de seca que, ao que tudo indica, serão cada vez mais frequentes. 

"A cana quase não é irrigada. Ela precisa da chuva para se desenvolver. Ao mesmo tempo que é solução, por causa da alta produtividade, pode ser um problema. Estudos recentes mostram que muitas áreas onde hoje se planta cana serão afetadas pelo regime de chuvas", explica a cientista.

Apesar das dificuldades, segundo a pesquisadora, políticas públicas que buscam convergir na direção da redução de emissões estão sendo implementadas no Brasil. "A legislação do Renovabio é importante nesse sentido, até para criar uma cultura a favor da descarbonização", diz Glaucia. Em linhas gerais, o programa do governo federal, em seu segundo ano de implantação, cria um mercado de certificados de redução de emissões, os Cbios. 

Produtores de biocombustíveis cadastrados na iniciativa podem, ao desenvolver cadeias que emitem menos gases do efeito estufa para a atmosfera, comercializar os papéis a que terão direito por essa redução.  "Existe uma metodologia definida que calcula as reduções de carbono como um todo. É a ciência, o setor privado e a política pública provocando mudanças." 

Os bondes da história

Uma economia que seja menos dependente do carbono - substância que em grandes quantidades faz com que a temperatura média da Terra suba, alterando os padrões do clima de forma relevante em relação ao que se conhece hoje - é um valor que precisa ser realmente desejado pelas pessoas, segundo José Antônio Perrella, professor da Universidade Estadual Paulista (Unesp).

"Recentemente, nós perdemos o bonde da história. Primeiro, na parte elétrica, durante o apagão de 2001 e, depois, na questão da crise hídrica [entre 2014 e 2016]", afirma o pesquisador da Unesp em Guaratinguetá. Segundo Perrella, em vez de se partir para a estratégia do comando e controle, ou seja, as pessoas responderam porque seriam multadas, deveria se ter seguido um outro curso.

"Temos que ir para o lado da educação. Olhando o futuro, é preciso dar as mãos e, como sociedade, mexer com os valores que envolvem a sustentabilidade. Pelo planeta e pelas futuras gerações", afirma o pesquisador da Unesp. "Tecnologia para um mundo que emite menos carbono nós temos. Mas todos também precisam usar a energia de forma mais racional", defende o pesquisador.

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