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Energia solar será a principal fonte da matriz elétrica brasileira em 2040. GettyImages

Caminhos da energia solar: aumento da produção e queda do preço viabilizam mercado brasileiro

Cenário aponta para grande expansão da energia solar no País ao longo da década que está começando

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 08h00

Modalidade sustentável de geração de energia que vem ganhando importância a cada dia no País, a energia solar é responsável atualmente por 2,1% da matriz elétrica nacional. Parece pouco, mas a produção fotovoltaica saiu praticamente do zero há cinco anos. De lá para cá, a produção saltou de 93 megawatts (MW) em 2016 para os atuais 10.429 MW - um aumento de 112 vezes. Com base nesse crescimento exponencial, projeção da Bloomberg New Energy Finance apontou que a energia solar será a principal fonte da matriz elétrica brasileira em 2040 - 32%, ante 29% das hidrelétricas - e a principal do mundo em 2050.

Um fator essencial para esse crescimento é a queda dos custos. Se, no começo, a energia solar era considerada uma alternativa cara, hoje esse conceito está superado. O preço médio nos leilões de energia no mercado regulado brasileiro caiu a um quarto no período entre 2013 e 2021, de US$ 103 para US$ 25,87 por megawatt-hora (MWh). Desde 2019, a energia solar se tornou a fonte mais competitiva dos leilões de energia realizados no País.

Considerando-se a crescente demanda por fontes sustentáveis de energia, em sintonia com as metas corporativas de redução das emissões de carbono e os princípios ESG (sigla em inglês para Ambiental, Social e Governança), o cenário aponta para uma grande expansão da energia solar no Brasil ao longo da década que está começando.

Para discutir os benefícios econômicos e ambientais da energia fotovoltaica e as perspectivas desse mercado, o Estadão Blue Studio promoveu o webinar "Caminhos da energia solar" no dia 6 de outubro. Mediado pela jornalista Amanda Pupo, o evento foi patrocinado pela Equinor - empresa internacional?de energia que atua há 20 anos no País - e teve três painéis: "Ganhos do uso da energia solar", "Desafios da matriz elétrica brasileira e as políticas econômicas que envolvem a energia solar" e "Como viabilizar a energia solar no setor privado - residências e empresas". 

Brasil avança no ranking mundial

Em 2020, o Brasil foi o nono país que mais instalou novos sistemas de energia solar, de acordo com dados da Agência Internacional de Energia (IEA) compilados pela Associação Brasileira de Energia Solar (Absolar). Foram 3,1 GW em novos empreendimentos, aumento de quase 40% em relação a tudo o que o País havia instalado até então.

As instalações feitas no País em 2020 foram, predominantemente, de pequeno porte. De acordo com a Absolar, 80% dizem respeito à chamada geração distribuída, composta em geral por placas fotovoltaicas instaladas em telhados de residências ou estabelecimentos comerciais para contemplar a demanda desses consumidores. As projeções para 2021 são de aceleração ainda maior do ritmo, com a perspectiva de chegar a um crescimento de pelo menos 50% em relação a 2020, impulsionado mais uma vez pela geração distribuída.

Com esse desempenho, o Brasil vem se aproximando da Holanda na disputa pelo 13º lugar do ranking mundial. A China detém uma liderança ampla, com 254,4 GW, ante 152,9 GW do segundo colocado, os Estados Unidos. Apesar do crescimento registrado nos últimos anos, os especialistas são unânimes ao afirmar que a posição brasileira no ranking mundial ainda está muito aquém do potencial - até mesmo porque, nas demais modalidades de energia renovável, o País já está entre os dez primeiros do mundo.

Tudo indica que é apenas uma questão de tempo para que o Brasil chegue aos top ten. O País vem apresentando um ritmo de desenvolvimento bem acima da média global. Enquanto a produção do planeta nos últimos dez anos passou de 40 GW para 710 GW, um salto de quase 18 vezes, no Brasil, a produção foi multiplicada por 112 só nos últimos cinco anos, saindo de menos de 0,1 GW para 10,4 MW.

Brasil, terra do sol

"Somos reconhecidos como um dos melhores países para investir em energias renováveis, em especial na solar", diz Ronaldo Koloszuk, presidente do Conselho de Administração da Absolar. Boa parte desse reconhecimento decorre dos atributos naturais do País - território amplo, com alta incidência de iluminação solar ao longo de todo o ano. 

De acordo com análise comparativa produzida pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o potencial de produção da energia solar no Brasil varia entre 4,25 e 5,5 kilowatt-hora (kWh) por m2, ante 3,5 a 5 kWh por m2 na Europa. É uma diferença expressiva, mas os brasileiros ainda não desfrutam como poderiam desse atributo. Apenas 765 mil unidades consumidoras de energia do País já recorrem à energia solar e recebem créditos pelo Sistema de Compensação de Energia Elétrica, num universo de 86 milhões de possibilidades - ou seja, 0,9%.

Além da forte redução nos custos registrada pela energia solar nos últimos anos, outro fator que impulsiona o crescimento da modalidade no Brasil é a oferta de financiamentos específicos para quem deseja investir na modalidade - são mais de 70 linhas disponíveis no mercado, muitas delas oferecidas pelos bancos mais tradicionais, com vantagens na comparação com as demais opções de empréstimos. 

"As prestações desses financiamentos frequentemente ficam menores do que a economia obtida na conta mensal de energia, que pode chegar a 90%", diz Koloszuk. Assim, de acordo com as projeções da Absolar, depois de cinco ou seis anos de um financiamento que se paga praticamente sozinho, o consumidor dispõe ainda de um longo período para ampliar as vantagens financeiras decorrentes da energia solar - já que, em geral, os equipamentos têm garantia de fábrica de 20 anos.

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Viabilizar a vocação natural

Regulamentação, ajustes na legislação e incentivos são passos fundamentais para a expansão da energia solar no Brasil

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 08h00

Não basta ter muito sol, ao longo de todo o ano, sobre o território brasileiro: é preciso viabilizar essa vocação natural. O Brasil ainda tem muito a evoluir nesse sentido, mas há a expectativa de avanço na legislação relacionada à energia solar por causa principalmente do Projeto de Lei 5.829/2019, que cria um marco legal para a geração distribuída – ou seja, estabelece regras para incentivar os pequenos produtores de energia. O PL foi aprovado pela Câmara dos Deputados em agosto e seguiu para análise do Senado.

Rodrigo Lopes Sauaia , presidente executivo da Absolar, contou durante o debate promovido pelo Estadão que há uma campanha para a aprovação rápida do PL, a tempo ainda de a iniciativa ser apresentada pelo Brasil na COP-26, 26ª edição da Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que ocorrerá em Glasgow, na Escócia, entre 31 de outubro e 12 de novembro. “Seria um exemplo de ação que ajuda o País a empoderar seus consumidores a produzir a própria energia e contribuir, assim, para o sistema”, avaliou Sauaia.

Segundo o texto do PL, consumidores que já possuem sistema de geração distribuída permanecerão isentos de cobranças até 31 de dezembro de 2045. Quem solicitar a entrada no sistema até doze meses após a publicação da nova legislação também ficará isento até 2045. Para os novos consumidores, haverá uma regra de transição de seis anos. A proposta é que esses consumidores comecem a pagar por 15% dos custos associados à energia elétrica em 2023 — porcentual que será gradativamente elevado.

Clauber Leite, coordenador do Programa de Energia do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec), demonstrou desconforto com a pressa para discussão e aprovação do PL 5.829. “Temos ressalvas quanto a esse PL. Quem toma o risco, quem paga a conta, quem fica com os custos é sempre o consumidor. Mas eu certamente sonho com o momento em que será possível gerar a própria energia e não depender desse sistema como um todo.”

Os especialistas ressaltaram, também, a importância de criar ou de aprimorar mecanismos de incentivo, a exemplo de descontos para o uso das linhas de transmissão pelas fontes renováveis. Outro ponto fundamental, ressaltou Sauaia, é dar maior clareza sobre como os operadores de energia solar serão ressarcidos pela energia que é produzida, mas não é aproveitada, por falta de capacidade estrutural de escoamento pelo sistema. “Não podemos deixar os produtores com o risco. O mercado não pode mais esperar por uma solução para essa questão, mas a discussão vem sendo sucessivamente postergada”, criticou o diretor da Absolar.

 

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Antídoto para crise hídrica

Ampliação da energia solar pode ser decisiva para equilibrar o sistema nacionale reduzir a conta de energia dos brasileiros

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 08h00

O cenário de crise hídrica no Brasil pode contribuir para dar ainda maior velocidade ao desenvolvimento da energia solar no País, por causa da conscientização de que é preciso fomentar alternativas que aumentem a estabilidade e a confiabilidade do sistema – e evitem o uso das termelétricas. Essa alternativa emergencial, planejada para ativação nos períodos de redução do volume de água nos reservatórios das hidrelétricas, é negativa tanto do ponto de vista financeiro, pois ativa a bandeira vermelha e faz aumentar a conta para os consumidores, quanto ambiental, já que envolve a liberação de gases poluentes na atmosfera.

Clauber Leite, do Idec, lamentou durante o debate promovido pelo Estadão que, mais uma vez, a conta esteja sendo paga pelos consumidores. “Fizemos um estudo no Idec e chegamos à conclusão de que os brasileiros estão gastando neste ano 200% mais com bandeira tarifária do que a média dos últimos oito anos”, ele descreveu.

“O que temos visto ao longo dos anos é que, no final das contas, os brasileiros acabam pagando caro pela falta de planejamento. Esse é um péssimo hábito do nosso país”, reforçou Koloszuk, da Absolar. Ele lembrou que um leilão de energia foi cancelado em 2016 com base nas projeções feitas à época de que em 2021 estaria sobrando energia no País.

Se as famílias ou as empresas decidirem realizar investimentos em energia solar hoje, é provável que ainda consigam obter benefícios financeiros durante a atual crise hídrica, que não tem data prevista para ser superada e pode se estender por um longo período. “A energia solar é a modalidade mais rápida para instalação. Em projetos domiciliares, a questão costuma ser resolvida em poucos dias”, ressaltou Koloszuk. Raciocínio semelhante poderia ser aplicado a projetos governamentais, enfatizou o executivo da Absolar. “Se o governo contratasse hoje uma grande usina, em 18 meses essa estrutura estaria funcionando.”

A entidade representativa do setor tem ressaltado que investir em energia solar é um caminho obrigatório e inevitável para os países – e que maior agilidade nesse processo poderá fazer muita diferença a favor do Brasil. “As fontes renováveis representarão neste século o mesmo que a energia das fontes fósseis representou para o mundo no século passado”, definiu Rodrigo Lopes Sauaia, presidente executivo da entidade.

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Vantagens multiplicadas

A adoção da energia solar é positiva para o meio ambiente e para a imagem das empresas

Estadão Blue Studio, O Estado de S.Paulo

15 de outubro de 2021 | 08h00

Os investimentos em energia solar estão alinhados às demandas da emergência climática e à disseminação que o conceito de ESG (Ambiental, Social e Governança) alcançou ao longo deste ano nos mercados corporativo e financeiro do Brasil. “Além de todas as vantagens, ainda tem mais essa: a energia solar é extremamente positiva para a imagem de quem investe nela e para os indicadores de ESG de uma empresa”, lembrou, durante o debate promovido pelo Estadão, o professor Marcus Nakagawa, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM), coordenador do Centro ESPM de Desenvolvimento Socioambiental (CEDS).

Alinhada com essas tendências, a Equinor Brasil definiu que a energia solar estaria entre as prioridades de investimentos. No final de 2018, a empresa inaugurou seu primeiro complexo fotovoltaico no País – em Apodi (CE) –, que foi também o primeiro empreendimento do gênero no portfólio global da companhia. No ano passado, a Equinor adquiriu participação acionária na Micropower, especializada no desenvolvimento de sistemas de armazenamento de energia.

“A gente aposta na modernização do setor elétrico brasileiro”, disse Alexandre Franceschi, gerente de Desenvolvimento de Negócios de Energia Renovável da Equinor. Ele acrescentou que a empresa considera positiva a perspectiva de abertura do mercado brasileiro para novas formas de comercialização de energia, como o mercado livre. “São caminhos para fomentar a concorrência e dar acesso mais barato à energia para os consumidores.”

Franceschi contou que, como parte do caminho para cumprir a meta de zerar as suas emissões até 2050, a Equinor estabeleceu o objetivo de que metade de todos os investimentos da empresa em 2030 esteja ocorrendo em energias renováveis. Ele citou, também, os possíveis obstáculos que podem retardar a expansão da energia solar no Brasil. “Os principais riscos são as dificuldades de conexão ao sistema integrado e a falta de regulação específica”, apontou o executivo da Equinor. “Como a energia solar é nova na matriz, a regulamentação precisa ser acelerada para dar mais conforto aos investidores.”

Mercado equilibrado

Considerada uma concorrente natural da energia eólica (produzida pela força dos ventos), a energia solar está levando vantagem na disputa. “Os investimentos anuais em energia solar no mundo chegaram a US$ 149 bilhões, ante US$ 125 bilhões em eólica”, compara José Mauro de Morais, pesquisador do Ipea. Outra vantagem da modalidade, ele aponta, é a maior geração de empregos: estima-se que a energia solar já tenha criado 3,7 milhões de vagas ao redor do planeta, ante 1,2 milhão decorrente da exploração da energia eólica.

Dos empregos gerados pela energia solar, 312 mil foram no Brasil. “São postos qualificados, incluindo muitos engenheiros e outros profissionais de nível superior, com a vantagem adicional de estarem espalhados por todo o Brasil, muitas vezes em regiões pobres”, ressalta Koloszuk, da Absolar.

O barateamento das tecnologias de energia solar pode representar, também, uma saída para 800 milhões de pessoas ao redor do planeta que não dispõem de energia em casa. Só na Amazônia Legal, estima-se que 300 mil pessoas vivam nessa condição, muitas das quais recorrem à energia gerada por motores a diesel, solução altamente poluente. 

Há dificuldades técnicas e financeiras para viabilizar baterias capazes de armazenar a energia solar captada ao longo do dia, o que faz com que parte dessa produção se perca quando não é imediatamente utilizada. Outra preocupação referente ao tema é a futura destinação das baterias após o uso: seria contraditório, para uma modalidade de energia limpa, gerar um passivo ambiental de difícil solução, ainda que os efeitos disso sejam bem menos prejudiciais do que a emissão de gases poluentes na atmosfera decorrente da queima de combustíveis fósseis.

Para Koloszuk, o Brasil tem a grande oportunidade de não depender das baterias como solução para o armazenamento, desde que consiga planejar a matriz de forma integrada. “As hidrelétricas poderiam ser a nossa grande ‘bateria’. Se o País incentivasse fortemente as novas fontes renováveis de energia, a água das hidrelétricas poderia ser guardada para momentos de necessidade, como este que estamos enfrentando agora”, propõe o executivo da Absolar. Nesse cenário, as hidrelétricas, fontes de energia renovável e limpa, fariam o papel de backup que hoje é feito pelas termelétricas, fontes poluentes e bem mais caras.
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